Perfil de Daniel de São José Correia

Daniel de São José Correia tem 81 anos e é do Alqueidão da Serra. Viúvo, pai de sete filhos, fala da família com um orgulho que lhe enche a alma. As rugas não escondem o tempo, mas o ânimo com que nos conta o seu percurso de vida faz esquecer a idade que tem. Uma vida cheia, dedicada à família, à Igreja e ao trabalho. Ao Presente Leiria-Fátima, falou da importância da família e da sua participação na vida eclesial da comunidade onde sempre viveu.

Se não soubéssemos da ligação profunda que Daniel Correia tem com os seus, as fotos de família expostas pelas divisões da casa denunciavam, por si só, este vínculo, que considera capital na sua vida. Retratos dos cinco filhos e das duas filhas, das noras e dos genros e dos dezoito netos estão dispersos num álbum familiar que decora o espaço e que nos conta, à vista, parte da história de vida do nosso anfitrião. A ligação com as raízes também é retratada, nas fotos dos pais, dos tios e de ascendentes de outras gerações.
Enquanto mostra um retrato onde se vê os pais e os irmãos, fala do exemplo da figura paterna. Para além da ligação à dinâmica eclesial, o pai de Daniel era juíz de paz, prestando auxílio na conciliação de interesses na comunidade. “O exemplo conta muito”, diz, enquanto nos conta as atividades que, a exemplo de seu pai, desempenhou na comunidade. Fala da catequese que teve ainda em criança, da entrada na Cruzada Eucarística e do “entusiasmo que ganhou pela ACR (Ação Católica Rural), que, coincidentemente, chegou a Portugal no ano em que Daniel nasceu, em 1933.

Meio século no serviço sócio caritativo

Aos 13 anos, Daniel Correia já integrava a JAC (Juventude Agrária Católica), que chegou a coordenar ao nível paroquial. “O que me motivou a participar foi o contacto que tinha com outros jovens”, conta. Viria, durante a juventude, a integrar a equipa diocesana do movimento.
Conheceu depois a sua esposa, sua vizinha, também ela ligada à ACR. Depois de casar, integrou as Conferências de São Vicente de Paulo, seguindo os passos do pai. Colabora, desde então, na ação sócio caritativa na paróquia. Com mais de meio século de experiência nesta área, distingue diferenças entre a realidade atual e a de antigamente. “Quando comecei, tínhamos pouco para dar, mas os pobres conheciam-se e era mais fácil ajudá-los. Hoje, é mais difícil porque há muita pobreza encoberta. Há pessoas que passam necessidades, mas têm vergonha de pedir ajuda.”

“Vão-se os anéis, que fiquem os dedos!”

Pouco tempo depois de se ter casado, foi trabalhar, como fiscal, para o Município de Porto de Mós. Antes, trabalhara com o seu pai na agricultura e como cabouqueiro numa pedreira. Passou a fiel de armazém no Município algum tempo depois, profissão na qual se reformou. Foi com este trabalho que conseguiu garantir o sustento necessário para criar os sete filhos. A tratar do lar estava a esposa e, neste esforço conjunto, o casal conseguiu oferecer aos filhos a possibilidade de uma vida académica. O primeiro foi, naturalmente, o filho mais velho. “Lembro-me de, quando fui comprar os livros para ele a uma papelaria a Porto de Mós, ter gasto setecentos e oitenta escudos e eu ganhava, na altura, mil e quinhentos escudos. Recordo-me de ter perguntado à minha mulher: ‘Como é que vamos fazer isto? Gastámos todo este dinheiro e só ficámos com este pouco para viver…’. Ela respondeu: ‘Olha, sabes… Vão-se os anéis, que fiquem os dedos!’ E assim avançámos na nossa opção de deixar os filhos estudar. Mais tarde, reconheci que foi a melhor decisão.”
Neste esforço, reconhece também, da parte dos filhos, muita dedicação e força de vontade para fazer valer a oportunidade que lhes era dada. Em muitas situações, mantinham, a par dos estudos, trabalhos, através dos quais ajudavam para o sustento da família. Até para a pequena agricultura de subsistência que desde sempre manteve, Daniel pôde contar com a ajuda dos filhos.

Uma família unida

O sorriso no rosto é uma constante no semblante de Daniel. A expressão jovial apenas se recolhe num rosto comovido quando recorda o falecimento da esposa, em 2006. Já lá vão quase nove anos, mas a saudade persiste. A união e o apoio familiar foram o suporte crucial para aquele que foi um dos momentos mais difíceis da vida de Daniel Correia. Sente falta da esposa, sobretudo nos dias mais preenchidos. Aprendeu a vivê-los sem a sua presença física, com a preciosa ajuda, presença e disponibilidade incondicional da restante família.
“É uma família muito unida”, garante. A exemplo do pai, os sete filhos mantiveram uma ligação à Igreja, tendo um dos filhos seguido a vocação sacerdotal. Trata-se do padre José Frazão Correia, atual provincial dos Jesuítas em Portugal.
A confirmar esta estreita relação com a família está a forma como fala dela. Faz questão de nomear cada elemento da família. Fá-lo com afeto e alegria pela sua gente.

Um exemplo para a comunidade

Os dias são agora preenchidos com o preparo das refeições, o cuidar da “criação” e da pequena agricultura que ainda mantém. Dedica a atenção necessária à saúde, com consultas regulares ao médico e uma vigilância atenta. Na agenda do dia, não abdica do tempo para visitar os amigos e familiares.
Durante cerca de 30 anos, Daniel foi ministro extraordinário da Comunhão, função que deixou recentemente para “dar o lugar aos mais novos”. Durante o tempo que prestou este serviço, também visitava os doentes da paróquia. Atualmente, para além de manter a ligação às Conferências Vicentinas, continua na ACR e integra o Apostolado da Oração na paróquia.
Pela ligação que teve à Igreja, o exemplo de Daniel é reconhecido na comunidade. “Procuro ter uma boa relação com todos”, diz, numa atitude modesta que acompanha o seu testemunho exemplar, sustentado pela “beleza e a alegria de viver em família”.
Explica a sua atitude recorrendo a uma referência do livro “Não Há Soluções, Há Caminhos”, do padre Vasco Pinto de Magalhães. “Já santo Agostinho dizia que o segredo de uma vida feliz estava em gostar – e aprender a gostar – de fazer aquilo que se tem que fazer e que é a nossa missão.”

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