Perfil de João Alfaiate

João Pereira Alfaiate tem 80 anos e é um leigo consagrado dos Missionários da Consolata. Natural da Caranguejeira, o caminho da sua vocação levou-o, desde cedo, para longe da terra natal.

O início da jornada foi em Fátima, onde hoje se encontra a colaborar com a revista “Fátima Missionária” e na animação litúrgica. Pelo meio, esteve em vários países europeus, mas foram os quase 40 anos de missão no Quénia que marcaram, de forma indelével, a pessoa que hoje é. Ao longo deste percurso, sempre gostou de estudar, trabalhar e rezar, numa lógica de serviço ao próximo, alimentada por uma alegria contagiante.

João Alfaiate é o segundo de sete irmãos e nasceu a 1 de outubro de 1934, na Caranguejeira. Foi ali que aprendeu a trabalhar nos campos e o ofício da carpintaria. Cresceu numa família que lhe ensinou a Doutrina e os princípios cristãos e na igreja da terra foi Batizado, Crismado e recebeu a Primeira Comunhão. Metade da sua vida, passou-a no Quénia, numa missão dos Missionários da Consolata. Foram 40 anos de entrega, numa experiência que viria a moldar a pessoa que hoje é. A par da alegria que diz ser elementar para a vida, a caraterística que mais evidencia o serviço de quase meio século, é o português timbrado com o sotaque da língua inglesa. Até o “érre” de Pereira já sente dificuldade em pronunciar. Durante a nossa conversa, utiliza, aqui e ali, palavras inglesas, como quem pensa numa língua e se expressa noutra. O pensamento, esse continua a viajar até aos dias de missão em África, nos sonhos que teimam em não apagar as boas memórias que lá deixou. Veio em 2001, por motivos de saúde, e com tanto tempo de Quénia, quanto de Portugal, diz ter o coração dividido.

O despoletar da vocação

Com a adolescência, João Alfaiate começou a definir o seu percurso vocacional. Em jeito de brincadeira, fala da primeira vez que foi a Fátima e da importância que, desde cedo, a devoção a Nossa Senhora teve no seu percurso. “Quando tinha 16 anos, começava a olhar para as meninas com interesse. Um dia fui a Fátima, vi lá uma Senhora e gostei muito dela.”
Por esta altura, frequentava a paróquia um irmão consagrado dos Missionários da Consolata. Foi através do contacto que estabeleceu com este irmão que surgiu o interesse pela missão, que o fez regressar a Fátima, desta vez para entrar no seminário da Consolata. “Passei algum tempo em Portugal. Enviaram-me depois para a Itália, aonde continuei a rezar, estudar e a trabalhar.” Em Itália, fez o noviciado e estudou e trabalhou durante três anos, ao fim dos quais fez os votos perpétuos.

Ida para o Quénia

Um dia, os seus superiores revelaram o desafio que tinham para si: abraçar a missão no Quénia. “Eu fiquei surpreendido com a notícia, mas ao mesmo tempo cheio de alegria. Refleti e aceitei a decisão.”
Aportou em Mombaça a 6 de outubro de 1963. “Clima, gente, língua… Tudo era novo para mim.” Chegou, três meses antes do país se tornar independente do Reino Unido. “Vi as grandes mudanças na gente, na maneira de fazer e nas mentalidades. Para além disso, aprendi a trabalhar com aquela gente”. Nos momentos seguintes à independência, Portugal deixou de estar representado naquele pais, numa altura em que recrudescia o “ódio contra o colonialismo”. Ainda que sem representação diplomática portuguesa aonde recorrer, conseguia renovar o passaporte em Londres ou em Roma, através dos seus superiores. Mesmo durante este período, garante ter sido sempre bem acolhido e nunca ter sido maltratado.
*40 Anos em cada perna e o coração dividido
Nos 40 anos de missão no Quénia, com os estudos que tinha feito em Itália, trabalhou e ensinou a trabalhar. Ali, ajudou a criar uma escola técnica com um sacerdote e uma voluntária, em 1970. “Os estudantes tornaram-se operários ou professores, capazes de transmitir o que aprenderam na escola ou na oficina.” Hoje, a escola que ajudou a criar e onde serviu durante mais de 30 anos, é um instituto técnico que continua a formar estudantes na mesma lógica de transmissão do saber. Muitas vezes, depois do serviço na escola, ainda ia fazer reparações de canalização e de eletricidade nas missões próximas. Mais tarde, começou a fazer apostolado com os idosos e com as crianças.
Durante o tempo que esteve em Missão, sentiu que o seu trabalho era útil e bem recebido pelas gentes e pelas autoridades, que agradeciam e reconheciam o serviço prestado pelos missionários.
Sobre a vida de missão, João diz que o segredo está em ter a consciência da razão pela qual ali se está, pois “só deste modo se aceita qualquer situação que se nos depare” e aponta uma maneira de contornar os momentos mais difíceis. “Quando há boa vontade, não há dificuldade que não se vença! Nos momentos difíceis, é fazer como a roda de balanço, continuar a rodar e olhar para o Alto.”
Com o tempo, incorporou a forma de vida do seu povo e a sua cultura. É disso que sente mais saudade agora. Do dia a dia no Quénia e das suas gentes. Mesmo agora, “com 40 anos em cada perna”, sente que tem uma mistura das duas culturas e o coração divido. “Sempre gostei das pessoas com quem trabalhei, pois era um gosto ver a boa vontade desta gente e o progresso que faziam. Aprendi a lidar e a trabalhar com este povo e os meus alunos gostavam da minha maneira de fazer e eu aceitava a maneira deles, que era cheia de boa vontade e davam sinal de gratidão e queriam aprender.”
Falar da missão no Quénia ilumina a expressão de João Alfaiate. O entusiasmo com que relata as estórias dos tempos que ali passou magnetizam o ouvinte num olhar que se torna efusivo. Ao falar das pessoas que conheceu, os olhos teimam em humedecer e as palavras abrandam. Vê-se que as relações que ali criou ficaram marcadas na história da sua própria pessoa. João não esconde essa ligação, da qual não se consegue desligar. Quando regressou a Portugal, em 2001, por motivos de saúde, ainda pediu o bilhete de ida e volta, mas apenas usufruiu dele pela primeira metade. Apesar disso, ainda hoje por lá viaja, nas imagens que lhe ficaram na memória.

A alegria de servir

João Alfaiate está na Consolata, em Fátima, onde ajuda na edição da revista “Fátima Missionária” e participa na animação litúrgica, nas celebrações que ali se realizam e, pontualmente, em Missas na paróquia de Santa Catarina da Serra.
Aos fins de semana, troca o órgão pelo acordeão e visita dois lares de idosos, onde leva o ânimo e a boa disposição que o caracteriza.
“Na minha vida sempre gostei de estudar, trabalhar e rezar e sempre procurei ser útil ao Instituto e às missões”, diz, em forma de resumo desta sua entrega.
Sente-se grato por ter dado todo este tempo pela causa das missões, como Irmão Leigo no Instituto Missionário da Consolata. Hoje, agradece à Senhora que o cativou, ainda em jovem, em Fátima. “Agradeço ‘àquela’ Senhora, que me deu e pôs a semente no coração e que me acompanhou todos estes anos e espero que Ela continue a fazer o mesmo no coração dos jovens. O que Ela certamente fará.”

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