O trabalho pode matar

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Mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos devido a riscos psicossociais associados ao trabalho, segundo um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho. O stress prolongado, a dificuldade em desligar, a pressão constante, o assédio ou a insegurança laboral já não afectam apenas a saúde mental dos trabalhadores: estão também associados ao aumento de doenças cardiovasculares, AVC e outras formas de desgaste físico e psicológico. O relatório alerta ainda para uma mudança importante de perspectiva: estes riscos não devem ser vistos apenas como problemas individuais, mas também como consequência de modelos de organização do trabalho marcados por pressão contínua, hiper-disponibilidade e relações profissionais pouco saudáveis

POR HELENA OLIVEIRA

Nos Estados Unidos, 51% dos trabalhadores confessam ter chorado no trabalho no último mês. Mais de metade admite ter recorrido a álcool ou a outras substâncias para lidar com o stress profissional. E 75% afirmam apresentar sintomas associados a problemas de saúde mental ligados ao trabalho. Os dados surgem num recente relatório sobre saúde mental laboral citado pela revista Fast Company e ajudam a perceber a dimensão de um mal-estar que deixou há muito de ser apenas individual.

O problema, é claro, não se resume apenas aos trabalhadores norte-americanos, De acordo com o relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – The psychosocial working environment: Global developments and pathways for action -, factores como longas jornadas, insegurança laboral, assédio, pressão contínua ou ambientes organizacionais tóxicos estão ligados a mais de 840 mil mortes anuais em todo o mundo e à perda de cerca de 45 milhões de anos de vida saudável. O impacto económico associado corresponde, de acordo com a OIT, a cerca de 1,37% do PIB mundial por ano.

Muito para além do stress

Durante muito tempo, os riscos associados ao trabalho eram sobretudo físicos e visíveis: acidentes em fábricas, minas, estaleiros ou linhas de montagem. Hoje, muitos dos danos provocados pelo trabalho são menos imediatos, mas não necessariamente menos graves. Entram de forma silenciosa no corpo, acumulam-se ao longo dos anos e manifestam-se sob a forma de ansiedade, depressão, perturbações do sono, burnout ou exaustão crónica.

Mas uma das conclusões mais inquietantes do relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é precisamente esta: os riscos psicossociais associados ao trabalho não afectam apenas a saúde mental. Segundo o documento, estes factores estão ligados a mais de 840 mil mortes anuais em todo o mundo devido a doenças cardiovasculares e perturbações mentais associadas ao trabalho.

Pressão contínua, insegurança laboral, assédio, violência, sobrecarga emocional ou ausência de recuperação adequada podem contribuir não apenas para ansiedade, depressão ou burnout, mas também para problemas físicos graves, incluindo doença cardiovascular e acidente vascular cerebral.

O relatório alerta para o crescimento dos chamados riscos psicossociais no trabalho, um conceito que inclui factores como pressão excessiva, insegurança laboral, assédio, violência, falta de autonomia ou dificuldade em separar vida profissional e pessoal.

Segundo o documento, estes riscos tendem a surgir quando existe um desequilíbrio persistente entre as exigências colocadas sobre os trabalhadores e os recursos disponíveis para lhes responder. Em muitos casos, o problema não resulta de um episódio extremo ou isolado, mas da acumulação prolongada de pequenas pressões quotidianas: a sensação constante de urgência, a pressão para responder rapidamente, o medo de errar, a imprevisibilidade dos horários, a insegurança quanto ao futuro profissional ou a ausência de reconhecimento.

Ao mesmo tempo, os números mostram que estas condições deixaram há muito de ser casos isolados. Cerca de 35% dos trabalhadores a nível global trabalham mais de 48 horas por semana, enquanto quase um quarto afirma já ter sido alvo de violência ou assédio laboral. Em algumas regiões, como a Ásia-Pacífico, quase metade dos trabalhadores ultrapassa regularmente as 48 horas semanais de trabalho.

Os dados ajudam a perceber porque é que os riscos psicossociais deixaram de ser vistos apenas como um problema individual ou uma questão de fragilidade emocional. Cada vez mais, começam a ser entendidos como consequência directa de modelos de organização laboral que dificultam a segurança psicológica, o descanso e relações profissionais saudáveis.

A cultura da disponibilidade permanente

A tecnologia prometia libertar tempo. Automatizar tarefas, reduzir esforço, aumentar eficiência e permitir formas de trabalho mais flexíveis. Em muitos aspectos, isso aconteceu. Mas a mesma tecnologia que permite trabalhar em qualquer lugar tornou também o trabalho permanentemente presente

O relatório da OIT identifica a digitalização e a hiperconectividade como alguns dos factores que estão a transformar profundamente o ambiente psicossocial de trabalho. A expansão do trabalho remoto, das plataformas digitais e da comunicação permanente aumentou a flexibilidade, mas também contribuiu para tornar mais difusas as fronteiras entre vida profissional e vida pessoal. [v. artigo “A promessa (não cumprida) da flexibilidade”.

O problema já não está apenas nas longas jornadas formais. Está também na fragmentação constante do tempo e da atenção. O trabalho invade o espaço pessoal através de notificações, mensagens, plataformas colaborativas, chamadas inesperadas e uma sucessão contínua de pequenas interrupções que “prolongam mentalmente” o dia de trabalho muito para além do horário tradicional.

A fronteira entre disponibilidade e descanso tornou-se progressivamente mais ambígua. Em muitas profissões, responder rapidamente passou a ser interpretado como sinal de profissionalismo, empenho ou espírito de equipa. A lentidão tornou-se suspeita. O silêncio pode parecer desinteresse. E a dificuldade em desligar deixou de ser excepção para se transformar quase numa norma cultural.

Ao mesmo tempo, o trabalho remoto e híbrido, apesar das vantagens evidentes, está a contribuir, em muitos casos, para tornar ainda mais difusos os limites entre vida pessoal e vida profissional. A casa passou a ser simultaneamente escritório, espaço familiar e lugar de descanso. E aquilo que inicialmente parecia maior autonomia trouxe também novas formas de pressão invisível.

Segundo a OIT, os riscos psicossociais tendem a agravar-se em contextos marcados por elevada pressão, insegurança, exigências emocionais intensas e ausência de recuperação adequada. O resultado é uma sensação contínua de activação. Mesmo quando o trabalho termina formalmente, muitas pessoas continuam mentalmente ligadas ao que ficou por responder, resolver ou antecipar. O descanso deixa de ser verdadeiro descanso quando a atenção permanece parcialmente ocupada pelo trabalho.

Trabalhar com medo

O relatório da OIT sublinha que os riscos psicossociais não estão ligados apenas à intensidade do trabalho ou ao excesso de horas. A qualidade das relações profissionais e o ambiente organizacional têm igualmente um impacto profundo na saúde física e mental dos trabalhadores.

Em muitos casos, o problema não assume formas extremas ou facilmente identificáveis. Surge através de humilhações subtis, isolamento, pressão constante, controlo excessivo, desvalorização sistemática do trabalho ou culturas organizacionais onde o medo de errar se torna permanente.

O relatório alerta também para o impacto da insegurança laboral no agravamento dos riscos psicossociais. A incerteza sobre rendimento, estabilidade ou futuro profissional funciona, para muitos trabalhadores, como uma fonte contínua de ansiedade e desgaste emocional, particularmente em contextos marcados por precariedade ou forte pressão competitiva.

Ao mesmo tempo, a digitalização trouxe novas formas de monitorização e controlo do trabalho. Em algumas actividades, algoritmos, métricas permanentes de desempenho e sistemas automáticos de avaliação passaram a regular ritmos, produtividade e tempos de resposta, reduzindo margens de autonomia e aumentando a sensação de vigilância contínua.

Tudo isto ajuda a explicar porque é que o mal-estar associado ao trabalho deixou de ser visto apenas como fragilidade individual ou incapacidade de lidar com pressão. Cada vez mais, começa a ser entendido como consequência directa de modelos de organização laboral que dificultam a segurança psicológica, a previsibilidade, o descanso e relações profissionais saudáveis.

O trabalho ainda pode ser um lugar saudável?

Apesar do tom alarmante do relatório, a OIT não apresenta o trabalho como uma realidade inevitavelmente nociva. Pelo contrário. Parte da ideia de que o trabalho pode – e deve – ser uma fonte de estabilidade, pertença, dignidade e realização pessoal. O problema surge quando os ambientes laborais começam a produzir sistematicamente desgaste psicológico, insegurança e sofrimento prolongado.

O relatório insiste, por isso, numa mudança importante de perspectiva: os riscos psicossociais não devem ser tratados apenas como problemas individuais ou falhas de adaptação emocional dos trabalhadores. A forma como o trabalho é organizado, distribuído e gerido tem impacto directo na saúde física e mental das pessoas.

Isso significa que a prevenção não depende apenas da capacidade individual de resistência ou resiliência. Depende também das escolhas feitas pelas organizações: cargas de trabalho equilibradas, horários previsíveis, maior autonomia, culturas menos assentes em pressão contínua, prevenção da violência e do assédio, apoio efectivo à saúde mental e relações profissionais mais saudáveis.

A OIT sublinha igualmente que ambientes de trabalho psicologicamente mais seguros tendem a produzir benefícios que vão muito para além da saúde individual. Menor absentismo, menos rotatividade, maior envolvimento, melhor colaboração e relações profissionais mais sustentáveis acabam também por ter impacto na produtividade e na própria estabilidade das organizações.

O desafio é particularmente complexo porque muitas das práticas hoje associadas ao desgaste psicológico continuam profundamente normalizadas na cultura profissional contemporânea. A hiper-disponibilidade, a glorificação da exaustão, a pressão permanente ou a ideia de que estar sempre ocupado é sinal de relevância profissional continuam presentes em muitos sectores e organizações.

Talvez por isso a questão colocada pelo relatório da OIT vá muito para além da saúde mental no trabalho. No fundo, obriga também a repensar o próprio modelo de trabalho que as sociedades contemporâneas foram construindo nas últimas décadas e a perguntar até que ponto é possível continuar a exigir desempenho permanente sem consequências humanas profundas.

Quando o trabalho deixa de caber na vida

Durante décadas, o trabalho foi apresentado como um dos principais instrumentos de progresso individual e colectivo. Fonte de rendimento, estabilidade, identidade e mobilidade social, tornou-se também um elemento central da forma como as sociedades modernas organizam o tempo, o reconhecimento e até o valor pessoal.

Mas o relatório da OIT sugere que alguma coisa começou a desequilibrar-se. Num contexto marcado por aceleração tecnológica, hiperconectividade, pressão constante sobre desempenho e crescente fragmentação das fronteiras entre vida profissional e pessoal, o trabalho deixou, em muitos casos, de ocupar apenas uma parte da vida. Passou a infiltrar-se no descanso, nas relações pessoais, no sono e na própria saúde física e mental.

A questão é particularmente paradoxal porque nunca existiram tantas ferramentas destinadas, em teoria, a aumentar eficiência, flexibilidade e autonomia. No entanto, para muitos trabalhadores, o resultado parece ter sido uma sensação permanente de disponibilidade e activação contínua.

Ao mesmo tempo, aquilo que durante anos foi valorizado como sinal de dedicação – responder a qualquer hora, dormir pouco, estar sempre ocupado, suportar pressão constante – começa progressivamente a ser reinterpretado à luz dos seus custos humanos. Não apenas emocionais, mas também físicos, sociais e económicos.

Talvez por isso o relatório da OIT acabe por levantar uma questão que vai muito além da saúde mental no trabalho. No fundo, obriga a perguntar que ideia de produtividade, sucesso e desempenho está hoje a orientar as organizações contemporâneas e até que ponto é possível continuar a exigir disponibilidade permanente sem comprometer aquilo que torna o próprio trabalho sustentável: as pessoas.

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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