Arrumos

Arrumar pequenas coisas que se foram deixando fora do lugar, e a limpeza da casa, em profundidade, como antigamente se fazia pela Páscoa, pelo menos na minha aldeia.

Dos amigos que entram em contacto comigo, nesta altura, vou tendo informações interessantes sobre o modo como estão a aproveitar as presentes circunstâncias. Além dos que não fazem senão matar o tempo, há de tudo: Os que trabalham em casa, os que põem em dia as leituras, fazem estudos adiados, põem a imaginação ao serviço dos outros com as suas habilidades nas redes sociais, e há, aqui dominam as senhoras, quem se dedique aos arrumos!
Arrumar pequenas coisas que se foram deixando fora do lugar, e a limpeza da casa, em profundidade, como antigamente se fazia pela Páscoa, pelo menos na minha aldeia. E foi a ocupação destas donas de casa que me trouxe à mente o trecho de São Mateus, 12, 43-45:
“Quando o espírito impuro saiu de uma pessoa, vagueia por lugares desertos, em busca de repouso, mas não o encontra. Então diz: «Volto para a minha casa, donde saí». Quando chega, encontra-a desocupada, bem varrida e em ordem. Então vai, toma consigo outros sete espíritos piores que ele, que entram e se instalam ali, de modo que a última situação daquele homem fica pior do que a primeira.”
Os exgetas encontrarão muitas pistas para o enquadramento narrativo desta parábola de Jesus, e é bom que as tenhamos em consideração; nem seria eu, com todas as minhas incompetências, que iria agora pôr em dúvida as conclusões dos sábios.
A minha questão não está na parábola nem no seu significado geral: o que sempre me intrigou, desde que comecei a ler o texto sagrado, sobretudo como quem reza, foi que o próprio Jesus admitisse que, depois da casa limpa e arrumada, o estado do possesso poderia tornar-se pior do que antes; até porque o demónio tomaria consigo “outros sete espíritos piores que ele”.
Não quero fazer interpretações apressadas, que certamente alguns tomariam como exemplo de puro oportunismo; ainda que, do ponto de vista pastoral, qualquer cristão, muito mais se for sacerdote, tenha, não apenas o direito, mas o dever de levar à prática o preceito de São Paulo a Timóteo: “ Na presença de Deus e de Cristo Jesus (…), advirto-te seriamente: prega a Palavra. Insiste, a tempo e fora de tempo; repreende, julga e exorta, sempre com toda a paciência e doutrina. Porque virá uma época em que não suportarão o ensino correcto, mas rodear-se-ão de mestres que lhes agradem aos ouvidos.” (II Tim 4, 1-3).
Todo este início do capitulo IV da Segunda Carta a Timóteo, até pela solenidade do estilo, parece destinar-se a um responsável da comunidade cristã dos nosso dias; até o próprio Vaticano II o utiliza, quando se refere à missão especifica dos bispos (Cfr “Lumen Gentium” 25).
Assim, creio que não seria propriamente um manipulador do Evangelho, concretamente das advertências de Jesus acerca dos demónios que vêm depois, se gritasse tais palavras, alto e bom som, aos que já se entregaram à tarefa de gizar projectos de exploração, para este pobre mundo, que a doença e a morte continuam a desnudar, lançando-o num estado cada vez mais próximo daquele em que Deus encontrou Adão e Eva, depois da sua tentativa de se apoderarem da Criação, como coisa própria, de que queriam dispor à sua maneira.
Mas eu fico numa perspectiva mais íntima, mais pessoal: e vem-me à ideia que ter a casa arrumada, com tudo, pelo menos aparentemente, no seu lugar, paredes e móveis a brilhar de limpeza, fascinantes, não basta; pode até ser extremamente perigoso: vê-se melhor o que vale a pena roubar, e corremos o risco de nos entretermos a admirar o nosso trabalho, descurando assim a necessária vigilância.
Precisamos urgentemente de arrumar a casa: tirar da mente tudo o que está lã a mais, abrir e alargar os espaços que conservamos fechados até agora, com medo das referências que poderiam pôr em questão as certezas que nos dispensavam de pensar em Deus.
Uma casa arrumada, será acima de tudo, uma casa onde o Senhor Se sinta bem, como acontecia com a casa dos amigos de Betânia: uma casa dirigida por duas mulheres que, na perspectiva joanina, sintetizam as duas vertentes humano-divinas de qualquer actividade. Digo qualquer, porque não queria que se pusesse o acento na semântica que brota da etimologia da palavra.
Dormir, para cumprir o dever de descansar, que é um dever grave de quem trabalha, também é uma actividade que temos de revestir das duas dimensões: acção e contemplação. Dito de outro modo: agir contemplando e contemplar agindo.

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