Testemunho da Irmã Marina Sofia, da Ordem de Santa Clara

Nesta edição, pedimos à irmã Marina que contasse a sua história de vida na primeira pessoa. No passado dia 7, fez a profissão religiosa perpétua no mosteiro das irmãs clarissas de Monte Real. A vocação, essa despontou em Fátima inesperadamente.

Sinais precoces na infância

Sou natural da paróquia do Milharado (Mafra), patriarcado de Lisboa.

Do amor e casamento dos meus pais Deus fez surgir 4 filhos, dos quais eu fui a primeira. Nasci no dia 22 de agosto de 1986 – dia de Nossa Senhora Rainha do Mundo – e fui baptizada a 1 de Fevereiro de 1987. Dois pormenores que hoje vejo como sinal de Deus: o ter sido baptizada nas vésperas da festa da Apresentação do Senhor e o facto de a pia baptismal se encontrar no fundo da igreja mas o baptismo ter sido junto ao Altar. O sacerdote que me baptizou foi o recentemente ordenado bispo D. João Marcos.

A minha mãe esforçou-se por me transmitir a fé que ela mesma recebera. O meu pai é um homem de trabalho que procurou transmitir-nos a honestidade, a verdade, a ajuda aos outros, não só a mim como aos meus irmãos, a Cristina, o Mário e o Francisco Xavier.

Lembro-me que, quando era pequena, me ia esconder no quarto de minha mãe, onde ela tem um pequeno altar com Nossa Senhora de Fátima, o Coração de Jesus, a Sagrada Família de Nazaré, a bíblia e os documentos do Concílio Vaticano II. Não me recordo o que dizia ou pensava nesses momentos, mas sei que gostava de me demorar lá e acender a vela que a minha mãe tinha junto das imagens.

Fiz a caminhada normal dos 10 anos de catequese, nos quais fui aprendendo a conhecer a Deus e também a Sua Mãe. Gostava muito de repetir sozinha uma música que cantávamos a Nossa Senhora: “Quero ser como tu, como tu Maria, como tu um dia, como tu Maria; quero levar Jesus, como tu Maria…; quero consagrar-me, como tu Maria…; quero dizer meu Sim, como tu Maria…”; embora não tivesse verdadeira consciência do significado destas palavras, nem da força que mais tarde teriam na minha decisão. Fiz a primeira comunhão em 1995 e a profissão de fé em 2000.

Ao mesmo tempo, prosseguia os estudos e sonhava com várias profissões: pintora ou escritora e, mais tarde, no secundário, pensei dedicar-me à informática e à escrita.

A vocação religiosa nunca esteve seriamente no meu horizonte, mas recordo-me que um dia em que fui acompanhar o meu pai numa viagem, quando ele me tentava convencer que não devia ficar tão fechada em casa, mas sair mais vezes, eu lhe respondi que, se fosse para freira, ficaria fechada. Não sei porque lhe disse isso, pois eram vagos os meus conhecimentos da vida religiosa, mas lembro-me de o dizer, embora sem convicção. Mas na realidade eu era um pouco fechada, gostava de sair às vezes com as minhas amigas, mas não à noite nem a bares ou lugares muito movimentados.

Momentos marcantes na preparação e no Crisma

Terminado o percurso de catequese, fiz uma preparação específica para o Sacramento do Crisma, entre 2002 e 2004. Durante estes anos, tive momentos de querer desistir, perdi o interesse pelos encontros formativos e pela participação na Eucaristia. Mas a minha mãe lutava para me não deixar desistir. Foi o seu testemunho de oração, de perseverança na fé, por vê-la muitas vezes a rezar no seu quarto diante do pequeno altar que lá tem, que me ajudou a ultrapassar esta crise de fé. E depois de um fim-de-semana de retiro, recebi o Sacramento do Crisma na vigília de Pentecostes de 2004.

Foi um momento de viragem. Desde então, comecei a tentar compreender o que devia fazer da minha vida, pois já não queria abandonar a prática religiosa, como via tantos jovens fazerem. Durante o ano seguinte fui auxiliar de catequese, experiência muito gratificante por ajudar as crianças a conhecer Jesus e a terem-n’O como seu melhor amigo.

Durante este tempo, iam surgindo interrogações: o queria o Senhor de mim? Que caminho deveria eu seguir? E pedia a Deus que me iluminasse e me mostrasse a sua vontade. O casamento não me sorria muito. Na altura frequentava o 11º ano e trabalhei, em part-time num escritório de documentação.

A perceção da vocação religiosa

Entretanto, no dia 5 de Junho de 2005, eu, meus pais e irmãos juntamente com os pais e irmãos de minha mãe, fomos a Fátima. Era uma viagem que costumávamos fazer quase todos os anos. Sinceramente, estive quase para não ir, mas para não fazer a desfeita aos meus pais, fui. Foi aí que Deus respondeu às minhas interrogações.

Chegámos ao santuário e enquanto esperávamos pela Eucaristia, fomos visitar o Santíssimo Sacramento. Eu nunca lá tinha estado. Havia poucos lugares vazios, por isso fui ajoelhar-me num dos lugares da frente. Os meus pais ficaram ao fundo da capela. Foi nesse momento, quando vi a religiosa que se encontrava em adoração, que pressenti que o Senhor me convidava a segui-l’O da mesma maneira, que me tornasse religiosa. Ninguém se apercebeu de nada, a não ser o meu Pai, que mais tarde confessou que se havia apercebido que alguma coisa tinha acontecido comigo, mas não compreendia o quê. Recordo-me que, durante e Eucaristia, eu me interrogava se teria compreendido bem ou se seria ilusão. No entanto o meu coração permaneceu inquieto o resto do dia.

No dia seguinte, sem ninguém suspeitar, procurei na internet alguma coisa sobre a vida religiosa. Encontrei o sítio das Irmãs Clarissas de Monte Real e escrevi-lhes dizendo que desejava tornar-me religiosa. Elas convidaram-me a vir conhecê-las e, terminadas a aulas, eu vim.

Foi uma semana muito bela. Senti fortemente que era aqui que o Senhor me queria e me esperava. Fiquei marcada pela alegria das irmãs, pela paz que se sente e se respira no mosteiro, e principalmente pela adoração ao Santíssimo Sacramento. Por isso, não demorei muito, ingressei um mês depois, a 18 de Julho de 2005.

Mas a partida não foi fácil. Eu nunca tinha estado longe dos meus pais e da minha família, além disso sabia que seria difícil para eles aceitar a minha decisão, pois era algo de todo inesperado. Ao meu pai custou-lhe muito, no entanto, nunca colocou entraves à minha decisão; pelo contrário, quis vir trazer-me juntamente com a minha família. Antes de virmos, levou-nos à Ericeira pois sabia que eu gostava muito da praia e de contemplar o oceano. Intuitivamente, eu comparava a imensidade do oceano com a imensidade do amor de Deus por todos os seus filhos. Foi um belo e inesquecível presente do meu pai.

O percurso da formação

Depois de entrar, a Comunidade enviou-me a terminar os estudos do 12º ano na escola pública. Aceitei ir, mas com o uniforme de postulante, e não tive nenhum problema, fui bem recebida entre os colegas e professores. A formação prosseguiu e tomei o hábito da Ordem de Santa Clara, em 2006.

No segundo ano de noviciado, Deus concedeu-me uma graça que eu muito havia desejado. A 4 de Fevereiro de 2008, nasceu o meu irmão mais novo, o Francisco Xavier, nome escolhido por mim e pela minha irmã. Foi grande alegria para a minha família e um carinhoso presente de Deus para os meus pais, por terem aceitado dar-me ao Senhor.

Em 2009, na festa de Santa Clara, fiz a Profissão temporária, consciente que me entregava ao Senhor, mas não só por três anos. E a formação específica em ordem à profissão definitiva prosseguiu. Durante este tempo veio a provação: uma forte tentação de largar o arado e voltar atrás, a dúvida de se seria realmente este o meu caminho, a falsa certeza de que eu não tinha capacidades para corresponder às exigências da vida religiosa, a falsa ilusão de que talvez fosse mais feliz no casamento. Foi um tempo difícil, em que não me queria convencer de que era uma tentação, não queria ouvir a voz da razão. Cheguei mesmo a pedir para sair; marcou-se o dia e só faltava comunicar à minha família. Mas, na véspera de isto acontecer, o Senhor voltou a inquietar o meu coração e segurou-me em Suas mãos, não me deixando partir. Foi o retomar de uma caminhada. No entanto, a graça de Deus ia agindo silenciosamente em mim e me ajudava a deixar-me moldar pela vontade do oleiro. Ao longo da caminhada, por entre colinas escarpadas e vales tenebrosos, o Senhor ia-me mostrando também planícies verdejantes e esplendorosas: o testemunho de fidelidade e de perseverança de minhas Irmãs.

Assim foi possível redescobrir a beleza da vocação que me foi concedida e reaprender a vivê-la e a dar-me a Deus e aos outros. Percorrendo este caminho com o Senhor e a minha Comunidade, cheguei a mais uma etapa da vida: a Profissão Solene. Não é o fim, mas o início de uma caminhada de contínua vivência do Evangelho, de busca do rosto do Senhor em todos os momentos da minha vida, não sem dificuldades, mas com a certeza da Sua presença.

O Seu amor todos os dias me prova que ainda hoje é possível ser-se feliz vivendo desprendida das coisas do mundo, vivendo com Deus e para Deus, levando -O aos Homens e os Homens a Ele, através da oração, do silêncio, do sacrifício, de uma doação de amor a Deus e aos irmãos. 

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