A psicologia da pandemia

Os especialistas em saúde alertam para o importante serviço público prestado pelos meios de comunicação, alertando contudo para as inevitáveis situações de sensacionalismo.

À medida que a propagação do coronavírus se torna crescente, o mesmo acontece com o medo. Tal como um vírus, o medo contagia-nos e poderá levar, em alguns casos, a situações de pânico ou a outro tipo de desordens psicológicas que, a juntar ao isolamento social a que estamos sujeitos, poderão significar problemas acrescidos para os quais não estamos preparados. Mas como é possível mantermo-nos seguros no meio desta situação totalmente atípica e, em simultâneo, garantir que o medo não vai tomar conta das nossas vidas? A pergunta é pertinente e as respostas não são fáceis nem imediatas

Steven Tyalor é um especialista nas reacções psicológicas desencadeadas pelas pandemias e o seu novo livro – que não poderia vir mais a propósito – intitulado “The Psychology of Pandemics: Preparing for the Next Global Outbreak of Infectious Disease” explora exactamente a forma como as pessoas respondem às pandemias e como é que este tipo de comportamentos se disseminam. E, no caso específico da Covid-19, existe um elemento que lhe confere uma ansiedade extra: o facto de ser uma ameaça nova, invisível e imprevisível. Taylor acredita que as pessoas, no geral, são mais resilientes do que se julga e que a maioria delas irá passar por esta situação sem uma ansiedade demasiado debilitadora. Claro que pessoas com desordens de ansiedade preexistentes, com problemas emocionais ou com certos traços de personalidade – como a intolerância à incerteza ou a tendência para se preocuparem demais – serão mais afectadas.  À medida que o número de casos de infectados aumenta, o mesmo acontece com a incerteza colectiva. Daí os psicólogos e os especialistas em saúde pública estarem a alertar para o aumento de ansiedade entre os cidadãos, largamente impulsionada por um sentimento de impotência. Neste momento, a disseminação do coronavírus não é apenas uma crise de saúde pública. É, sim, um evento global que está a ter impacto na generalidade da vida das pessoas, levando-as a preocuparem-se não só com a sua saúde e a dos seus, mas também com o que fazer às crianças e jovens que têm em casa, com a vida profissional e, em muitos casos, com as contas a pagar no final do mês. E, nesse sentido, a comunicação social, em conjunto com as redes sociais – e pese embora a preocupante dimensão das fake news -, está a ajudar significativamente a população a estar informada sobre questões que vão além da gravidade exclusiva da pandemia. É preciso não esquecer que a incerteza sobre a natureza e a trajectória desta ameaça exacerba igualmente um sentimento de não-controlo da situação, o que leva as pessoas a procurarem continuamente “ajuda” nas notícias.

Os especialistas em saúde alertam para o importante serviço público prestado pelos meios de comunicação, alertando contudo para as inevitáveis situações de sensacionalismo. Por exemplo, o Poynter Institute, que forma jornalistas, tem vindo a chamar a atenção para a utilização do termo “vírus mortal”, na medida em que, e para a maioria das pessoas, o coronavírus não é letal. A par do dever de informar criteriosamente, a comunicação social tem de evitar, a todo o custo, explorar os medos das pessoas. Por outro lado, multiplicam-se os avisos para que as pessoas limitem a sua exposição às notícias, não as seguindo obsessivamente.

Texto escrito por Helena Oliveira (Editora Executiva VER)

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