25.ª Jornada Mundial do Doente

“Admiração pelo que Deus faz: «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1,49)” é o tema da mensagem do Papa Francisco para a Jornada Mundial do Doente de 2017, celebrada pela Igreja a 11 de Fevereiro. Com o resumo dessa mensagem, apresentamos um comentário em entrevista ao padre Pedro Viva, diretor do Serviço de Pastoral da Saúde da Diocese de Leiria-Fátima, e um testemunho na primeira pessoa, pelo padre João Aguiar, que procura descobrir as maravilhas de Deus em cada dia de luta contra um cancro.

 

Mesmo na doença, Deus faz “maravilhas”

A Jornada Mundial do Doente foi instituída pelo Papa SãoJoão Paulo IIem 1992, na memória de Nossa Senhora de Lourdes, 11 de fevereiro. Neste 25.º aniversário dessa instituição, o Papa Francisco publicou uma mensagem intitulada “Admiração pelo que Deus faz: «o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas» (Lc 1,49)”, referindo que esta é uma “ocasião para se prestar especial atenção à condição dos doentes e, mais em geral, a todos os atribulados; ao mesmo tempo convida quem se prodigaliza em seu favor, a começar pelos familiares, profissionais de saúde e voluntários, a dar graças pela vocação recebida do Senhor para acompanhar os irmãos doentes”. E é, também, uma oportunidade para a Igreja renovar “o vigor espiritual para desempenhar sempre da melhor forma a parte fundamental da sua missão que engloba o serviço aos últimos, aos enfermos, aos atribulados, aos excluídos e aos marginalizados”.

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Por estes dias, em Lourdes, muitos serão os momentos de oração, as celebrações, as ajudas aos doentes e a reflexão teológica e pastoral sobre a bioética e a saúde, a que o Papa se une espiritualmente nesta mensagem. Lembrando as pessoas que vivem “a experiência do sofrimento”, as suas famílias e todos os profissionais das instituições que “com competência, responsabilidade e dedicação se ocupam das melhoras, cuidados e bem-estar”, Francisco a todos encoraja para que vejam Maria “como a garante da ternura de Deus por todo o ser humano e o modelo de abandono à vontade divina” e encontrem “na fé, alimentada pela Palavra e os sacramentos, a força para amar a Deus e aos irmãos mesmo na experiência da doença”.

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Dignidade inalienável

O exemplo da vidente de Lourdes, Santa Bernadete, mostra uma jovem “pobre, analfabeta e doente” a quem Nossa Senhora olha como pessoa, “com grande respeito, sem Se pôr a lastimar a sorte dela”. Também hoje, “cada doente é e permanece sempre um ser humano” com “dignidade inalienável e a sua missão própria na vida”, pelo que “deve ser tratado como tal”. Assim, os doentes não podem tornar-se “jamais meros objetos, ainda que às vezes pareçam de todo passivos”, defende o Papa.

Será pela oração que Bernardete “transforma a sua fragilidade em apoio para os outros” e pelo amor que “oferece a sua vida pela salvação da humanidade”, tornando-se a Irmã da Caridade “que todo o profissional de saúde pode tomar como referência”. O pedido mariano de oração pelos doentes e pecadores significa que “não abrigam em si mesmos apenas o desejo de curar, mas também o de viver cristãmente a sua existência, chegando a doá-la como autênticos discípulos missionários de Cristo”, refere a mensagem. Agindo nessa perspetiva, a Igreja deve assumir o “compromisso diário a favor dos necessitados e dos doentes”, cujos frutos “são motivo de agradecimento ao Senhor Jesus, que Se fez solidário connosco, obedecendo à vontade do Pai até à morte na cruz”. Reside aí a maravilha da “omnipotência misericordiosa de Deus que se manifesta na nossa vida – sobretudo quando é frágil, está ferida, humilhada, marginalizada, atribulada –, infundindo nela a força da esperança que nos faz levantar e sustenta”.

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Cultura de vida

Esta jornada deverá também dar “novo impulso a fim de contribuir para a difusão duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente; encontrar um renovado impulso a fim de lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela dos mais fracos e o cuidado pelo meio ambiente”.

Mais uma vez, o Papa refere a sua “proximidade feita de oração e encorajamento aos médicos, enfermeiros, voluntários e a todos os homens e mulheres consagrados comprometidos no serviço dos doentes e necessitados”, bem como “às instituições eclesiais e civis que trabalham nesta área” e ainda “às famílias que cuidam amorosamente dos seus membros doentes”. A todos deseja “que possam ser sempre sinais jubilosos da presença e do amor de Deus, imitando o testemunho luminoso de tantos amigos e amigas de Deus”, como foi o caso de “São João de Deus e São Camilo de Lélis, padroeiros dos hospitais e dos profissionais de saúde, e Santa Teresa de Calcutá, missionária da ternura de Deus”.

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Ó Maria, nossa Mãe,
que, em Cristo, acolheis a cada um de nós como filho,
sustentai a expectativa confiante do nosso coração,
socorrei-nos nas nossas enfermidades e tribulações,
guiai-nos para Cristo, vosso filho e nosso irmão,
e ajudai a confiarmo-nos ao Pai que faz maravilhas.

E termina com a oração a Maria (ver à direita), “para que a sua materna intercessão sustente e acompanhe a nossa fé e nos obtenha de Cristo seu Filho a esperança no caminho da cura e da saúde, o sentido da fraternidade e da responsabilidade, o compromisso pelo desenvolvimento humano integral e a alegria da gratidão sempre que Ele nos maravilha com a sua fidelidade e a sua misericórdia”.

Luís Miguel Ferraz

 

Entrevista ao padre Pedro Viva

A presença, um carinho, um aperto de mão,
o saber escutar podem ser suficientes

2017-02-08 doente3O padre Pedro Viva fez formação teológica específica na área da pastoral da saúde. Em Leiria-Fátima, entre outras funções, é atualmente diretor deste serviço diocesano, assistente do Centro Voluntários do Sofrimento e da Associação Católica de Enfermeiros e Profissionais de Saúde, bem como capelão no Hospital de Santo André.

Pedimos-lhe um breve testemunho da sua experiência, partindo da mensagem do Papa Francisco para esta Jornada Mundial do Doente de 2017.

Entrevista de Luís Miguel Ferraz

 

O Papa escolheu para título da sua mensagem a citação “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas”. É possível dizer esta frase a alguém que está em sofrimento?

O Papa escolheu um tema claramente mariano. Recordando as palavras de S. Paulo: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza… pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 9-10), evoca uma profunda experiência espiritual capaz de relativizar a dor e abrir novos horizontes. A doença pode ser vivida de variados modos. Dizer isto a alguém pode fazer sentido. A outra pessoa pode soar a ofensivo. Deve-se discernir e fazer caminho.

Na sua experiência na assistência hospitalar, que tipo de conversa sente “fazer mais sentido” para ajudar nesse caminho?

Sei que há discursos que não devo ter. Discursos moralistas, paternalistas, lugares-comuns, palavras feitas que saem sem serem refletidas não ajudam. Cada pessoa é única e deve ser respeitada na sua singularidade. Não há genéricos que funcionem aqui. Por vezes o melhor é mesmo não dizer nada. A presença, um carinho, um aperto de mão, o saber escutar podem ser suficientes para a pessoa encontrar a paz e a esperança que precisa.

Pode contar-nos um episódio concreto?

Devemos respeitar a privacidade das pessoas. Mas lembro-me de um caso de um jovem que me marcou. Gravemente doente, visitei-o várias vezes. Deus não era o tema principal das nossas conversas. Mas a última vez que nos encontrámos, quando já me afastava, ele chamou-me e pediu-me para lhe dar a Sagrada Comunhão. Sei que morreu três dias depois. Deus foi trabalhando no coração daquele jovem. Aquilo que pode ser banal para nós, pode ser vital para o outro.

O Papa fala na “solicitude da Igreja pelo mundo dos atribulados e doentes”. Na Diocese de Leiria-Fátima, de que forma procura concretizar-se essa solicitude?

Do ponto de vista institucional, a caridade organizada pelas estruturas paroquiais através dos seus Centros Sociais, os movimentos apostólicos como as Conferências de S. Vicente de Paulo ou grupos Cáritas são uma resposta concreta. Os retiros organizados para os doentes, em Fátima, são a expressão bela da sensibilidade da Igreja àqueles que sofrem. Mas depois há a ação individual de cada um, como cristão. Não é despiciente referir a preocupação da diocese em estar presente junto de quem sofre, seja no hospital ou nos estabelecimentos prisionais da nossa cidade.

Como responsável deste serviço, tem algum projeto ou ideal a concretizar para uma presença mais próxima da Igreja junto dos doentes e de quem deles cuida?

No meu entender, o papel de um serviço de pastoral, seja na área da saúde ou noutra, terá como principal missão a formação de pessoas com uma sensibilidade própria para essa dimensão, porque é impossível e não é desejável substituir as pessoas que estão mais próximas da realidade. No ano pastoral que passou, o Serviço de Pastoral da Saúde, na Escola Razões da Esperança, levou a efeito uma formação: “Fé e relação de ajuda”. Os ecos foram positivos. Pensaremos noutras ações de formação.

O Papa fala também na “difusão duma cultura respeitadora da vida” e numa “abordagem correta das questões bioéticas”. Como acompanha o debate sobre esses temas, nomeadamente, o que está a surgir agora em torno da eutanásia?

Acompanho com preocupação. Em âmbito académico, tive oportunidade de refletir estas questões e a conclusão a que chego é esta: enquanto não nos entendermos sobre o que significa dignidade, sofrimento insuportável e ética individual / ética social, cairemos num subjetivismo extremo.

Já escolheu a principal mensagem que vai transmitir na sua homilia do Dia do Doente no Hospital de Leiria?

Num hospital, 365 dias por ano é dia do doente. A mensagem será a de sempre: acompanhar quem sofre e levar-lhe uma palavra de esperança. Se não é possível curar, é sempre possível cuidar.

 

 

2017-02-08 doente4Testemunho

Não tenho nada a dizer

1.O título destas linhas exprime o pensamento que de imediato me assaltou quando me pediram para falar da dor e do sofrimento.

Não ter nada a dizer significa a convicção de que a dor, embora atingindo nalgum momento tudo e todos, é a dor de cada um e cada um a sente única e pessoal. Não é, por isso, acontecimento que possa ser abordado por mera e exterior observação. Apesar de isso ser muito tentador: todos nos julgamos capazes de dizer algo decisivo aos que sofrem… Sei que assim é: quase diariamente me dão conselhos que me soam a palpites; me receitam entusiasmos ou me acenam com dias de sol a pino, fáceis e quase gratuitos.

2.Sabendo que as dores e o sofrimento são algo pessoal, impeço-me de teorias que não sejam uma confissão, uma revelação da minha própria experiência.

3.Deixem, pois, que conte:

Quase dois meses depois de uma segunda intervenção cirúrgica no espaço de um ano, um telefonema convocou-me para um encontro no hospital. Foi nesse encontro que soube que tinha um cancro agressivo e com metásteses. Um papel sobre a mesa informou-me e preveniu-me das reações que «normalmente» eu sentiria. O elenco incluía, por exemplo, as hipóteses de negação, inversão, revolta, culpa e aceitação… Sorri e, sorrindo, pedi ao médico que me dissesse tudo.

A conversa foi longa, com muitos cenários explicados. Ouvi silenciosamente, até ao momento em que o médico se calou e quis saber a minha opinião. Dei então por mim a fazer uma pergunta que pensava ser fundamental: «Oh doutor, pode falar-me de esperança de vida?».

O médico olhou-me em silêncio e, antes que ele dissesse qualquer coisa, falei de novo: «Desculpe. A minha pergunta faz pouco sentido. Afinal, é a mim que cabe deixar de pensar na esperança de vida e decidir encher a vida de esperança».

Esta conversa teve lugar perto do Dia Mundial do Doente 2016, com uma mensagem centrada no milagre das bodas de Caná – o que me ajudou a decidir: «Vou encher as minhas talhas de água com minutos e horas de esperança. Mudar a água em vinho é decisão divina, que beberei com gosto, mas não reivindico…»

Não podia ser de outra maneira, depois de dias antes ter resolvido pedir o sacramento da Santa Unção. Ou seja: nesse dia decidira poisar a angústia e estar inteiro em cada circunstância.

Querer saber a verdade e olhá-la nos olhos; aceitar a minha situação sem negação ou cólera; aprofundar a minha proximidade com os outros e com Deus (a quem não faço perguntas, na certeza certa de que não se desinteressa de mim) é o caminho que tenho percorrido.

Recuso ser vítima e tento não tornar os outros vítimas da minha própria situação – de modo que as vivências e relações sofram o menos possível.

Não tenho respostas para todas as perguntas que me faço ou me fazem.  Além disso, é verdade que vou acumulando perdas; mas também vou recebendo a graça de coisas novas e de novas aprendizagens. Por exemplo, poder sair menos potencia a escrita, a leitura e a meditação; e deste modo aprendo a viajar nos pés e olhos de outros. Limitado na capacidade de condução noturna, procuro as emissões online de conferências e concertos. Obrigado a fugir do sol intenso, madrugo para as horas de passeio e, assim, testemunho a beleza matinal das horas.  Sim, agarro-me ao que tenho, não me afogo na perda do que tive.

Claro que nada é ou será como dantes – sendo que muitas coisas até melhoraram: tornaram-se irrelevantes algumas lutas e ganhei um olhar novo.

Sinto, pois, que se abrem janelas nos muros – de modo que estes sejam, afinal, paredes de uma nova casa. Desta “casa” que habito, mas onde não me fecho.

P. João Aguiar Campos

 

 

No santuário de Fátima

O Santuário de Fátima terá um programa especialmente dedicado aos doentes, no dia 11 de fevereiro:
14h00 – Terço na Capelinha
15h00 – Meditação, na Basílica da Santíssima Trindade
16h30 – Missa com a Unção dos Doentes, presidida por D. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima.

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