Quando é que uma piada deixa de ter graça?

Perguntavam-me há dias “qual é, para ti, um assunto sobre o qual está mesmo fora de questão fazer piadas?”.

Na altura, confesso que tive alguma dificuldade em responder porque sinto que, nesse aspeto, sou bastante tolerante e sei definir os limites entre a piada e a realidade, mesmo quando as piadas são sobre a realidade. Nenhum dos assuntos que me ocorriam se encaixavam na resposta que queria dar… eu sou capaz – e permito – fazer piadas sobre os mais diversos assuntos… a morte, a doença, tragédias, catástrofes, sobre mim, sobre situações difíceis que tive de enfrentar, etc.

Tudo aquilo que são temas sensíveis e que, muitos deles, não me tocam diretamente no dia-a-dia, são temas com os quais consigo brincar no momento propício, sem deixar de os considerar sensíveis e procurando não desconsiderar quem os viveu.

Porém, quem me fez a pergunta devolveu-me também uma resposta: “eu consigo fazer piadas sobre tudo, menos sobre o sofrimento dos outros… existe até aquele tipo de humor mais negro, mas, ainda assim, não consigo brincar com a dor de alguém…”.

Que resposta tão inteligente, tão sensível, tão humana… De facto, tanto as doenças, como a morte, como as catástrofes (o conceito em si) são «coisas», são fatores externos (que, sem dúvida, nos influenciam). Mas a dor, o sofrimento, a mágoa, o luto, a tristeza, a desolação que cada um vive e lhe é muito particular, essas são inquantificáveis! Não é por acaso que tantas pessoas referem não ter medo da morte ou de adoecer, mas que têm medo da forma como podem morrer, medo de sofrer, de sentir dor. E essa é uma experiência acerca da qual ninguém se deveria atrever a chegar à frente a não ser para estender a mão ou para oferecer tempo, escuta.

Eu sou a favor de que “não há limites para o humor”, de tudo podemos (re)criar uma história e extrair-lhe alguns risos (mesmo os mais forçados), mas nem sempre a história passa a ter piada por causa disso…

Recentemente, assisti a um espetáculo de comédia chamado «Nanette» (disponível na Netflix), protagonizado pela comediante australiana Hannah Gadsby. Todo o espetáculo se desenrola a partir de episódios da sua vida e de tudo aquilo por que passou a partir do momento em que se afirmou homossexual, ainda durante a sua adolescência, numa época em que a homossexualidade era considerada um crime na Austrália.

Durante todo o espetáculo ela faz piadas sobre si, sobre a sua vida, sobre as vezes em que foi confundida com um homem pela sua aparência e, na mesma sequência, fala sobre as vezes em que foi agredida e abusada sexualmente por não seguir os padrões de sexualidade, de vestuário e de comportamento que eram considerados «normais».

De tudo ela fez piada. Mas, ao longo do espetáculo, o espectador apercebe-se de que não é possível ficar indiferente ao que ela diz, mesmo se em tom de gozo para com ela própria. A isto ela chama de “humor autodepreciativo”, que é quando o comediante se critica a si próprio, criando uma imagem excessivamente depreciativa acerca de características e/ou comportamentos seus, e fazendo piadas sobre eles. É um estilo de humor muito recorrente e de efeito rápido, principalmente quando os espectadores se identificam com as características que são descritas. Contudo, à medida que ela continua, vamo-nos apercebendo que o tom utilizado nem sempre é de gozo; há momentos em que ela já não está a fazer comédia, está a relatar a sua história, de forma crua, seca e despida de máscaras. E aí, o riso que antes preenchia a sala agora parece ridículo, descontextualizado, como aquele riso inoportuno numa sala silenciosa e cheia de eco. «O humor autodepreciativo, vindo de alguém que já vive à margem, não é humildade. É humilhação», explicava.

É possível contarmos as nossas histórias de sofrimento acrescentando ou retirando alguns tópicos que lhe dão um ar mais leve, mais resolvido e até mais distante. Mas inquestionável e inalterável são as emoções e os sentimentos que lhes estão associados… a pessoa inteira que se partiu em bocados até ser capaz de voltar a reconstruir-se.

Esta semana deixamos dois desafios:
– Reflete: o que é que, para ti, é demasiado importante/sensível para ser alvo de piada?
– Escreve: partilha connosco a tua resposta, se for importante para ti, ou escreve-nos a dar a tua opinião!

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