Pode o calor “derreter” a nossa capacidade de pensar?

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As vagas de calor não afectam apenas o corpo. Podem também reduzir a capacidade de concentração, afectar a memória e dificultar a tomada de decisão. Num planeta cada vez mais quente, proteger a capacidade de pensar poderá tornar-se um dos grandes desafios do século XXI

POR HELENA OLIVEIRA

A Europa volta a enfrentar uma onda de calor extremo. Em vários países, os termómetros ultrapassaram os 40 graus, multiplicam-se os alertas das autoridades, aumentam os incêndios, a pressão sobre os hospitais e as perturbações nos transportes. Portugal prepara-se agora para enfrentar alguns dos dias mais quentes do ano.

Mas existe uma consequência menos visível de tudo isto. Quando pensamos nos efeitos do calor extremo, imaginamos desidratação, insolação ou exaustão física. Pensamos menos no cérebro. No entanto, um número crescente de estudos sugere que, à medida que a temperatura sobe, diminui também a capacidade de concentração, a atenção, a memória e até a qualidade das decisões.

Num planeta cada vez mais quente, talvez seja tempo de começarmos a olhar para as ondas de calor de outra forma. Não apenas como um problema ambiental ou de saúde pública, mas também como um desafio cognitivo, social e económico.

O cérebro também sente calor

Quando pensamos nos efeitos do calor extremo, imaginamos sobretudo um corpo em esforço para manter a temperatura sob controlo. Pensamos menos no cérebro. No entanto, é precisamente aí que uma das consequências mais importantes das vagas de calor começa a tornar-se visível.

Nos últimos anos, um número crescente de estudos tem mostrado que temperaturas muito elevadas podem afectar a capacidade de concentração, a memória, a atenção e a tomada de decisão. Os efeitos tornam-se particularmente evidentes em tarefas que exigem raciocínio, planeamento ou vigilância prolongada, enquanto as actividades mais simples tendem a ser menos afectadas.

Não se trata apenas de uma sensação subjectiva. Há evidência de que o desempenho cognitivo diminui à medida que o organismo é sujeito a um maior stress térmico. Em ambientes demasiado quentes, o cérebro demora mais tempo a processar informação, aumenta a probabilidade de erro e torna-se mais difícil manter a atenção durante períodos prolongados. Em algumas situações, cresce também a irritabilidade e diminui a capacidade de autocontrolo.

Talvez isso ajude a explicar porque razão, durante uma vaga de calor, tantas pessoas descrevem exactamente a mesma experiência: sentem-se mais lentas, mais cansadas, menos concentradas e com dificuldade em pensar com clareza. Afinal, essa percepção tem também uma base fisiológica.

Quando o corpo entra em modo de sobrevivência

A explicação é relativamente simples. O organismo humano funciona dentro de uma margem de temperatura muito estreita e dispõe de vários mecanismos para evitar o sobreaquecimento. Quando o calor aumenta, o corpo reage de imediato: dilata os vasos sanguíneos, aumenta a transpiração e acelera a circulação para libertar calor através da pele.

Tudo isto exige energia. E exige também um esforço acrescido do sistema cardiovascular, que precisa de manter o equilíbrio da temperatura corporal sem comprometer o funcionamento dos restantes órgãos. Ao mesmo tempo, a perda de líquidos e de sais minerais através da transpiração favorece a desidratação, enquanto as noites tropicais dificultam o sono e reduzem a capacidade de recuperação.

O cérebro não fica imune a este processo. Pelo contrário. Sendo um dos órgãos que mais energia consome, é particularmente sensível às alterações provocadas pelo calor. Quando o organismo concentra recursos para manter a temperatura corporal sob controlo, o desempenho cognitivo pode ressentir-se. A atenção diminui, o raciocínio torna-se mais lento e tarefas que normalmente parecem simples podem exigir um esforço acrescido.

Quando pensar exige mais esforço

Como já referido, as consequências do calor extremo não se limitam ao desconforto físico. Fazem-se sentir em muitas das actividades que ocupam o nosso quotidiano: aprender, trabalhar, estudar, conduzir, resolver problemas ou tomar decisões. Quando o corpo concentra uma parte significativa da sua energia em regular a temperatura, pensar pode exigir um esforço acrescido.

É precisamente por isso que vários estudos têm associado as temperaturas elevadas a um pior desempenho em tarefas que exigem atenção, memória e raciocínio complexo. Em alguns casos, observa-se um aumento da probabilidade de erro, tempos de reacção mais lentos e maior dificuldade em manter a concentração durante períodos prolongados. Não porque o cérebro deixe de funcionar, mas porque passa a trabalhar em condições menos favoráveis.

Esta realidade ganha particular relevância numa sociedade em que uma parte crescente do trabalho depende menos da força física e cada vez mais da capacidade de analisar informação, comunicar, aprender e decidir. O calor deixa, assim, de ser apenas um problema para quem trabalha ao ar livre. Torna-se também um desafio para uma economia baseada no conhecimento.

Quando as temperaturas sobem, proteger a saúde continua a ser essencial. Mas proteger a capacidade de pensar poderá tornar-se igualmente importante.

O calor já não é apenas um obstáculo ao esforço físico. É também um desafio ao esforço intelectual.

Estamos preparados para trabalhar num mundo mais quente?

Durante muito tempo, as ondas de calor foram encaradas sobretudo como um problema de saúde pública ou de protecção civil. Mas, à medida que se tornam mais frequentes e intensas, começam também a colocar uma questão diferente: estaremos preparados para viver, aprender e trabalhar num planeta mais quente?

Grande parte da economia actual depende da capacidade de concentração, aprendizagem, criatividade e tomada de decisão. Se o calor afecta precisamente estas funções, talvez seja necessário repensar algumas ideias que durante décadas pareceram evidentes. Desde os horários de trabalho e das escolas até ao desenho dos edifícios, das cidades e dos espaços públicos, muitas das soluções que hoje consideramos normais foram pensadas para um clima diferente.

Esta mudança coloca novos desafios às organizações. Como proteger a saúde sem comprometer a actividade? Como adaptar horários, espaços e formas de trabalho a períodos de calor extremo cada vez mais frequentes? E como garantir que a produtividade não seja avaliada apenas pelo tempo de permanência no local de trabalho, mas também pelas condições em que as pessoas conseguem pensar, aprender e decidir?

Ou seja, a adaptação às alterações climáticas não passa apenas por reduzir emissões ou tornar os edifícios mais eficientes. Passa também por reconhecer que o calor influencia o desempenho humano e que essa realidade terá de ser considerada na forma como organizamos o trabalho, a educação e a vida nas cidades.

Nem todos conseguem escapar ao calor

À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, cresce também uma forma menos visível de desigualdade: a capacidade de lhes responder. Embora todos sintam os efeitos das temperaturas extremas, nem todos dispõem das mesmas condições para se proteger.

Essa diferença começa na forma como vivemos. Uma casa bem isolada, acesso a ar condicionado, espaços verdes próximos ou a possibilidade de alterar horários de trabalho podem fazer uma diferença significativa durante uma vaga de calor. Pelo contrário, quem vive em habitações sobreaquecidas, trabalha ao ar livre ou não pode adaptar o seu ritmo de vida permanece muito mais exposto aos seus efeitos.

A idade, as doenças crónicas e alguns medicamentos aumentam ainda mais essa vulnerabilidade. Mas o calor extremo revela também desigualdades económicas e sociais existentes. A capacidade de descansar durante as horas de maior calor, de dormir numa casa que arrefece durante a noite ou simplesmente de interromper uma actividade quando a temperatura se torna excessiva continua longe de estar igualmente distribuída.

À medida que o planeta aquece, adaptar-se ao calor deixa de ser apenas uma questão de conforto. Passa a ser também uma questão de justiça social. Porque, num planeta mais quente, nem todos terão as mesmas condições para proteger o corpo. Nem o cérebro.

Em suma, e num século em que o conhecimento se tornou o principal recurso das sociedades, proteger a capacidade de pensar poderá ser tão importante como proteger o próprio corpo.

Se já sabemos que o calor afecta a capacidade de concentração, faz sentido continuar a organizar escolas, empresas e cidades como se a temperatura não influenciasse a forma como pensamos?

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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