“Ou fazem parte dos lugares onde o futuro é gerado ou a História passar-vos-á ao lado”

É um apelo feito aos jovens de todo o mundo que participaram no “Encontro de Assis”, o qual, e nas palavras do Papa, não marca um fim, mas antes “o início de um processo que nos é pedido que empreendamos juntos como uma vocação, uma cultura e um pacto”.

É um apelo feito aos jovens de todo o mundo que participaram no “Encontro de Assis”, o qual, e nas palavras do Papa, não marca um fim, mas antes “o início de um processo que nos é pedido que empreendamos juntos como uma vocação, uma cultura e um pacto”. Ao longo da tão esperada iniciativa, a “Economia de Francisco” serviu de reflexão para oradores, participantes e todos aqueles que, em representação de 115 países, acompanharam o evento online e expressaram a crença de que os sistemas económicos actuais não são capazes de enfrentar os duplos desafios de satisfazer as necessidades de todas as pessoas, sem dizimar ainda mais o planeta e o seu clima. Assim, é urgente “uma narrativa económica diferente”, criada com o devido empenho e convicção, para que os jovens sejam capazes de chegar aos “centros” onde se desenvolvem e se decidem as ideias e os paradigmas, tendo sido esta a razão devido à qual os convidou para este convénio

POR HELENA OLIVEIRA

Com mais de dois mil jovens inscritos, de 19 países, com perto de oito mil subscritores do canal de YouTube criado para o efeito e com milhares de outros que o acompanharam, o encontro virtual dedicado à “Economia de Francisco”, em resposta ao convite que o Papa endereçou à geração mais nova de economistas e empreendedores para “mudar a economia de hoje e dar alma à economia de amanhã”, transformou-se numa verdadeira maratona online que teve lugar entre 19 e 21 de Novembro últimos.

A conferência global foi concebida para funcionar como um “catalisador colaborativo” e com o objectivo de se imaginar um novo sistema económico, que beneficie e confira prioridade às pessoas, aos pobres e ao planeta. Baptizado por alguns como o “Davos do Papa”, uma referência ao encontro mundial de líderes globais promovido anualmente pelo Fórum Económico Mundial, mas substituindo a habitual elite de participantes por jovens economistas, gestores e empreendedores com menos de 35 anos de idade, o encontro contou ainda com a presença de mais de 30 conferencistas de renome internacional, desde o Nobel da Paz Muhammad Yunus, a economistas como Jeffrey Sachs ou Stefano Zamagni, entre filósofos, teólogos, sociólogos, empreendedores sociais e activistas.

Depois de três dias de intenso trabalho – que são resumidos, nesta edição, por alguns dos jovens participantes portugueses no evento – o Encontro de Assis terminou com uma mensagem do Papa e com um compromisso por parte dos jovens que nele participaram, assente em 12 grandes apelos dirigidos não só aos decisores mundiais, como a todos os cidadãos.

O VER (website da ACEGE) resume, neste artigo, o essencial da mensagem de Francisco.

A voz dos jovens não pode ser “um grito vazio e desmaiado que pode ser apagado com o passar do tempo”

Começando por agradecer a presença de todos e o trabalho e esforço realizados ao longo dos últimos meses, o Papa começou por afirmar que o encontro virtual em Assis não marca um fim, mas antes “o início de um processo que nos é pedido que empreendamos juntos como uma vocação, uma cultura e um pacto”.

Recordando as palavras que mobilizaram Francisco de Assis – “Francisco vai, repara a minha casa que, como vês, está em ruínas” – e se transformaram num “chamamento especial para cada um de nós”, o Papa congratulou-se com o facto de também estes jovens saberem dizer “sim” quando são convocados, porque têm a noção e a visão necessárias para saber que “desta forma não podemos seguir em frente”. E, tendo em conta a perspectiva particular a partir da qual o fizeram – a economia -, “âmbito do vosso estudo, pesquisa e trabalho”, sabem igualmente que é urgente “uma narrativa económica diferente”, assumir, de forma responsável que “o actual sistema mundial é insustentável mediante vários pontos de vista” e que “atinge principalmente a nossa irmã Terra, tão gravemente maltratada e espoliada, e os mais pobres e excluídos”, sendo estes últimos também “os mais esquecidos”.

“O actual sistema mundial é insustentável mediante vários pontos de vista e atinge principalmente a nossa irmã Terra, tão gravemente maltratada e espoliada, e os mais pobres e excluídos”

Relembrando igualmente aos jovens participantes de que não estamos perante um problema banal, e que a sua voz tem de ser mais do que apenas “um grito vazio e desmaiado que pode ser apagado com o passar do tempo”, Francisco exorta-os a terem um impacto concreto nas suas “cidades e universidades, trabalhos e sindicatos, empreendimentos e movimentos, cargos públicos e privados”, com o devido empenho e convicção para serem capazes de chegar aos “centros” onde se desenvolvem e se decidem as ideias e os paradigmas, tendo sido esta a razão devido à qual os convidou para este convénio.

O Papa invocou a gravidade actual do mundo em que vivemos e, como seria expectável, o facto de esta se ter tornado ainda mais evidente com o surgimento da pandemia, o que exige que as responsabilidades devam ser abraçadas por todos os actores sociais, por todos nós, e com “os jovens na linha da frente”, “visto que os efeitos das nossas acções e decisões” os irão afectar particularmente. Consequentemente, acrescenta, “vós não podeis permanecer fora dos centros que estão a moldar não só o vosso futuro mas, e estou convencido, o vosso presente”, acrescentando ainda que “vós não podeis estar ausentes dos lugares onde o presente e o futuro são gerados”, pois “ou fazem parte dele ou a história passar-vos-á ao lado”.

A cultura do encontro e o imperativo de recuperar o bem comum

Recordando que todos desejamos e procuramos a mudança, o Santo Padre sublinha que o problema surge quando nos apercebemos da inexistência de respostas adequadas e inclusivas para muitos dos problemas actuais. Na verdade, diz, existe “uma certa fragmentação nas nossas análises e diagnósticos que acaba por bloquear todas as soluções possíveis”, o que se traduz no facto de faltar “a cultura necessária para inspirar e encorajar diferentes visões marcadas por abordagens teóricas, políticas, programas educacionais, e até mesmo espiritualidade, que não podem ser enquadradas numa única mentalidade dominante”.

“ A crise social e económica que muitas pessoas atravessam, e que está a hipotecar o presente e o futuro pelo abandono e exclusão de muitas crianças, adolescentes e famílias inteiras, torna intolerável que privilegiemos interesses sectoriais em detrimento do bem comum”

E dada a necessidade urgente de se encontrar respostas, “é indispensável promover e apoiar grupos de liderança capazes de moldar a cultura, desencadear processos” – sublinhando a palavra “processos” -, como também “alargando horizontes e construindo laços comuns (…)”. Francisco alerta também para o facto de “todos os esforços para organizar, cuidar e melhorar a nossa casa comum (…) exigirão também uma mudança no ‘estilo de vida, nos modelos de produção e consumo, e nas estruturas de poder estabelecidas que hoje governam as sociedades’”. “Sem isto, nada se conseguirá”, remata. A seu ver, é necessária, a nível local e institucional, a existência de grupos de liderança “que possam enfrentar os problemas sem ficarem presos ou frustrados por eles e, desta forma, desafiar a tendência – frequentemente inconsciente – para a submissão a certas formas ideológicas de pensamento que acabam por justificar as injustiças e paralisar todos os esforços para as combater”.

“Todos os esforços para organizar, cuidar e melhorar a nossa casa comum (…) exigirão também uma mudança no ‘estilo de vida, nos modelos de produção e consumo, e nas estruturas de poder estabelecidas que hoje governam as sociedades’”

Complementarmente, declara também, que “ a crise social e económica que muitas pessoas atravessam, e que está a hipotecar o presente e o futuro pelo abandono e exclusão de muitas crianças, adolescentes e famílias inteiras, torna intolerável que privilegiemos interesses sectoriais em detrimento do bem comum”, sendo um imperativo recuperar este sentimento de “bem comum”.

“Não estamos condenados a modelos económicos cujo interesse imediato se limita ao lucro e à promoção de políticas públicas favoráveis, sem se preocuparem com o seu custo humano, social e ambiental”

Elencando as “12 vilas” que serviram de mote à reflexão dos jovens participantes no Encontro de Assis, o Papa sinaliza a urgência de uma “cultura do encontro”, a qual se encontra em oposição à “cultura de descarte” da actualidade e que torna possível “que muitas vozes sejam ouvidas em torno da mesma mesa, a fim de dialogar, considerar, discutir e formular, numa perspectiva poliédrica, diferentes aspectos e possíveis respostas aos problemas globais que envolvem os nossos povos e as nossas democracias”. E apela a que não nos esqueçamos que “o todo é maior que a parte, mas é também maior que a soma das suas partes” e que “a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a família humana”. Como acrescenta ainda, “este exercício – o encontro entre todos para além de todas as diferenças legítimas – é o primeiro passo para qualquer mudança que possa ajudar a gerar uma nova mentalidade cultural e, consequentemente, económica, política e social”.

“Este exercício – o encontro entre todos para além de todas as diferenças legítimas – é o primeiro passo para qualquer mudança que possa ajudar a gerar uma nova mentalidade cultural e, consequentemente, económica, política e social”

Referindo que devemos estar preparados para um tempo que nos recorde “que não estamos condenados a modelos económicos cujo interesse imediato se limita ao lucro e à promoção de políticas públicas favoráveis, sem se preocuparem com o seu custo humano, social e ambiental” ou de políticas que assumam que “podemos contar com uma disponibilidade absoluta, ilimitada e indiferente de recursos”, Francisco reforça também que não devemos aceitar silenciosamente, através da nossa forma de agir, que “uns sentem-se mais humanos do que outros, como se tivessem nascido com maiores direitos ou privilégios para o gozo garantido de determinados bens ou serviços essenciais”. Afirmando igualmente que não é possível confiar na procura de paliativos no terceiro sector ou nos modelos filantrópicos, mesmo que os seus esforços sejam cruciais, a verdade é que estes “nem sempre são capazes de enfrentar estruturalmente os desequilíbrios actuais, que afectam os mais excluídos, e perpetuam involuntariamente as próprias injustiças que procuram combater”.

“São necessários grupos de liderança que possam enfrentar os problemas sem ficarem presos ou frustrados por eles e, desta forma, desafiar a tendência – frequentemente inconsciente – para a submissão a certas formas ideológicas de pensamento que acabam por justificar as injustiças e paralisar todos os esforços para as combater”

Para Francisco, é necessário aceitar, estruturalmente, que “os pobres têm dignidade suficiente para se sentarem nas nossas reuniões, participarem nas nossas discussões e trazerem pão para as suas próprias mesas”, e que não é a mera “assistência social” ou “bem-estar” que está em causa: “estamos a falar de uma conversão e transformação das nossas prioridades e do lugar dos outros nas nossas políticas e na ordem social”, frisa. E acrescenta que, em pleno século XXI, não se trata simplesmente de exploração ou opressão, mas de algo novo, que se traduz no facto de os excluídos “terem deixado de fazer parte da sociedade”. E esta é a cultura de descarte, “que não só descarta, mas faz com que os outros se sintam descartados, tornados invisíveis do outro lado do muro da indiferença e do conforto”.

“É urgente que a política e a economia entrem num diálogo franco ao serviço da vida, especialmente da vida humana”

Dirigindo-se directamente aos jovens, o Papa subinha que existem certas questões que não podem mais ser diferidas. “A enorme e urgente tarefa de as enfrentar exige um compromisso generoso nas áreas da cultura, da formação académica e da investigação científica, e a recusa de uma entrega a modas intelectuais ou posições ideológicas, pequenas ilhas que nos isolam da vida e do sofrimento real das pessoas”. E aos “queridos jovens economistas, empreendedores, trabalhadores e líderes de negócios” alerta de que chegou o tempo para enfrentar o desafio “de promover e encorajar modelos de desenvolvimento, progresso e sustentabilidade, nos quais as pessoas, especialmente os excluídos (incluindo a nossa irmã terra), deixarão de ser uma presença meramente nominal, técnica ou funcional.”. Ao invés, sublinha, “tornar-se-ão protagonistas das suas próprias vidas e em todo o tecido da sociedade”. Ou seja, “não pensemos por eles, mas com eles”, não seguindo o modelo das elites iluminadas, “onde tudo é feito para o povo, mas nada com o povo”.“Isto não é aceitável”, acrescentando que devemos aprender com eles “como propor modelos económicos que beneficiarão todos, uma vez que as suas abordagens estruturais e decisivas serão determinadas pelo desenvolvimento humano integral claramente estabelecido pela doutrina social da Igreja”.

“Chegou o tempo para enfrentar o desafio de promover e encorajar modelos de desenvolvimento, progresso e sustentabilidade, nos quais as pessoas, especialmente os excluídos (incluindo a nossa irmã Terra), deixarão de ser uma presença meramente nominal, técnica ou funcional”

Para Francisco, a política e a economia não devem “estar sujeitas às ordens de um paradigma de tecnocracia orientado para a eficiência”, mas sim e tendo em conta o bem comum, “é urgente que a política e a economia entrem num diálogo franco ao serviço da vida, especialmente da vida humana”. Se perdermos de vista esse foco e essa direcção, diz, permaneceremos prisioneiros de uma circularidade alienante que perpetuará apenas dinâmicas de degradação, exclusão, violência e polarização. Assim, “cada programa organizado para aumentar a produtividade deve ter apenas um objectivo: servir as pessoas”, reduzindo-se as formas de desigualdade, eliminando-se a discriminação e libertando as pessoas dos laços de servidão (…) Não basta aumentar o financiamento geral de riqueza e depois distribuí-lo de forma mais justa. Isto não é suficiente”, como também não é suficiente “desenvolver tecnologia para que a terra se torne uma habitação mais adequada para os seres humanos”.

“Não pensemos por eles, mas com eles”, não seguindo o modelo das elites iluminadas, “onde tudo é feito para o povo, mas nada com o povo”

Para o Papa, “a abordagem do desenvolvimento humano integral é uma boa notícia a ser proclamada e posta em prática”, mas não como um sonho e sim como um caminho concreto, na medida em que propõe que “redescubramos a nossa humanidade comum com base no melhor de nós próprios, nomeadamente, o sonho de Deus de que aprendamos a ser guardiães dos nossos irmãos e irmãs e dos mais vulneráveis (cf. Gn 4,9)”. Para Francisco, “a verdadeira medida da humanidade é essencialmente determinada em relação ao sofrimento e ao que sofre. Isto aplica-se tanto aos indivíduos como à sociedade”, sendo que esta mesma medida deve ser “integrada nas nossas decisões e nos nossos modelos económicos”.

“[Os jovens] deverão trabalhar para a promoção dos países mais desfavorecidos e em desenvolvimento, pois cada povo é chamado a tornar-se o artesão do seu próprio destino e do mundo inteiro”

Referindo que muitos dos jovens participantes terão a capacidade de moldar as decisões macroeconómicas que envolverão o destino de muitas nações, Francisco elencou também as “capacidades” em particular que estes deverão ter neste desígnio futuro: a de saberem cuidar do “desenvolvimento sustentável dos países e [assegurar] que estes não sejam sujeitos a sistemas de crédito opressivos que, longe de promoverem o progresso, sujeitam as pessoas a mecanismos que geram maior pobreza, exclusão e dependência; “apelar ao desenvolvimento de um modelo de solidariedade internacional capaz de reconhecer e respeitar a interdependência entre as nações e de favorecer mecanismos de controlo que impeçam qualquer tipo de sujeição” e “trabalhar para a promoção dos países mais desfavorecidos e em desenvolvimento, pois cada povo é chamado a tornar-se o artesão do seu próprio destino e do mundo inteiro”.

“Arregacem as mangas”

“”Hoje temos uma grande oportunidade para expressar o nosso sentido inato de fraternidade, para sermos bons samaritanos que suportam a dor dos problemas dos outros em vez de fomentar um maior ódio e ressentimento”, afirmou Francisco na nota final da sua mensagem aos jovens. E dado o futuro imprevisível que está já a ser presente, “cada um de vós, tendo como ponto de partida os locais onde trabalha e toma decisões, pode realizar muito”. Aos jovens pede ainda que, por muito atractivos que estes possam parecer, para não escolherem atalhos que os impeçam de se envolverem, mas antes “serem fermento onde quer que se encontrem”. “Arregacem as mangas”, exorta, pois quando a actual crise sanitária passar, a pior reacção será “a de cair ainda mais profundamente no consumismo febril e nas formas de autoprotecção egoísta”. Lembrando que de uma crise não é possível sair sem que sejamos afectados – “ou acabamos melhor ou pior” – para o Papa esta é a altura para promover o que é bom e colocarmo-nos ao serviço do bem comum.

“Deus conceda que no final não haverá mais ‘outros’, mas que adoptemos um estilo de vida em que só possamos falar de ‘nós’, de um grande “nós”

“Deus conceda que no final não haverá mais ‘outros’, mas que adoptemos um estilo de vida em que só possamos falar de ‘nós’, de um grande “nós”. Não de um “nós” mesquinho e depois dos “outros”. Isso não serve”, apelou ainda, acrescentando que “a história ensina-nos que nenhum sistema ou crise pode suprimir completamente as capacidades, engenho e criatividade que Deus constantemente desperta dentro de nós” e para “não temerem, “pois ninguém se salva sozinho”.

Aos jovens dos 115 países que acompanharam o evento online, Francisco pede por último que cada um reconheça a necessidade de dar à luz uma cultura económica capaz de “plantar sonhos, desenhar profecias e visões, permitir que a esperança floresça, inspirar confiança, atar feridas, tecer relações, despertar uma aurora de esperança, aprender uns com os outros e criar uma engenhosidade brilhante que iluminará as mentes, aquecerá os corações, dará força às nossas mãos e inspirará nos jovens – todos os jovens, sem ninguém excluído – uma visão de futuro repleta da alegria do Evangelho”.

Nota: As passagens presentes neste artigo constituem uma tradução não oficial do discurso do Papa.

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