Pode um católico praticar ioga?

O ioga está na moda, difundindo-se na nossa sociedade como mancha de óleo, através de estágios, aulas e propostas variadas que chegam mesmo às escolas básicas. E até a instituições católicas. Mestres e instrutores propõem exercícios corporais, respiração, relaxamento, alimentação vegetariana, pensamento positivo e meditação.

Começo a resposta com outra pergunta: pode uma pessoa ir à beira-mar molhar os pés sem perigo de ser apanhado e arrastado por uma onda? Conforme o conhecimento que ela tiver do mar e do seu estado naquele momento e a consciência dos perigos e cuidados a ter, assim poderá ou não satisfazer o seu gosto. Algo de semelhante acontece com a prática do ioga e outras experiências da vida.

O ioga está na moda, difundindo-se na nossa sociedade como mancha de óleo, através de estágios, aulas e propostas variadas que chegam mesmo às escolas básicas. E até a instituições católicas. Mestres e instrutores propõem exercícios corporais, respiração, relaxamento, alimentação vegetariana, pensamento positivo e meditação. O que é realmente e como há de um católico encará-lo?

O ioga é uma das práticas da religião hindu e tem por detrás toda a sua cosmovisão, antropologia e espiritualidade. A palavra vem da antiga língua da Índia, o sânscrito, significando “ligação, união com Deus”. Tem, portanto, uma matriz religiosa. É definida no dicionário como “conjunto de exercícios físicos e respiratórios para atingir bem-estar e controlo físico e mental” e também como “filosofia hindu que advoga práticas físicas e mentais para atingir a libertação do mundo material”. 

É uma das escolas filosóficas do hinduísmo e uma disciplina para conduzir o praticante “à libertação espiritual”. A sua base filosófica está nos livros sagrados daquela religião e a sua prática usa os mantras hindus. A prática ióguica inclui a utilização de posturas físicas (asanas), unidas a exercícios respiratórios concebidos para estimular a meditação e alterar o estado da própria consciência a fim de que quem o pratica alcance a união com uma “realidade superior”, um estado espiritual, um novo modo de ver e viver. 

Frequentemente, os instrutores negam a sua ligação religiosa e afirmam a compatibilidade com qualquer crença religiosa. Dois mestres do Ioga admitem honestamente: “Na verdade, muitos aspetos do ioga têm um sabor hindu, como os mantras sânscritos (sons sagrados que os praticantes devem recitar em voz alta ou repetir mentalmente, ou as ideias sobre a retribuição moral (karma) ou a reencarnação… As pessoas de qualquer crença religiosa ou espiritual e mesmo os agnósticos mentalmente abertos podem praticar o ioga com grande proveito. Não obstante, eles tendem a ter tipos de experiências ioguisticas que no final os levam a considerar se não adotar as teorias oferecidas pela tradição do ioga” (Feuerstein y Bodian).

A visão cósmica e antropológica em que assenta o ioga defende que existe uma única realidade no universo, uma energia eterna, divina e espiritual. Os humanos são extensões dela e a disciplina física e mental é para se unir a essa energia cósmica. Algo muito diferente da visão cristã que assenta na convicção de que Deus eterno é o criador do mundo e do homem e de que este é chamado a viver na relação pessoal de amor e comunhão espiritual com o seu criador através de Jesus Cristo e do Espírito Santo, na comunidade eclesial e no empenho por transformar o mundo em que vive. Dada esta diferença essencial, a prática continuada do ioga pode conduzir o fiel católico a substituir as suas convicções cristãs por outras, enfraquecendo a pertença eclesial e desviando-se da fé em que recebeu o batismo.

Não será possível separar a componente religiosa e buscar somente os benefícios físicos e mentais? Embora haja quem pretenda distinguir a disciplina de meditação e relaxamento ou terapia da componente e do fundamento religioso, é preciso saber se na prática isso é possível para os seus instrutores e praticantes. A verdade é que “a prática do ioga tende, formalmente, para um fim espiritual dentro do contexto de uma visão universal propriamente hindu” (Joel S. Peters). A referida separação não é fácil. No entanto, os bispos da Igreja católica siro-malabar da Índia reconhecem essa possibilidade, escrevendo: “O ioga é uma prática útil e benéfica para o corpo e a mente, mas não deve ser confundida com a espiritualidade. (…) Não é o meio para alcançar o contacto com o divino, se bem que possa contribuir para a saúde física e mental. (…) Deve ser considerado como um exercício físico, uma postura para se concentrar e meditar”.

Quem pretenda praticar o ioga deverá conhecer bem aquilo em que se está a meter e ter consciência de que o exercício corporal e a concentração não são tão alheios à espiritualidade subjacente ao mesmo, como crê quem se deixa iludir pelos benefícios que espera obter. Trata-se de um método e um caminho para atingir um fim espiritual e não apenas físico e mental. 

Há mestres do ioga que prometem aos seus praticantes alcançarem experiências extraordinárias como “sonhos lúcidos, estados incorpóreos, clarividência e outras faculdades psíquicas, assim como êxtases, estados místicos e, no ápice de todas elas, a libertação”. Todavia, esta disciplina não traz sempre benefícios aos seus praticantes, pois pode também provocar-lhes perturbações espirituais e até psíquicas, como testemunham algumas pessoas que passaram pela experiência da sua prática continuada. E claro há o risco de desvio da própria fé.

Em conclusão: pode um católico praticar ioga com finalidades terapêuticas e de bem-estar? Não o deve fazer, se não tiver os conhecimentos suficientes para saber distinguir os aparentes benefícios terapêuticos e de bem-estar dos riscos em que pode cair. Pode fazê-lo enquanto exercício corporal e mental, se souber distinguir essa componente da dimensão religiosa e espiritual que lhe está inerente e estiver atento ao perigo de confusão e perturbação espiritual e mesmo psíquica. Além de mais, deve conhecer bem os elementos essenciais da fé cristã e as ofertas que ela faz para alcançar uma vida feliz, harmoniosa, confiante e animada de esperança.

Recomendo dois documentos úteis para enquadrar e esclarecer esta temática do ponto de vista cristão, nomeadamente no que se refere à meditação e á espiritualidade. São os seguintes: Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspetos da meditação cristã, 15/10/1989; Conselho Pontifício da Cultura e Conselho Pontifício para o diálogo inter-religioso, Jesus Cristo, portador de água viva. Uma reflexão cristã sobre a “Nova Era”, 2003.


Fonte: em parte baseei-me no artigo de Joel S. Peters, Puede un cristiano practicar yoga como disciplina corporal?, em http://www.religionenlibertad.com/articulo.asp?idarticulo=21212

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