Antes do adeus…

A semana passada lembrei-me de uma ideia iluminada que tinha deixado em standbye: escolher a banda sonora do meu funeral. Até agora pode estar a parecer mórbido, mas é precisamente o contrário falar de morte e falar do que quero da vida. O meu pensamento não parou e lembrei-me de uma formação que tive na área dos cuidados paliativos na qual abordámos as últimas tarefas antes da morte, ou seja, para morrer em paz connosco mesmos deveríamos ser capazes de, antes de morrer, dizer a quem realmente é importante para nós:

Amo-te – Há pessoas que preenchem o nosso espírito com amor, sejam eles amigos, filhos, conjuges, pais, amantes,…

Perdoa-me – Todos falhamos. Saber pedir perdão é um sinal de humildade e de crescimento pessoal, uma aprendizagem essencial para a vida.

Perdoo-te – Se nós falhamos, os outros também falham, e muitas vezes falham para connosco; a perfeição não está ao alcance de ninguém. Saber perdoar o outro é libertar-me do lixo tóxico da raiva, da arrogância, da indiferença e do rancor que envenenam a mente.

Obrigado – A gratidão é essencial a uma vida feliz e não existe ninguém que não tenha nada a agradecer a alguém.

Adeus – Fazer a despedida. Esta é forte…! Mas trata-se da aceitação de um fim, da passagem que é a nossa viagem pela vida.

Há autores que defendem que estas são as cinco tarefas que as pessoas, antes de morrer, precisam de ver resolvidas. Mas isto é mais do que literatura que vende, basta tentarmos colocar-nos no lugar de alguém que sabe que tem pouco tempo de vida. O que é que deixámos por fazer que, na iminência de tudo acabar, queremos mesmo realizar? Muitos de nós se calhar pensam em sonhos que gostavam de ter concretizado, viagens, fazer um testamento vital, deixar os nossos bens a quem precisa, gastá-los enquanto podemos,… Bem, na verdade, embora tudo isso nos possa passar pela cabeça, estas cinco atitudes, de uma maneira ou de outra, vão bater-nos ao coração nessa hora.

Quando “temos tempo” (ou melhor, quando achamos que temos tempo), deixamos muita coisa por dizer, damos as pessoas por garantidas e isso vale também para a nossa vida… Achamos que não precisamos de dizer às pessoas que gostamos delas porque elas já o sabem ou porque percebem mesmo sem termos de o dizer, mas às vezes a palavra faz tanta diferença… Não deixo de achar interessantes estes paradoxos: por um lado, as palavras de nada valem quando não se revêm nos nossos comportamentos; por outro, o poder que uma palavra tem no coração de alguém pode ser tão valioso que considero uma pena ser assim desvalorizado.

Dizia o professor de um amigo, pela sua experiência, que o que aterroriza mais as pessoas quando descobrem que podem não ter muito tempo de vida é quando fazem a retrospetiva das suas vidas e percebem que nunca fizeram nada pelos outros. A nossa felicidade, a nossa paz de espírito está, sem dúvida, interligada com o bem-estar dos outros, o propósito da nossa vida nunca passa por vivermos uma vida isolada do resto do mundo pensando só em nós… Resumindo, é impossível ser feliz sem relação uns com os outros, sem sentirmos que a nossa vida faz uma diferença positiva na vida de alguém, que dá mais vida a alguém.

“A felicidade só é real quando é partilhada”, concluía o jovem Christopher McCandless – cuja vida é retratada no filme “O Lado Selvagem” – quando se isolou da sociedade por achar que poderia ser feliz sozinho apenas junto do que a natureza lhe proporcionava… e acabou por morrer só e à fome, longe de tudo e de todos, deixando esta frase escrita como testemunho antes de morrer.

Ao terminar este texto, ponho-me a pensar e chego à conclusão de que o problema está precisamente em não pararmos um pouco para pensar nestas questões no dia-a-dia… Será preciso sabermos que temos as horas ou os dias contados para nos resolvermos a falar?

Por isso, o repto que deixo para esta semana é: digam mais vezes “gosto muito de ti” ou “amo-te” às pessoas importantes da vossa vida; peçam perdão a quem acham que devem um pedido de desculpas; perdoem quem precisa do vosso perdão para seguir em frente; agradeçam a quem vos quer bem, a quem têm hoje nas vossas vidas mas que amanhã não sabem se terão; e estejam verdadeiramente presentes na vida de quem é importante para vós, para que um dia, na despedida, não carreguem um peso tão pesado.

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