Pensamento social cristão propõe e promove a economia solidária

Numa sociedade marcada pelas chagas da crise financeira, a Doutrina Social da Igreja faz nascer uma séria proposta de caminho a seguir para ultrapassar o atual paradigma: uma economia de rosto humano centrada na busca do bem comum.

 

É inequívoca a presença do pensamento católico na formação da história das civilizações ocidentais. Jostein Gaarder, escritor norueguês, disse que “conhecer o Cristianismo é um pré-requisito para compreender a sociedade e a cultura em que vivemos”.

Numa sociedade marcada pelas chagas da crise financeira que atravessa, a Igreja aponta, através da sua Doutrina Social, uma séria proposta de caminho a seguir. No centro da resposta para ultrapassar o atual paradigma, está Deus e o homem, feito à Sua imagem e semelhança. A Doutrina Social da Igreja (DSI) apela à dimensão humana da economia, mas afinal, que papel podemos assumir na construção de uma sociedade mais equitativa, justa e solidária?

 

A crise…

Em 2008, com o eclodir da crise financeira mundial, a discussão sobre a validade do capitalismo financeiro como organização económica entrava na ordem do dia. No nosso país, viu-se obrigado a suster a respiração e a mergulhar na austeridade. Ainda em fôlego contido, assistimos a um aumentou do desemprego, a cortes salariais, à extinção de direitos adquiridos e a um aumento da carga fiscal. Aos números expressos nas estatísticas, está associada uma sociedade civil angustiada e já quase sem alento para vir à tona.

Sabe-se agora que, no âmago da crise financeira atual, esteve uma procura desenfreada pelo lucro e pela acumulação de capital, o objetivo primeiro do capitalismo financeiro, que é distribuído pelos privados que detêm os meios de produção. A assistir a esta luta desmedida pela riqueza, estiveram os Estados dos países ocidentais, que pelo seu acanhado controle do mercado financeiro, se vêm agora obrigados a tomar ações imediatas e circunstanciais que, dizem as estatísticas, têm aumentado a clivagem entre pobres e ricos. Segundo dados do INE (Instituto Nacional de Estatística), em 2013, 25,5% dos portugueses viviam em privação material, mais 3,7 pontos percentuais do que em 2012 (21,8%), enquanto 10,9% da população estava em privação material severa.

Desde o aparecimento do pensamento capitalista, que a Igreja Católica tem sido clara em afirmar a sua preocupação por uma economia que procura um crescimento, desprovido de dimensão humana.

 

Economia ao serviço do homem

O pensamento da Igreja sobre as questões da vida social está reunido, de um modo sintético mas completo,  no Compêndio da Doutrina Social da Igreja. Este manual foi sistematizado em 2004 pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz. Ali, um católico pode “encontrar na DSI os princípios de reflexão, os critérios de julgamento e as diretrizes de ação donde partir para promover um humanismo integral e solidário”.

“No decorrer da sua história, e em particular nos últimos cem anos, a Igreja jamais renunciou a dizer a palavra que lhe compete sobre as questões da vida social.” As palavras são do cardeal Angelo Sodano, antigo Secretário de Estado do Vaticano e foram escritas no âmbito da publicação do referido Compêndio. O cardeal sublinhava ainda que “os princípios da doutrina social da Igreja” estão sustentados “sobre a lei natural, vendo-se confirmados e valorizados, na fé da Igreja, pelo Evangelho de Cristo”.

A denúncia da vertente individualista e humanamente perversa do capitalismo foi, desde cedo, denunciada pelos Papas. Em 1931, na encíclica Quadragesimo Anno, de 1931, o Papa Pio IX alertava para o que chamava de “imperialismo internacional bancário”, que seria consequência “deste espírito individualista no campo económico”. Paulo VI, na encíclica Populorum Progressio, focava o desequilíbrio crescente entre os povos. “Os povos ricos gozam de um crescimento rápido, enquanto os pobres se desenvolvem lentamente. O desequilíbrio aumenta: alguns produzem em excesso géneros alimentares, que faltam cruelmente a outros…”, lê-se no documento papal. A propósito do capitalismo liberal, Paulo VI reavivava as palavras de Pio IX, ao dizer que “liberalismo sem freio conduziu à ditadura denunciada com razão, como geradora do “imperialismo internacional do dinheiro”. Apesar de reconhecer “o contributo insubstituível da organização do trabalho e do progresso industrial na obra do desenvolvimento”, reprovava os abusos derivados deste sistema, ao mesmo tempo que lembrava a importância da “economia estar ao serviço do homem”. Neste apelo a uma economia centrada no valor humano está, em larga medida, condensado o pensamento social cristão.

 

Ideia do bem comum e o trabalho humano

Como princípio fundador da DSI está o mandamento supremo do amor, materializado na defesa e promoção da dignidade da pessoa humana. Deste, derivam os demais princípios que a caracterizam: o da subsidiariedade, o da solidariedade e o do bem comum. Este último é um tema nuclear na Doutrina Social da Igreja (DSI). No total das suas 583 entradas do Compêndio da DSI, 106 referem-se ao conceito de bem comum. É deste manual, que retiramos um parágrafo que clarifica o conceito: “Da dignidade, unidade e igualdade de todas as pessoas deriva, antes de tudo, o princípio do bem comum, a que se deve relacionar cada aspeto da vida social para encontrar pleno sentido. Segundo uma primeira e vasta aceção, entende-se por bem comum: o conjunto de condições da vida social que permitem, tanto aos grupos, como a cada um dos seus membros, atingir mais plena e facilmente a própria perfeição”.

Este bem comum é-nos apresentado como sendo da responsabilidade de todos, sendo que todos são chamados a colaborar, de acordo com as suas possibilidades, na sua busca e no seu desenvolvimento. Esta ideia tem, como objetivo primeiro, a realização pessoal e social do Ser humano, que contribui, através do seu trabalho, para o bem de todos através do seu trabalho.

Em relação ao trabalho humano, a Doutrina Social da Igreja é clara, ao afirmar o trabalho, como “condição originária própria do homem”, que deve ser olhado como uma dimensão fundamental e que o torna participante da Criação. Por esta razão, o valor intrínseco do trabalho está, não apenas em si mesmo, mas sobretudo na pessoa que o desempenha: na sua dignidade, realização e meio de santificação.

 

O crescimento equitativo

O Papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii Gaudium, aponta as causas da “economia de exclusão” em que vive o mundo atual. Num momento de crise financeira atual, o apelo à luta pela desigualdade social é assumido sem rodeios. Os termos usados pelo Papa são claros: esta “economia de exclusão”, dominada por uma “nova idolatria do dinheiro”, em que o ser humano é considerado como um “bem de consumo”, “mata”.

A génese desta crise financeira está, segundo o Sumo Pontífice, numa crise “antropológica profunda”, que nega a primazia do próprio ser humano. Feita a análise, deixa o convite para “uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finanças a uma ética propícia ao ser humano”, distante do consumismo desenfreado, que alimenta a desigualdade social.

Para o atual Papa, é altura de deixar de “confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado” e promover um “crescimento equitativo” que vai além do crescimento económico. Um encontro entre economia e bem comum, a partir de uma abertura à transcendência é, para o Sumo Pontífice, a chave para uma nova mentalidade. Este crescimento equitativo “requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho e para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo”.

 

Um caminho de comunhão

A busca de uma sociedade mais justa é um dever de cada cristão. A caminhada está a ser feita por alguns projetos que promovem a economia numa verdadeira dimensão de comunhão humana. A Igreja assume o seu papel, evocando a “bússola” que nos deve orientar: o Evangelho. Da liberdade e da participação na criação divina virá a vontade de mudar o que ainda falta ser mudado. Este zelo guiará a humanidade, rumo a uma nova ordem: mais participativa, mais justa e mais solidária. A cada um de nós, cabe a exclusiva tarefa de assumirmos o nosso papel na história, numa busca pelo bem comum, alicerçado no amor para com o próximo.

Diogo Carvalho Alves | Presente

 

Empresários e gestores cristãos

apresentam o amor como critério de gestão

A economia e as empresas são uma bênção de Deus

2014-11-19 economia2

O beato João Paulo II, na encíclica Laborem Exercens, diz: “ O homem criado à imagem de Deus participa mediante o seu trabalho na Obra do Criador e, num certo sentido, continua, na mediada das suas possibilidades, a desenvolvê-la e completá-la, progredindo cada vez mais na descoberta dos recursos e dos valores contidos em tudo aquilo que foi criado”.

Eis o grande mistério da Criação; a obra de Deus é continuada pelos homens. Neste princípio, somos cocriadores da Obra da Criação.

Neste tempo e neste espaço da criação, Deus inspira os homens a fazer nascer instituições e associações que ajudem o Homem a corresponder às expectativas da Boa Criação da Sua Obra.

Entre outras, nasceu a ACEGE (Associação Cristã de Empresários e Gestores), com o objetivo de fornecer aos autores privilegiados desta obra – empresários e gestores – princípios que imanam da Doutrina Social da Igreja, que se dirigem especificamente aos líderes empresariais cristãos e que têm, no coração do seu trabalho, o sentido profundo do chamamento de Deus a serem colaboradores na criação.

A ACEGE tem no seu ADN a missão de levar aos seus destinatários os princípios do “amor ao próximo” e “fazer ao outro aquilo que gostaríamos que nos fizessem” que, na tradução empresarial, podemos dizer que se trata de introduzir o Amor como critério de gestão.

Uma revolução

Não se inventou nada, tão-somente a vivência do Evangelho também nos locais de trabalho. Não só entre os funcionários, mas com todos os parceiros que, de algum modo, lidam com as empresas, nomeadamente as concorrentes.

É um novo paradigma económico, que vê a empresa como uma comunidade de pessoas, em que estas, independentemente do local da cadeia em que se encontram, são o centro, a pedra angular que permite que todos os seres humanos se desenvolvam, individual e coletivamente.

As empresas produzem muitas das condições importantes que contribuem para o bem comum da sociedade mais alargada. Os seus produtos e serviços, os empregos que facultam, e o excedente económico e social que tornam disponível à sociedade, fazem parte dos fundamentos da vida sã de uma nação e da humanidade como um todo.

As empresas são, portanto, essenciais para o bem comum de qualquer sociedade e para a inteira ordem global.

Por isso, nunca como hoje a empresa foi tão importante como instrumento do Bem. Sejam elas, virtuosas.

O Amor na gestão empresarial

Este novo paradigma económico, para além da importância que dá às pessoas, só tem sentido enquanto produtor de bens úteis e que satisfaçam o bem comum e a dignidade da pessoa humana. Aqui radica o Amor mais concreto na vida das pessoas.

O Amor é o mais poderoso critério de liderança de uma organização. O Amor é sério e honesto, é justo e verdadeiro, é responsável perante os riscos, o Amor é sensível e autêntico perante os mais fracos. É genuíno nos relacionamentos económicos, é exigente na competência, é brilhante no relacionamento com concorrentes e é sinal de sucesso quando nos negócios procuramos o bem comum.

Por isso, a mensagem da ACEGE é direta: adotar o princípio do amor ao próximo como critério de gestão empresarial.

Na verdade o Magistério da Igreja não tem soluções técnicas para oferecer ou modelos para apresentar; contudo, a Igreja ensina que “não existe verdadeira solução para a questão social fora do Evangelho”.

Como nos disse o Papa Bento XVI na Caritas in Veritate: “ a ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana”. Eis a gestão empresarial baseada no amor.

Porém, os desafios e obstáculos ao serviço do bem comum surgem sob diversas formas – corrupção, ausência de um Estado de direito, tendências gananciosas – mas o mais significativo para um líder empresarial, a nível pessoal, é ter uma vida “dividida”. A separação entre a fé e a prática diária dos negócios pode conduzir a desequilíbrios.

O caminho alternativo, de uma “liderança de serviço”, assente na fé e na oração, faculta aos líderes empresariais uma perspetiva mais ampla e ajuda-os a equilibrar os requisitos do mundo dos negócios com os dos princípios ético-sociais, à luz do Evangelho.

Para finalizar, os empreendedores, os gestores e todos os que trabalham na atividade empresarial deveriam ser encorajados a reconhecer o seu trabalho como uma autêntica vocação e a responder ao chamamento de Deus no espirito de verdadeiros discípulos, ao atuar como líderes ao serviço de Deus.

Acácio Manuel Faria Lopes,

Responsável pelo núcleo de Leiria da ACEGE

 

A Economia de Comunhão

Quando a partilha gera lucro

É possível partilhar e gerar lucro? A resposta é afirmativa e está na proposta da Economia de Comunhão (EdC). A EdC envolve empresários, trabalhadores e demais operadores económicos. Foi lançada por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, em maio de 1991, com o objetivo de construir e apresentar uma sociedade na qual, à imitação da primeira comunidade de Jerusalém, “não havia necessitados”.

As empresas são a espinha dorsal do projeto e são elas que, de uma forma livre, decidem colocar em comum os lucros da empresa, segundo três finalidades de igual importância: ajudar as pessoas que estão em dificuldade através da criação de novos postos de trabalho, difundir a “cultura do dar” e da reciprocidade e desenvolver a empresa, que deve permanecer eficiente e competitiva, enquanto se abre à gratuidade.

Este projeto de comunhão de bens e serviços, que é expressão do carisma da unidade na vida civil, é assumido, atualmente, por cerca de 750 empresas no mundo, 12 das quais são portuguesas. Dos empresários e gestores que assumiram esta forma de comunhão, vêm ecos de uma experiência que acabam por assumir como filosofia da própria empresa até porque, dizem, os resultados estão à vista, no aumento dos lucros, no crescimento da organização e, acima de tudo, na realização das pessoas envolvidas.

 

Principais documentos da Doutrina Social da Igreja

Com o aparecimento da sociedade industrial no século XIX, surgiu, na Igreja, uma natural preocupação pelas questões sociais emergentes. Em 1891, o Papa Leão XIII promulgou a encíclica Rerum Novarum. Quarenta anos depois, o papa Pio XI promulga a encíclica Quadragesimo Anno. O beato Papa João XXIII publicou, em 1961, a Mater et Magistra e Paulo VI a encíclica Populorum Progressio, em 1967, e a carta apostólica Octagesima Adveniens, em 1971. João Paulo II publicou três encíclicas que constituem etapas fundamentais do pensamento católico sobre o assunto: Laborens Exercens (1981), Sollicitudo Rei Socialis (1987) e, finalmente, Centesimus annus, em 1991, após a queda do Muro de Berlim. Em 2009, Bento XVI promulgou a encíclica Caritas in Veritate.

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