Fake news acerca das fake news

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Existe indubitavelmente um crescendo de preocupação acerca da qualidade da informação. Dado vivermos na “era” dela, o problema adquire mesmo uma centralidade infraestrutural: o ingrediente mais decisivo da atualidade parece em galopante degradação. Será isto verdade ou é, ela própria, uma fake news? Para entender a realidade é preciso uma distinção fundamental entre dois elementos: a “tese das fake news” e a difusão de notícias falsas

POR JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A primeira assegura que os meios respeitáveis de comunicação social foram há muito capturados por ideologias e interesses, ficando empenhados numa magna campanha de desinformação e manipulação do público. Deste modo, não se pode confiar no que dizem os grandes jornais, rádios e televisões, agora operando em variadas plataformas, porque promovem visões do mundo que são distorcidas, oportunistas e envenenadas.

Esta ideia é evidentemente parte de algumas “teorias da conspiração”, hoje bastante assanhadas. O facto de o seu principal promotor ser o presidente Donald Trump é muito significativo. Porque ele é, não só um mentiroso obsessivo, dos maiores de sempre, mas um dos poucos defensores registados de uma autoidentificação com a verdade. Ele acha mesmo ser “a” verdade e, por isso, “o” caminho. Assim, o que quer que ele diga é, por essa mesma razão, indiscutível. Aliás, a própria tese das fake news constitui um elemento central do mito, permitindo descartar qualquer expressão oposta. Deste modo, tem-se perfilado como um dos maiores geradores de fake news, de forma tão abundante e contraditória que impede qualquer credibilidade.

No entanto, uma análise minimamente séria do jornalismo contemporâneo infirma a dita tese. Não se vislumbra qualquer pico anormal de malevolência mediática. As fontes sérias, os canais reputados, os profissionais respeitáveis têm continuado a assegurar-nos uma informação sólida e de qualidade. É verdade que isso constitui, como sempre, um esforço difícil e exigente para separar factos de opiniões, sobretudo em temas polémicos e divisivos. As doutrinas, os interesses, as pressões são, hoje como sempre, poderosos, como o caso Trump manifesta. Mas tratar com elevação desses temas é a própria função dos bons jornalistas.

Esquecendo a tese extremista, existem outras dimensões do problema das notícias falsas. Se não há um pico de mau jornalismo, vivemos uma enxurrada de outras fontes noticiosas. A causa é evidente: cada vez que as tecnologias de comunicação avançam, sobe a democratização da atividade informativa. Isso aumenta exponencialmente a divulgação do pensamento, junto com a geração de lixo intelectual. Tal é verdade desde a invenção da escrita, e tem-se repetido ao longo da história com variadas técnicas. Da imprensa no século XV à rádio no início do século XX, a internet no fim e a inteligência artificial de hoje, a questão da manipulação dos dados é recorrente. Não restam dúvidas que muita gente é enganada, sobretudo no início de um novo meio, quando ainda não estão estabelecidos os protocolos da boa utilização.

O elemento decisivo, porém, tem de ser aquele que o aspeto anterior levantou: existe muita informação falsa a circular, mas as fontes limpas continuam a sê-lo. Assim, o aumento da desinformação deve-se, não às tecnologias, mas aos utilizadores. Uma queixa acerca de água inquinada só é real se falarmos das torneiras, porque nas sargetas e esgotos toda a água é sempre inquinada. Quando muita gente recebe as suas notícias nas fossas de sites e redes sociais, não é de admirar o surto de aldrabices.

Em conclusão, os elementos centrais do fenómeno das fake news são dois, com gravidade diferente. Se, ou quando, for verdade que os jornais de referência estão conquistados por partidos ocultos, então desaba um dos pilares mais centrais da civilização. Mas, hoje como sempre, temos de ter cuidado na escolha das nossas fontes. Todas as comunidades têm templos e tabernas, e cada um escolhe onde vai.

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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