“Por que razão nos deixa Deus sofrer?”

Deparei-me há dias com este livrinho do grande teólogo Karl Rahner (1904-1984). E li-o com curiosidade e interesse. É a publicação de uma conferência que o autor repetiu várias vezes, devido ao impacto positivo em muitas pessoas. Aborda uma das questões “mais fundamentais da existência”, o sofrimento, especialmente o dos inocentes, procurando articulá-la com o mistério e a liberdade de Deus e a condição e liberdade do homem.

Rahner percorre e examina quatro tentativas de “resposta teísta à questão do sofrimento”: a que o considera “fenómeno natural num mundo em desenvolvimento”, como um custo inevitável do progresso; a que o vê “como consequência da culpa da liberdade da criatura”; a que o entende “como uma oportunidade de provação e de maturação”, sendo meio de crescimento; e a que o acolhe como “anúncio de uma outra vida, a vida eterna”, sendo etapa de passagem em breve superada. Para este teólogo, todas estas tentativas têm algum interesse e verdade, mas são insuficientes e não respondem satisfatoriamente à questão que nos inquieta. Não nos dão uma justificação aceitável para o sofrimento na história humana.

E então? Para Rahner, não há uma resposta compreensível para a questão o sofrimento. Ele é inevitável e incompreensível na existência humana. Esta incompreensibilidade não deve levar-nos à resignação, ela penetra-nos e desafia-nos. “Enquanto verdadeiro e eternamente incompreensível, o sofrimento é uma autêntica expressão da incompreensibilidade de Deus, na sua essência e na sua liberdade”.

O sofrimento humano só em Deus e no seu mistério tem resposta. “Esta resposta, diz o teólogo, só pode ser apreendida por quem se abandona num amor incondicional e orante a Deus, que é a resposta.” E continua: “Quando nos abandonamos a este amor que é o esquecimento de si e entrega a Deus, ou melhor: quando nos fechamos a esta graça, resta-nos apenas o puro desespero sobre o absurdo do nosso sofrimento, que é propiamente a única forma de ateísmo que devemos levar a sério. Para além de Deus, não há nenhuma luz bendita que ilumine as trevas profundas do sofrimento. E esta luz só a encontramos, quando damos o nosso sim amoroso à incompreensibilidade do próprio Deus, sem a qual Deus não seria Deus.”.

Foi nessa entrega amorosa a Deus que Jesus encarou a sua paixão e morte. E Jesus é a ajuda que Deus nos dá. Através dele, Deus concede-nos a graça e a confiança para a aceitação do sofrimento e da sua incompreensibilidade: “O cristão está convencido que a resposta que deve dar ao problema do sofrimento só é possível pela graça que nos vem da resposta que Jesus deu na Cruz na hora da morte, no momento em que sentiu fraquejar a sua vontade: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. O cristão acredita que o ressuscitado é o crucificado e morto, e vice-versa, e que a resposta que é abandono ao mistério de Deus e ao mistério da morte foi aceite por Deus como eternamente válida e salvífica, e que a resposta é o próprio Deus”. Por isso, só na oração confiante se pode enfrentar e suportar o sofrimento.

Como sugere o autor, é no campo da espiritualidade e da fé que a questão do sofrimento pode encontrar algum sentido e aceitação. Foi a experiência luminosa dos místicos de diferentes religiões. Apresento três figuras.

Chiara Lubich (1920-2008), cristã católica e fundadora do Movimento dos Focolares, descobriu na experiência de Jesus crucificado e abandonado a passagem da dor ao Amor, como que um mergulho no amor divino transformador. Diz numa oração a Jesus: “Quem entra no teu sofrimento infinito, encontra, como por encanto, tudo transformado em Amor: Deus está sob aquele véu de desespero infinito e n’Ele está o Universo criado e o Céu incriado. Encontrei o tesouro escondido, toda a ciência, toda a beleza, toda a bondade, todo o amor: encontrei a vida.” (Jesus Abandonado, 41).

Na introdução ao mencionado livro de Chiara Lublich, é citado o poeta muçulmano  Saadi , do século XIII, que escreveu: “Quando vim ao mundo, a vida pôs-me nas mãos uma taça: bebi-a até ao fundo e ali encontrei uma pérola: a juventude. A juventude deu-me a sua taça e, depois de a ter bebido, encontrei entre os lábios o rubi do amor. O amor ofereceu-me a sua taça, e também a bebi e, no fundo, estava o diamante da dor. Desesperado, bebi até à última gota também a taça da dor, e, com suma maravilha, ali encontrei Deus” (transcrito em Jesus Abandonado, 15).

Vai no mesmo sentido a experiência da judia Etty Hillesum (1914-1943). Internada num campo de concentração nazi, confidencia numa carta o ambiente angustiante o ambiente em que se encontra: “A miséria aqui é verdadeiramente terrível, e, no entanto, à noite, acontece-me com frequência caminhar ao longo do arame farpado e, então, do meu coração eleva-se uma voz –  com tal força que não a posso evitar – e esta voz diz: a vida é uma coisa esplêndida e grande, mais tarde deveremos construir um mundo completamente novo. A cada crime ou horror deveremos opor um novo pedaço de amor e de bondade que conquistámos em nós mesmos. Podemos sofrer, mas não devemos sucumbir. Há um limite para todos os sofrimentos e talvez a um ser humano não seja dado suportar mais do que pode. De vez em quando morre aqui alguém porque o seu espírito está despedaçado e já não consegue mais compreender. Em geral são pessoas jovens. As pessoas idosas estão implantadas num terreno mais sólido e aceitam o seu destino com dignidade e resignação. Sim, aqui vê-se uma grande variedade de pessoas e pode observar-se a sua atitude face às questões mais árduas, as questões últimas”. O “Diário” e as cartas desta mulher documentam a riqueza interior e a luz que a habitava constituindo a força e o motivo para a sua vida e atividade: “Dentro de mim, há um poço fundíssimo. Lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas o mais frequente é o poço estar cheio de pedra e cascalho e Deus soterrado. Então é preciso desenterrá-lO”.

Continuamos sem a resposta por que razão nos deixa Deus sofrer, mas, na experiência da oração e da busca espiritual, mesmo envolvidos pelas trevas do sofrimento, podemos descobrir que há uma misteriosa companhia divina que se aproxima de nós e nos acende na alma uma luz e a chama do amor eterno que nos guiam e dão esperança nas tribulações da existência.

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