A ilusão do controlo

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Tudo parece depender de nós: a carreira, o desempenho, as decisões, a forma como trabalhamos e nos organizamos. As organizações reforçam essa exigência, pedindo autonomia e responsabilização em contextos cada vez mais imprevisíveis. Dispomos de mais informação e de ferramentas que prometem controlo, sejam plataformas digitais, sistemas de gestão, dados em tempo real ou algoritmos que antecipam decisões. E, ainda assim, o mundo torna-se cada vez mais difícil de antecipar. É nesse desfasamento, entre o controlo que se espera e a incerteza que se vive, que começa a instalar-se uma nova forma de ansiedade

POR HELENA OLIVEIRA

Dispomos hoje de uma capacidade sem precedentes para medir, organizar e optimizar o tempo, o trabalho, a atenção, os hábitos, a produtividade e até o sono e a nossa saúde. Aplicações que quantificam, plataformas que organizam, sistemas que antecipam, algoritmos que sugerem. A promessa é clara: com os instrumentos certos, tudo pode ser gerido, previsto, ajustado.

A ideia de controlo deixou de ser uma ambição e passou a ser uma expectativa. Espera-se que saibamos gerir o nosso tempo com eficiência, tomar decisões informadas, antecipar riscos, adaptar-nos continuamente. No limite, espera-se que consigamos governar a nossa vida com a mesma lógica com que se gere um sistema.

Mas essa promessa contém uma tensão crescente. Ao mesmo tempo que se multiplicam os instrumentos de controlo, o mundo torna-se mais instável, mais imprevisível, mais difícil de antecipar. E é nesse desfasamento que começa a emergir uma nova forma de ansiedade: não a de não ter controlo, mas a de sentir que deveríamos tê-lo, mesmo quando já não é possível.

Controlar deixou de ser uma capacidade. Tornou-se uma exigência. E, talvez por isso, também uma fonte de inquietação permanente.

Os limites do controlo

Se, por um lado, a nossa capacidade de medir, organizar e antecipar nunca foi tão sofisticada, por outro, o contexto em que essas decisões são tomadas tornou-se profundamente instável. A sensação de controlo cresce à escala individual, mas o mundo em que vivemos torna-se cada vez mais difícil de antecipar.

Na verdade, o controlo sobre os acontecimentos nunca foi pleno. A incerteza sempre fez parte da experiência humana. Mas há hoje factores que amplificam essa dificuldade: a velocidade da mudança, a interdependência global, a forma como decisões distantes produzem efeitos imediatos na vida de cada um. O que antes era difícil de prever tornou-se, em muitos casos, ainda mais volátil. Esse maior grau de incerteza manifesta-se na volatilidade económica, na imprevisibilidade política, na rapidez com que decisões distantes produzem efeitos imediatos na vida de cada um. Uma alteração regulatória num país, uma escalada geopolítica, uma disrupção tecnológica, ou seja, tudo se propaga com uma velocidade e uma amplitude que tornam difícil qualquer antecipação sólida.

A própria tecnologia, frequentemente apresentada como instrumento de controlo, contribui para este paradoxo. Ao mesmo tempo que oferece mais informação e mais capacidade de análise, acelera o ritmo da mudança e multiplica os pontos de incerteza. Quanto mais sabemos, mais claro se torna o que não conseguimos controlar. Quanto mais conseguimos medir, mais se torna evidente aquilo que não conseguimos prever.

Este desfasamento não é apenas externo. Entra nas organizações, nas decisões quotidianas, na forma como se planeia e executa. Estratégias definidas com rigor tornam-se rapidamente desajustadas. Planos desenhados com detalhe perdem relevância perante acontecimentos imprevistos. A ideia de linearidade – esforço, planeamento, resultado – deixa de se confirmar com a mesma consistência.

Ainda assim, a expectativa mantém-se. Continuamos a agir como se o mundo fosse controlável. Continuamos a planear como se fosse previsível. Continuamos a exigir decisões firmes em contextos que, na realidade, são ambíguos e mutáveis.

E é aqui que a tensão se torna mais evidente: não entre controlo e descontrolo, mas entre a forma como pensamos o mundo e a forma como ele efectivamente funciona.

A dificuldade não está apenas em prever o que vai acontecer. Na verdade, isso sempre aconteceu. Está em aceitar que, em muitos casos, não é possível fazê-lo com o grau de segurança que gostaríamos. E, no entanto, a exigência de resposta mantém-se: rápida, informada, eficaz. Decidir tornou-se mais difícil, mas não menos urgente. E essa combinação cria um terreno fértil para uma sensação difusa de insegurança. Não porque faltem ferramentas, mas porque o mundo em que estas operam já não corresponde à lógica para a qual foram pensadas.

O peso de achar que tudo depende de nós

É neste ponto que a ilusão de controlo deixa de ser apenas uma ideia e se transforma numa experiência concreta. Não porque controlemos mais, mas porque sentimos que deveríamos conseguir fazê-lo. E essa diferença – entre o que é possível e o que é expectável – tem um custo crescente.

Ao longo dos últimos anos, consolidou-se uma narrativa exigente sobre o papel do indivíduo no trabalho e na gestão da sua própria vida profissional. Somos responsáveis pela nossa carreira, pelo nosso desempenho, pela forma como gerimos o tempo, pela qualidade das decisões, pelo equilíbrio emocional, pela capacidade de adaptação. A autonomia passou a ser apresentada como liberdade, mas, na prática, traduz-se muitas vezes numa transferência silenciosa de responsabilidade: aquilo que antes era absorvido pelo contexto passa a ser internalizado como obrigação pessoal.

Tudo parece depender de nós. Se não avançamos, é porque não fomos suficientemente proactivos. Se erramos, é porque não antecipámos. Se não conseguimos acompanhar o ritmo, é porque não nos organizámos melhor. O contexto raramente entra na equação. As variáveis externas – instabilidade, ambiguidade, imprevisibilidade – são tratadas como pano de fundo, não como condicionantes reais da acção.

Esta mudança altera a forma como interpretamos a própria dificuldade O que poderia ser entendido como limite – de informação, de tempo, de controlo — passa a ser vivido como falha. E, pouco a pouco, instala-se uma pressão contínua: a de estar sempre à altura de um ideal de controlo que, na prática, já não é alcançável.

Na maioria das vezes, não se trata de uma culpa explícita. É algo mais difuso e persistente. Uma inquietação de fundo, uma sensação de insuficiência difícil de nomear. Como se houvesse sempre mais alguma coisa que poderia ter sido feita, melhorada, antecipada. Como se a responsabilidade nunca terminasse verdadeiramente, mesmo quando as condições já não permitem fazer mais.

Essa sensação é reforçada por um contexto em que o desempenho se tornou visível, comparável e permanente. Tudo pode ser medido, avaliado, exposto. E essa exposição contínua tende a amplificar a percepção de falha, porque reduz a margem para reconhecer aquilo que escapa ao controlo. O erro deixa de ser apenas um resultado possível e passa a ser interpretado como prova de insuficiência.

É aqui que surge uma nova forma de ansiedade: não a perante o desconhecido – que sempre existiu -, mas a de termos de agir como se este fosse previsível. De ter de decidir com segurança em contextos ambíguos. De ter de manter coerência num cenário que muda constantemente.

A exigência de controlo não desaparece quando o controlo deixa de ser possível. Pelo contrário, torna-se mais intensa. E isso cria um paradoxo difícil de sustentar: quanto menos controlável é o mundo, mais se espera que cada um o consiga gerir.

O resultado não é maior eficácia. É, muitas vezes, um desgaste acumulado. Um esforço contínuo para manter uma narrativa de competência que já não corresponde às condições em que se opera. E, com ele, a dificuldade crescente em distinguir o que depende de nós e aquilo que, simplesmente, já não depende.

O erro das organizações

Se esta pressão é vivida ao nível individual, não nasce apenas aí. É, em grande medida, produzida e amplificada pelas próprias organizações.

Nos últimos anos, muitas empresas adoptaram um discurso centrado na autonomia, na responsabilização e na agilidade. Fala-se de equipas mais independentes, de estruturas mais leves, de decisões mais distribuídas. Em teoria, trata-se de um avanço. Na prática, nem sempre corresponde a uma verdadeira redistribuição de poder ou de risco.

Em muitos casos, o que se verifica é um movimento mais subtil: o risco não desaparece, apenas muda de lugar. Aquilo que antes era absorvido pela organização – a incerteza do mercado, a ambiguidade estratégica, a falta de previsibilidade – passa a ser, em parte, transferido para os indivíduos. Pede-se autonomia, mas sem margem real e exige-se decisão, mas sem controlo efectivo sobre as variáveis que a determinam.

Esta tensão torna-se particularmente visível no modo como se definem objectivos e se avalia desempenho. As metas mantêm-se exigentes, muitas vezes construídas com uma lógica de previsibilidade que já não corresponde ao contexto. Espera-se consistência num ambiente volátil, rapidez num cenário ambíguo, eficácia num sistema onde as condições mudam constantemente. E, quando essa expectativa não é cumprida, a leitura tende a recair sobre o indivíduo, não sobre o enquadramento.

Há aqui um desfasamento que raramente é explicitado. Por um lado, as organizações reconhecem – pelo menos ao nível do discurso – que o mundo se tornou mais complexo e imprevisível. Por outro, continuam a operar com modelos de avaliação, de planeamento e de exigência que pressupõem um grau de controlo que já não existe.

O resultado é uma incoerência silenciosa. Pede-se às pessoas que sejam adaptáveis, mas penaliza-se a variabilidade: valoriza-se a iniciativa, mas reduz-se a margem de erro. Incentiva-se a decisão, mas mantém-se uma cultura de responsabilização individual pelo insucesso. E, nesse contexto, a autonomia transforma-se facilmente numa forma de exposição.

Não se trata de uma falha intencional. Em muitos casos, é antes a consequência de modelos de gestão que não acompanharam a transformação do contexto em que operam. As estruturas mudaram, as ferramentas evoluíram, o discurso actualizou-se, mas a lógica de fundo, assente na previsibilidade e no controlo, mantém-se.

E é precisamente aqui que a ilusão de controlo ganha dimensão organizacional. Não apenas porque se espera que o indivíduo controle o que não controla, mas porque a própria organização continua a agir como se esse controlo fosse possível.

No limite, cria-se uma situação paradoxal: sistemas que reconhecem a incerteza, mas continuam a exigir certeza. Estruturas que admitem a complexidade, mas continuam a avaliar com base na linearidade. E, no centro desse paradoxo, estão pessoas a quem é pedido que sustentem uma coerência que o próprio sistema já não consegue garantir.

O que podemos e não podemos controlar

Desta forma, talvez a questão não esteja em recuperar o controlo, mas em reconhecer com maior clareza os seus limites.

Durante demasiado tempo, habituámo-nos a pensar a acção humana como um espaço de domínio: decidir, antecipar, optimizar, corrigir. E, em muitos contextos, essa lógica funcionou. Mas há uma diferença entre agir com responsabilidade e assumir um controlo total que já não corresponde à realidade.

Num mundo mais complexo, mais interdependente e mais instável, a maturidade talvez não esteja em conseguir controlar mais, mas em reconhecer com maior precisão onde o controlo termina. Não como um gesto de resignação, mas como uma forma de lucidez.

Saber o que depende de nós continua a ser essencial. Mas saber o que já não depende pode ser ainda mais determinante.

Essa distinção não reduz a acção, apenas a torna mais justa. Permite transferir a energia do esforço constante de antecipação para a qualidade da presença, da decisão e da resposta. Permite substituir a ansiedade de ter de dominar tudo por uma atenção mais fina ao que, de facto, pode ser influenciado.

Talvez seja também aqui que se abre espaço para uma outra forma de responsabilidade. Menos centrada na ilusão de controlo absoluto e mais orientada para a forma como se habita a incerteza. Não para a eliminar, mas para a atravessar com maior consciência.

Num contexto em que tanto nos é pedido, essa mudança pode parecer contra-intuitiva. Mas talvez seja precisamente por isso que se torna necessária. Porque, ao tentar controlar o que já não controlamos, arriscamos perder a capacidade de agir onde ainda faz diferença.

E é nessa fronteira – entre o que podemos e o que não podemos controlar – que se joga, cada vez mais, a qualidade das nossas decisões. Não na promessa de domínio total, mas na clareza com que reconhecemos os seus limites.

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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