Perfil de Ana Matos

Ana Matos tem 61 anos e é da paróquia dos Marrazes. Esteve na pastoral dos ciganos, fez catequese na paróquia, colabora, desde 2005, com o grupo missionário Ondjoyetu, mas é o grupo dos “Samaritanos”, Associação de Visitadores dos Estabelecimentos Prisionais, que ocupa grande parte da sua ação eclesial.

A ligação que mantém há já 20 anos com esta dinâmica pastoral faz com que os reclusos a tratem carinhosamente por “tia”. Hoje, é através desta entrega que se sente realizada e feliz. Nem sempre foi assim, mas a oração, a entrega e a ajuda de uma pessoa, consolidou o seu caminho na fé.

 

Ao entrarmos na casa de Ana Matos, a decoração que pinta as paredes convida-nos a ficar. O ambiente acolhedor é a porta de entrada que conta parte da vida da nossa anfitriã. As fotos da família falam-nos das duas filhas de um casamento que dura há já 37 anos e dos quatro netos que já tem. A cozinha denuncia o prazer pelo preparo de iguarias e coabita com uma pequena sala onde adornos feitos à mão expõem o gosto pelo artesanato e pelas manualidades. Numa parede, dedicada às viagens que fez em peregrinação, lembranças dos locais e ícones religiosos conduzem o olhar para uma Bíblia, que aberta, assume lugar central naquela sala. Ofereceu-a o padre Albino Carreira, uma das referências da vida de Ana.
Sentamo-nos, acolhidos pelo conforto que nos lança para uma conversa mais íntima.

Uma mudança drástica

Ana nasceu e cresceu onde ainda mora, na Estação, em Leiria. É filha única, embora tivesse nascido depois da irmã gémea, que faleceu durante o parto. A exigência do trabalho do pai, que era padeiro e da mãe, que era lavadeira, fez com que Ana passasse muito tempo com a avó materna, com quem aprendeu muitas orações. Cumpriu o percurso de catequese, mas após ter recebido o Crisma, a sua proximidade com a Igreja esmoreceu.
Da infância, recorda os nove anos de idade, quando foi acometida por uma doença que a deixou muito debilitada. “Tive uma púrpura, uma doença que me provocava sangramentos pelo nariz e pela boca.” Recuperou depois da sua mãe ter feito uma promessa a Nossa Senhora de Fátima, já a esperança num tratamento clínico começava a esmorecer. Ainda se lembra de ter ido a Fátima a pé com a mãe, mas depois de cumprida a promessa, manteve-se distante da Igreja, embora se tivesse casado e pedido o Batismo para as filhas. “Quando olho para trás, reparo que Deus esteve sempre presente na minha vida”, afirma, enquanto olha em perspetiva para o seu passado.
Profissionalmente, Ana Matos trabalhou, durante 21 anos, como empregada de escritório, numa empresa de refrigerantes, até que se viu obrigada a deixar as funções que exercia por motivos de saúde. Até àquela data, Ana não limitava o seu ofício ao trabalho que exercia, era também uma bem-sucedida vendedora de produtos por catálogo. “Cheguei a coordenar um grupo de 46 vendedoras e a ganhar viagens devido ao número de vendas que fazia.” Os sintomas associados a um estado depressivo prenderam-lhe a vontade e o dinamismo que tinha até então, o que alterou drasticamente a sua vida.

Um comprimido chamado “Ana”

O padre Albino Carreira foi central na recuperação de Ana e na sua reaproximação à Igreja. “Conheci-o num dos momentos mais frágeis da minha vida e foi, sem dúvida, um ponto de viragem”. Conta-nos, com um rigor da data, o primeiro contacto que teve com o sacerdote. “Encontrei-me com ele numa altura em que saía de casa apenas para ir ao médico.” Jamais se esquece daquilo que o padre Albino lhe disse no final da conversa e que faz questão de relembrar. “Vou-lhe dar uma receita que a vai pôr melhor… Vai tomar um comprimido que se chama ‘Ana’”, disse-me ele. Eu, que andava a tomar 20 comprimidos na altura, fiquei apreensiva com aquela solução.”
Nesse mesmo dia, logo no caminho de regresso ao seu lar, lembra-se de ter sentido uma energia como já não sentia há muito tempo. Limpou a casa, fez o jantar e, à noite, deitou-se e conseguiu adormecer sem dificuldade. “Até hoje, nunca mais precisei de tomar qualquer comprimido”, garante.
A prescrição de si própria que o padre Albino lhe houvera receitado parecia ter efeito imediato, mas a “viragem” viria a consolidar-se de uma forma progressiva na sua vida.

Aprofundamento espiritual

O encontro tinha acontecido em novembro e, no início do ano, Ana começou a sentir de volta o desânimo a apoderar-se de si. Um novo contacto com o padre Albino, uma nova conversa e voltavam a alinhar-se o caminho da recuperação. “Passei horas e horas à conversa com ele. Eu falava e ele ouvia simplesmente. A amizade com o padre Albino foi a cura para a minha doença”. Do convívio que se estreitava vinham convites para participar em assembleias, retiros, encontros e peregrinações. Lembra, com comoção, a primeira peregrinação que fez, a convite do sacerdote, ao Santuário de Nossa Senhora das Graças de Onuva, na Andaluzia espanhola. “Lembro-me em especial de uma passagem que foi lida numa Missa em que participei. Era a leitura da apresentação do Jesus no templo, que fala da profetisa Ana. Aquela passagem fazia todo o sentido naquele momento, até porque, nesse mesmo dia, tinha-me sido pedido que fizesse uma reflexão sobre Deus e eu tinha dito que não sabia o que fazer. Foi um sinal e senti uma mudança interior que me deu ainda mais alento.” A experiência, interpretada como um apelo direto de Deus à sua pessoa, deu-lhe ânimo para querer saber mais sobre a Bíblia, que passou a ler incessantemente. “Tinha uma sede espiritual e só me sentia bem a ler e a aprofundar o meu conhecimento sobre a Palavra de Deus.”

A solução

Ana deixou o emprego há 20 anos, tantos quantos os que dedica ao grupo dos Samaritanos, que integrou após convite do padre Albino. “Nos Samaritanos estamos e ouvimos, porque é disto que eles precisam”. Refere-se aos reclusos, que carinhosamente a apelidam de “tiazinha”. “Sempre disse que nem para tia tinha jeito, até porque não tive sobrinhos, mas, através da minha ação na Igreja, Deus deu-me a alegria de ter quem me chame tia.” A filha mais nova, que regressava de uma missão em Angola, em 2004, levou-a, com o testemunho da sua experiência, a integrar o grupo missionário Ondjoyeto em 2005, onde já participou em missões no Alentejo.
O ânimo da reaproximação de Ana à Igreja estendeu-se a toda a sua família, assegura. Ao dizê-lo, lembra as palavras do padre Albino, que lhe garantiu que ela “ainda tinha muito amor para dar”. Confirma esse amor na entrega aos outros e na dedicação que emprega naquilo que faz. “Sinto que esta é a minha missão, porque nunca me senti tão feliz.”
Perguntamos se já percebeu o que era o tal comprimido chamado “Ana” que lhe foi receitado pelo padre Albino. “Acho que era a oração que me faltava para este encontro com Deus. É isso que me dá força para cumprir a minha missão”, responde.
Se é ou não, não sabemos, mas a verdade é que resultou!

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