A espreguiçadeira na praia é real. O mar é real. Mas a caixa de email também é real. Em plena era da conectividade permanente, desligar do trabalho tornou-se uma das tarefas mais difíceis das férias. E, no entanto, é precisamente esse desligamento psicológico que permite descansar, recuperar energia e regressar com maior capacidade de concentração, decisão e desempenho
POR PATRÍCIA DE MELO E LIZ
É esse o paradoxo no centro do descanso moderno: as pessoas viajam mais longe, pagam mais caro e planeiam as suas férias com mais cuidado do que nunca e, ainda assim, a maioria nunca deixa mesmo o trabalho para trás. Um estudo de 2026 com trabalhadores dos EUA e da Europa concluiu que apenas 29% dos profissionais conseguem desligar-se completamente do trabalho nas férias, sendo os receios e não a urgência, o principal motor: 48% temem perder algo importante, 31% dizem que verificar o email se tornou um reflexo automático, e 36% admitem que é a simples curiosidade o que os leva de volta à caixa de entrada.
Porque é que o corpo relaxa, mas a mente não?
Os psicólogos têm um nome para aquilo que falta quando umas férias não trazem descanso real: o desligar psicológico. Este desligar torna-se extremamente importante para que o regresso seja mais bem conseguido, e é aqui que as lideranças devem centrar-se: na importância de fomentar um descanso efetivo.
Recordo-me de um workshop em que participei recentemente, com um Coach de Atletas Olímpicos, em que este descrevia vários estados de alta performance e as melhores práticas para alcançar metas e bater recordes. Foi curioso perceber que foi no tempo de descanso efetivo, e nas formas de o conseguir, que ele se deteve mais tempo e com maior profundidade, ao explicar como se chega a melhores resultados. Descrevia precisamente aquilo a que os investigadores chamam “desligamento psicológico”: um estado em que a pessoa se afasta mentalmente do trabalho e deixa de pensar em assuntos profissionais enquanto está ausente do emprego.
Faz todo o sentido que seja assim também para nós, profissionais fora do desporto de alta competição. O fenómeno foi, aliás, identificado pela primeira vez num estudo com reservistas do exército, que relataram níveis significativamente mais baixos de stress e esgotamento profissional depois do serviço militar do que antes, precisamente quando conseguiam realmente afastar-se mentalmente do trabalho. Acredito que o mesmo se aplica ao descanso efetivo longe do stress do trabalho. Uma atividade agradável, pouco exigente, que produz uma sensação de bem-estar discreta em vez de tédio passivo, pode fazer maravilhas na nossa capacidade de raciocínio, na memória e na renovação de energia, seja o desporto ao ar livre, estar com a família e amigos sem interrupções constantes, ler livros, passear o cão, comer uma refeição com tempo ou outras atividades que mesmo exigindo atenção e esforço físico, se distinguem da rotina diária. É nesse tipo de pausa genuína que vejo as pessoas regressarem verdadeiramente renovadas.
As estatísticas não mentem. Um estudo longitudinal com adultos em idade ativa concluiu que quem relatou maior capacidade de “desligamento psicológico” do trabalho apresentava, um ano depois, melhor bem-estar psicológico, menor ansiedade e maior satisfação com a vida — e quem melhorou essa capacidade obteve os mesmos ganhos, independentemente da sua situação profissional. Ou seja: não é só a viagem que conta, é o hábito de saber desligar.
Uma cultura de “sempre ligado” que acompanha as pessoas até à praia
Nada disto acontece isoladamente. Os hábitos de conectividade permanente que dificultam o descanso nas férias são os mesmos que moldam as noites e os fins de semana comuns.
Esse ruído de fundo não desliga só porque a pessoa muda de local. É regular ouvir colegas de trabalho e amigos falar da dificuldade em desligar-se mentalmente do trabalho durante as férias, mesmo quando não estão de facto a trabalhar — o projeto por terminar ou a pilha de tarefas à espera do regresso acompanha-nos mentalmente, mesmo com o computador fechado na gaveta do quarto de hotel.
Nos dias que correm, existem pressões estruturais que agravam o problema. Um exemplo claro é o dos mais jovens, que com todas as solicitações digitais e o hábito criado de estarem conectado em permanência, provoca uma maior dificuldade em desligar. São muitas as pessoas que verificam o email sem serem solicitadas para o fazer: num inquérito recente, só 3% dos trabalhadores afirmaram ter sido explicitamente solicitados a trabalhar durante as férias, mas 35% sentiram uma expectativa implícita de o fazer, e 57% disseram sentir-se ansiosos se não verificassem o email enquanto estavam ausentes. A falta de substituição agrava a situação: 37% dos inquiridos afirmaram simplesmente não ter ninguém a quem delegar o trabalho durante a sua ausência.
É aqui que os líderes podem e devem fazer a diferença, aprofundando o conhecimento do estado em que se encontram as suas pessoas, de que forma as suas equipas se organizam não apenas no sentido do trabalho, mas também no espaço para o descanso. Garantir que as empresas estão estruturadas e organizadas para que haja redundâncias quando necessário e uma correta delegação de tarefas e responsabilidades, torna-se imperativo, mas o que acontece, muitas vezes, é precisamente o contrário: cortar custos significa cortar contratações, ou mesmo reduzir equipas dispensando pessoas, o que provoca sobrecarga nos que ficam. Este é, para mim, o grande paradoxo: até porque menos pessoas pode resultar em perdas de resultados, por quebra de produtividade. Temos de pensar ao contrário — se eu tiver um número adequado de pessoas numa equipa, não só tenho mais gente a produzir, como tenho as pessoas a produzir melhor.
O que parece realmente ajudar
Nunca como agora se tornou tão necessário determo-nos mais profundamente nas necessidades reais de cada organização. Não se trata de defender uma contratação desmesurada, que leva a custos supérfluos, trata-se de responder de forma bem alicerçada e devidamente pensada às necessidades reais de trabalho: formar as pessoas para a delegação, a partilha de conhecimento, o trabalho em equipa e a coordenação de tarefas, de modo a encontrar o modelo ideal: o equilíbrio entre o número de pessoas e o trabalho a desenvolver, sempre com o propósito maior de cuidar de quem cuida das nossas empresas, ou seja, as pessoas que nelas trabalham.
Do lado de cada profissional, o fio condutor é a intenção. O desligar do trabalho, e de todas as outras solicitações que nos sobrecarregam a atividade cerebral, ao contrário do bronzeado, não acontece só porque estamos noutro lugar. Tem de ser construído: o telemóvel deixado na gaveta, as notificações do email realmente desativadas, um colega informado para tratar do que surgir na nossa ausência, a atenção plena quando estou em convívio. E, mesmo assim, vários estudos sugerem que este efeito se esbate depressa, a menos que seja praticado de novo no fim de semana seguinte, e não apenas em tempo de férias.
Por agora, os números descrevem uma geração de viajantes que se tornou muito boa a reservar a viagem — e não tão boa a desfrutar realmente dela.
Sobre a ACEGE
A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.
Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.
Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro