Longevidade: ter futuro é cada vez mais um privilégio?

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Pela primeira vez na História, milhões de pessoas poderão viver até aos 90 ou 100 anos. Mas, à medida que a esperança de vida aumenta, emerge uma nova forma de desigualdade: a diferença entre quem poderá transformar esses anos em saúde, autonomia e liberdade e quem viverá esse tempo marcado pela doença, pela precariedade ou pela dependência. Talvez um dos grandes desafios do século XXI já não seja apenas viver mais, mas garantir que o futuro não se torne um privilégio de poucos

POR HELENA OLIVEIRA

O que durante séculos foi uma excepção está a tornar-se uma possibilidade real. No entanto, à medida que a longevidade aumenta, emerge uma pergunta ainda pouco colocada: quem terá condições para transformar esses anos adicionais numa vida plena?

Um novo relatório do World Economic Forum sugere que a combinação entre saúde e segurança financeira poderá tornar-se um dos principais factores de prosperidade das próximas décadas. Mas também lança um alerta: à medida que a esperança de vida aumenta, as desigualdades de rendimento, saúde, educação e estabilidade podem deixar de influenciar apenas alguns anos da vida das pessoas, passando a moldar décadas inteiras de um futuro incerto e precário.

A revolução silenciosa da longevidade

Durante praticamente toda a História da humanidade, viver até aos 80 anos era uma excepção, chegar aos 90 era raro e alcançar os 100 parecia quase um milagre. Hoje, porém, a longevidade está a tornar-se uma realidade cada vez mais comum. Graças aos avanços da medicina, à melhoria das condições de vida, à redução da mortalidade infantil e ao maior acesso aos cuidados de saúde, as pessoas vivem mais tempo do que em qualquer outro momento da História.

Segundo as Nações Unidas, a esperança média de vida global ultrapassa actualmente os 73 anos, quando, em 1950, rondava apenas os 46. Na Europa, e particularmente em países como Portugal, este progresso foi ainda mais expressivo. Em poucas gerações, ganhou-se mais de uma década de vida. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas com mais de 80 anos e multiplica-se o grupo dos centenários, um dos segmentos demográficos que mais rapidamente está a aumentar nos países desenvolvidos.

Esta transformação é tão profunda que alguns especialistas a descrevem como uma verdadeira revolução da longevidade. Mas, e ao contrário de outras grandes mudanças sociais ou tecnológicas, esta revolução é silenciosa. Não ocupa habitualmente as manchetes, nem provoca rupturas imediatas. Mas está a alterar, de forma gradual, a estrutura das sociedades, os mercados de trabalho, os sistemas de saúde, as famílias e a própria forma como pensamos as diferentes etapas da vida.

Durante séculos, a principal preocupação das sociedades foi aumentar a esperança de vida. Hoje, pela primeira vez, o desafio começa a ser outro. Já não basta viver mais anos; importa compreender o que fazer com eles. Como organizar carreiras que poderão prolongar-se por um período de tempo considerável? Como financiar vidas mais longas? Como garantir autonomia e qualidade de vida numa população cada vez mais envelhecida? E, talvez mais importante, como assegurar que os benefícios da longevidade sejam partilhados por todos?

Estas perguntas ganham particular relevância num momento em que a longevidade está a deixar de ser considerada apenas como uma questão demográfica ou de saúde pública. Cada vez mais investigadores, economistas e organizações internacionais encaram-na também como um factor económico e social determinante para o século XXI. Não apenas porque viver mais implica novos desafios, mas porque pode representar uma oportunidade sem precedentes para criar valor, acumular conhecimento, prolongar a participação social e reforçar o bem-estar.

A questão é saber quem poderá realmente beneficiar destas oportunidades. Porque, embora estejamos a ganhar anos de vida, nem todos terão as mesmas condições para transformar esse tempo adicional numa existência mais saudável, autónoma e plena. E é a partir desta realidade que começa um dos grandes debates das próximas décadas.

Da quantidade à qualidade

É indubitável que os anos adicionais que conquistámos não são iguais para todos. Viver mais não significa necessariamente viver melhor. Entre uma pessoa que chega aos 90 anos com autonomia, relações sociais, capacidade de decisão e boa saúde, e outra que passa os últimos anos da vida marcados pela doença, dependência ou isolamento, existe uma diferença que a esperança de vida, por si só, não consegue traduzir.

É por isso que o debate sobre a longevidade começa a deslocar-se da quantidade para a qualidade. Já não basta acrescentar anos à vida, mas importa, sim, acrescentar vida aos anos.

Esta mudança obriga também a repensar o envelhecimento. A reforma já não marca, necessariamente, o fim da vida activa. Milhões de pessoas continuam profissionalmente activas, aprendem, cuidam de familiares, participam na vida cívica e contribuem para as suas comunidades. Para muitos, as décadas que se seguem à reforma representam uma etapa de reinvenção.

Viver mais tempo levanta, no entanto, novos desafios. Como financiar vidas que podem durar quase um século? Como adaptar carreiras mais longas? Como garantir acesso à saúde, habitação e aprendizagem ao longo da vida? E como evitar que o aumento da esperança de vida se traduza em mais anos de fragilidade, solidão ou exclusão?

É desta mudança de perspectiva que nasce um conceito cada vez mais presente entre economistas, empresas e organizações internacionais: a longevidade pode representar não apenas um desafio, mas também uma oportunidade, um verdadeiro dividendo para as pessoas e para as sociedades.

O dividendo da longevidade

Para além das boas notícias, a longevidade continua frequentemente associada a um problema: mais despesa com saúde, maior pressão sobre os sistemas de pensões ou escassez de trabalhadores. Embora estes desafios sejam reais, contam apenas uma parte da história.

O relatório The Longevity Dividend: The Business Case for Linking Health and Wealth, publicado este mês pelo World Economic Forum em parceria com a Mercer e a Marsh McLennan, parte de uma ideia simples: saúde e prosperidade reforçam-se mutuamente ao longo da vida.

Segundo os autores, a prosperidade das próximas décadas dependerá da combinação entre mais anos vividos com saúde (healthspan) e a capacidade de manter segurança financeira ao longo da vida (wealthspan). Investir simultaneamente nestas duas dimensões gera valor para as empresas, reforça a produtividade e reduz a pressão sobre os sistemas de saúde e de protecção social. O relatório estima que intervenções preventivas poderão traduzir-se, até 2040, em biliões de dólares de poupanças nos sistemas de saúde e em centenas de milhares de milhões de dólares de ganhos de produtividade.

Mais importante do que os números é, porém, a mudança de perspectiva. A longevidade deixa de ser vista apenas como um fenómeno passivo para passar a ser entendida como um activo. Pessoas saudáveis permanecem activas durante mais anos, acumulam experiência, apoiam as suas comunidades e continuam a criar valor muito para além da idade tradicional da reforma.

Esta visão ganha particular relevância num contexto em que as carreiras se prolongam, a aprendizagem contínua se torna indispensável e as fronteiras entre trabalho, reforma e participação social se tornam cada vez mais difusas. Numa sociedade da longevidade, os 60 ou 70 anos já não representam necessariamente um ponto de chegada, mas apenas mais uma etapa de um percurso muito mais longo.

Mas esta visão optimista contém também uma interrogação inevitável. Se a longevidade pode gerar um dividendo, quem terá condições para o receber? A possibilidade de viver mais anos é uma conquista colectiva. Já a capacidade de transformar esse tempo em saúde, autonomia, segurança financeira e liberdade de escolha continua longe de estar igualmente distribuída. É aqui que a discussão sobre a longevidade começa a cruzar-se com uma questão mais antiga e persistente: a desigualdade.

A longevidade também é desigual

Se viver mais tempo é uma conquista colectiva, beneficiar plenamente dessa conquista continua a depender, em grande medida, das circunstâncias de cada pessoa.

A Organização Mundial da Saúde tem chamado a atenção para a importância dos chamados determinantes sociais da saúde: as condições em que as pessoas nascem, crescem, trabalham e envelhecem. São elas que ajudam a explicar porque razão indivíduos da mesma idade podem apresentar níveis tão diferentes de saúde, autonomia e bem-estar. Mais do que uma consequência da genética ou dos avanços da medicina, a longevidade é também o resultado das oportunidades acumuladas ao longo da vida.

Esta realidade torna-se particularmente evidente quando se observa a esperança de vida saudável. Em muitos países desenvolvidos existe um intervalo significativo entre os anos vividos e os anos vividos com autonomia e qualidade de vida. Não basta chegar aos 90 anos; importa perceber em que condições se chega lá.

A verdadeira fractura das próximas décadas poderá não passar apenas por quem tem mais ou menos rendimento, mas por quem pode olhar para o futuro como um espaço de possibilidades e quem permanece preso às urgências do presente. É essa diferença que determinará quem poderá transformar a longevidade numa oportunidade e quem continuará apenas a sobreviver ao tempo que ganhou.

O privilégio de conseguir planear o futuro

Durante muito tempo, a desigualdade foi medida através de indicadores relativamente tangíveis: rendimento, património, acesso à educação ou condições de habitação. Todos continuam a ser importantes. Mas, numa sociedade onde a esperança de vida aumenta e as carreiras se prolongam, ganha importância uma dimensão menos visível da desigualdade: a capacidade de planear o futuro.

Na realidade, esta capacidade depende muitas vezes de factores que escapam ao controlo de cada pessoa. Quem vive sob pressão financeira permanente, enfrenta problemas de saúde recorrentes ou trabalha em condições precárias tende a concentrar-se nas necessidades imediatas. A gestão do presente absorve a energia necessária para pensar a longo prazo.

Diversos estudos em economia comportamental têm mostrado que a escassez – seja de dinheiro, tempo ou segurança – reduz a capacidade de planear, poupar e tomar decisões de longo prazo. Quando a preocupação principal é chegar ao final do mês, torna-se mais difícil investir na formação, adoptar hábitos preventivos de saúde ou preparar uma reforma que pode estar ainda a décadas de distância.

Também as organizações começam a reconhecer que o aumento da longevidade exige uma nova forma de pensar as carreiras e o desenvolvimento das pessoas. Relatórios recentes da PwC e de outras consultoras internacionais apontam a aprendizagem contínua, a requalificação profissional e a adaptação a carreiras mais longas como factores decisivos num mercado de trabalho em rápida transformação. Numa economia onde será possível trabalhar, aprender e reinventar-se durante mais tempo, a capacidade de olhar para o futuro torna-se um activo cada vez mais valioso.

Mas essa capacidade continua distribuída de forma desigual. Algumas pessoas dispõem da estabilidade, das redes de apoio e do acesso a cuidados de saúde que lhes permitem pensar a dez ou vinte anos. Outras permanecem presas a um horizonte muito mais curto, condicionado pela incerteza.

Talvez seja aqui que a longevidade se cruza com uma das questões mais profundas do nosso tempo. Não apenas quem viverá mais anos, mas quem terá condições para imaginar, preparar e escolher o futuro que esses anos tornam possível. Porque, numa sociedade onde o tempo de vida aumenta, o verdadeiro privilégio poderá já não ser viver mais, mas quem poderá ter futuro.

Futuros diferentes

À medida que a esperança de vida aumenta, muda também a forma como olhamos para a desigualdade. As vantagens e desvantagens acumuladas ao longo da vida deixam de influenciar apenas alguns anos da existência. Podem passar a moldar décadas inteiras de futuro.

Talvez seja esta a mudança mais profunda trazida pela revolução da longevidade. Durante muito tempo, a desigualdade mediu-se sobretudo pelo rendimento, pelo património ou pelo acesso à educação. Continuarão a ser factores decisivos. Mas, numa sociedade onde a vida se prolonga, ganha uma nova dimensão: a capacidade de transformar o tempo conquistado numa oportunidade.

O verdadeiro progresso não se medirá apenas pelo aumento da esperança de vida. Medir-se-á pela capacidade de garantir que esses anos representam mais saúde, mais autonomia, mais liberdade e mais possibilidades para o maior número possível de pessoas.

Porque o grande desafio do século XXI talvez já não seja apenas viver mais. Será garantir que ter futuro não se torne um privilégio de poucos.

Sobre a ACEGE

A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.

Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.

Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro

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