Ter um emprego seguro e uma carreira construída não impede ninguém de desejar um novo desafio. Pode haver uma função que se gostaria de experimentar, uma área por conhecer ou a vontade de trabalhar noutro contexto. Mas quem quer mudar depois dos 50 pode encontrar obstáculos, desde a dificuldade em reconhecer as oportunidades disponíveis aos preconceitos de quem contrata. Assim, que espaço existe para dar outro rumo à vida profissional?
POR HELENA OLIVEIRA
O ESSENCIAL
- Querer mudar de trabalho depois dos 50 é legítimo, mesmo quando se gosta da profissão e se tem um percurso bem-sucedido.
- A experiência pode abrir novos caminhos, mas mudar de função ou de sector pode exigir formação e acompanhamento.
- Os preconceitos sobre a idade podem limitar oportunidades, antecipando dificuldades de adaptação ou aprendizagem sem avaliar o candidato.
- As empresas precisam de considerar o futuro dos candidatos mais velhos, conhecendo as suas aspirações e o que ainda podem aprender e fazer.
Há perguntas que podem surgir depois de muitos anos de trabalho. E se experimentasse outra função? E se procurasse uma empresa diferente? E se desse espaço a um interesse que fui deixando para mais tarde? Chegar aos 50 com uma carreira construída não significa ter deixado de ambicionar algo diferente para os anos de trabalho que ainda se tem pela frente.
Por vezes, há um cansaço que pede mudança ou um emprego onde já não se encontram perspectivas. Mas também se pode gostar da profissão e sentir vontade de a exercer de outra maneira. Ou descobrir um interesse novo e querer perceber se é possível transformá-lo em trabalho. Ou seja, são desejos legítimos que não deixam de fazer sentido apenas porque se alcançou uma determinada idade.
Dar-lhes resposta pode, contudo, ser difícil. Depois de anos numa organização, nem sempre é fácil perceber que oportunidades existem fora dela ou como apresentar a experiência adquirida a um potencial recrutador. E há uma dúvida que geralmente acompanha essa procura: estará uma (outra) empresa disposta a dar-me uma oportunidade nesta fase da minha vida?
Com carreiras cada vez mais longas, a pergunta merece atenção. Que oportunidades e desafios encontra quem quer mudar de trabalho depois dos 50? E que abertura encontra essa vontade de mudança num mercado que nem sempre reconhece aos mais experientes a possibilidade de fazer algo diferente?
O que ainda quero fazer com a minha vida profissional?
A vontade de mudar pode trazer dúvidas. Vale a pena deixar um lugar conhecido, onde se conquistou confiança e se sabe o que esperam de nós? Como explicar que se quer outra coisa, mesmo quando tudo parece correr bem?
Em From Strength to Strength: Finding Success, Happiness, and Deep Purpose in the Second Half of Life, publicado em 2022, Arthur C. Brooks, cientista social e professor em Harvard, reflecte sobre a ligação entre identidade e sucesso profissional. Quando uma pessoa passou muitos anos a ser reconhecida pelo que faz, pode ser difícil imaginar-se fora desse lugar. Deixar uma função pode significar também abdicar de uma posição conquistada e pôr em causa uma identidade construída ao longo de muitos anos de trabalho.
Brooks propõe olhar para uma “segunda curva”: uma etapa em que os conhecimentos acumulados podem ganhar outras utilizações. A experiência pode ajudar a relacionar ideias, compreender problemas e encontrar respostas num contexto diferente. Esta perspectiva permite pensar na mudança como uma oportunidade de dar outro uso ao que se aprendeu, mesmo quando é preciso adquirir novas competências. O percurso feito até aí pode, assim, servir de base a um trabalho que volte a despertar interesse.
Mudar pode também significar voltar a fazer perguntas, trabalhar com pessoas que ainda não conhecem o nosso valor ou experimentar uma função sem saber ao certo como vai correr. Mas mesmo quando há entusiasmo pelo que está para vir, pode ser difícil deixar um lugar onde se conhece o trabalho e se conquistou a confiança dos outros.
No relatório «Promoting Better Career Choices for Longer Working Lives», publicado em 2024, a OCDE observa que as discussões sobre mobilidade e progressão profissional continuam muito concentradas nos trabalhadores mais novos. Mas a análise identifica igualmente benefícios possíveis nas mudanças voluntárias em fases mais avançadas da carreira, incluindo maior satisfação profissional e melhores condições de trabalho, sublinhando também a importância de encontrar funções mais adequadas às necessidades e aos interesses de cada pessoa ao longo da vida.
Explorar essas possibilidades pode ajudar a perceber o que se quer dos próximos anos de trabalho. Conhecer outras funções, perceber onde a experiência adquirida pode ser útil ou identificar o que seria necessário aprender dá maior fundamento à decisão. Pode descobrir-se uma oportunidade dentro da própria empresa, começar a preparar uma saída ou concluir que se prefere ficar. O importante é poder escolher com algum conhecimento das alternativas.
Por seu turno, as organizações também têm razões para procurar saber o que os seus trabalhadores mais experientes desejam fazer a seguir. Alguém que desempenha bem uma função pode querer assumir outra responsabilidade ou explorar uma área diferente. Conhecer essas aspirações permite pensar em oportunidades que de outro modo não seriam consideradas, em vez de tomar a competência e os anos de permanência como sinais de que a pessoa quer continuar onde está.
Será que alguém me vai dar uma oportunidade?
Quem procura emprego depois dos 50 pode recear – e com razão – que a idade pese mais do que a experiência e as competências adquiridas. Mesmo tendo razões claras para querer mudar e um percurso para apresentar, não sabe como será visto por quem recruta.
O Employment Outlook 2025, publicado pela OCDE, identifica a discriminação etária como uma barreira à contratação e reúne investigação que comprova que os candidatos mais velhos recebem respostas menos frequentes do que os candidatos mais novos. Entre as percepções que podem prejudicá-los estão dúvidas sobre adaptação, competências tecnológicas e disponibilidade para aprender.
Uma candidatura recusada não permite, por si só, saber se houve discriminação. Pode haver concorrentes mais preparados ou experiência pouco adequada à função. O problema surge quando se considera que alguém terá dificuldade em adaptar-se ou pouca vontade de aprender apenas por causa da idade, sem procurar conhecer o seu percurso e as suas capacidades. Nesse caso, o preconceito ocupa o lugar da avaliação que deveria orientar a decisão.
A ideia de que os trabalhadores mais velhos têm menos vontade de aprender pode também pesar na contratação. Uma revisão publicada em 2023 na Human Resource Development Review questiona, porém, a forma como essa disposição tem sido avaliada. Ao privilegiarem a formação organizada, alguns estudos deixam menos visível a aprendizagem que acontece no próprio trabalho: quando se procura uma solução para um problema desconhecido, se experimenta um método diferente ou se aprofunda um conhecimento com a ajuda de colegas. Estas experiências também revelam interesse em aprender. Para quem recruta, conhecer como uma pessoa tem actualizado os seus conhecimentos pode ser mais esclarecedor do que presumir essa vontade a partir da idade.
Os dados da OCDE mostram também que começar um novo emprego é menos frequente entre os trabalhadores mais velhos. Em 2022, 9,5% dos trabalhadores por conta de outrem dos 55 aos 64 anos estavam com o actual empregador há menos de um ano, comparativamente a 15% entre os 35 e os 44. Os dados não mostram, contudo, se os trabalhadores mais velhos mudam menos porque preferem ficar onde estão ou porque encontram mais dificuldades em conseguir outro emprego.
Permanecer no mesmo emprego pode ser uma escolha satisfatória, mas também pode reflectir o receio de não encontrar outra oportunidade. A vontade de mudar fica então adiada: haverá lugar para mim noutro lado?
Quem recruta precisa de conhecer as razões dessa procura e o que a pessoa deseja fazer a seguir, sem tomar o percurso anterior como um limite às suas possibilidades.
Quero mudar. Que possibilidades tenho?
Querer outro emprego e saber qual procurar são coisas diferentes. Pode haver uma ideia clara do que se gostaria de fazer, mas também pode existir apenas a sensação de que é tempo de experimentar outra coisa. Depois de muitos anos na mesma organização, nem sempre é fácil perceber onde os conhecimentos adquiridos podem ser úteis ou que possibilidades existem fora das funções habituais.
A orientação profissional pode ajudar a dar forma a essa vontade. O relatório da OCDE já referido, sobre escolhas de carreira e vidas profissionais mais longas, destaca a utilidade de rever o percurso a meio da vida profissional: identificar capacidades e interesses, conhecer oportunidades e perceber que preparação exige uma mudança. Essa reflexão também pode levar a concluir que se pretende continuar na mesma área, mas com outras responsabilidades ou condições.
No entanto, como assinala a OCDE, os programas de orientação profissional são frequentemente assegurados por serviços públicos de emprego que apoiam apenas pessoas desempregadas ou fora do mercado de trabalho. Quem continua empregado e quer preparar uma mudança pode, simplesmente, não encontrar esse apoio.
Quem tem experiência de gestão pode também optar por trabalhar em diferentes empresas, assumindo funções por períodos limitados. É o chamado interim management: a empresa contrata um gestor experiente para responder a uma necessidade concreta, como reorganizar um departamento ou substituir temporariamente um director. Concluído esse trabalho, o gestor pode assumir uma nova missão noutra organização.
No inquérito de 2026 do Institute of Interim Management, a idade média dos participantes era de 55,2 anos. Para quem procura mudar, esta actividade pode ser uma forma de conhecer outras organizações sem abandonar a área em que acumulou conhecimentos. Implica, contudo, procurar clientes e gerir a incerteza entre trabalhos. O relatório de 2026 da INIMA, rede internacional de associações de interim management, mostra que esta forma de trabalho também está sujeita às oscilações do mercado. Em 2025, os profissionais inquiridos referiram maior dificuldade em conseguir novas missões, num contexto em que as empresas demoravam mais tempo a decidir e em que a duração média dos projectos apresentou também uma diminuição.
Preparar uma mudança pode começar por conhecer melhor a actividade que desperta interesse, falar com quem a exerce e perceber que formação seria necessária. Esse contacto ajuda a confrontar as expectativas com o trabalho concreto e a avaliar se é esse o caminho que se quer seguir. Não é preciso decidir logo sair: explorar alternativas enquanto se continua empregado permite dar tempo à escolha e perceber o que se está disposto a mudar para a concretizar.
A preparação individual precisa, porém, de encontrar oportunidades do lado de quem contrata. Aos 50, pode haver ainda muitos anos de trabalho pela frente e vontade de lhes dar outro rumo. É legítimo querer um novo desafio, mesmo quando se tem um lugar seguro e um percurso de que se gosta. Numa altura em que se espera que as pessoas trabalhem até mais tarde, as suas possibilidades de escolha não deveriam começar a fechar-se tão cedo.
Sobre a ACEGE
A ACEGE é uma associação sem fins lucrativos, com cerca de 1.200 líderes empresariais cristãos que procuram, através do seu trabalho, a promoção da dignidade de cada pessoa e a construção do Bem Comum.
Para além da formação dos seus associados a ACEGE desenvolve um conjunto de programas nas empresas, que envolve mais de 2.500 empresas de todos os sectores e dimensões na área da ética; conciliação família e trabalho; pagamentos pontuais e combate à pobreza nas empresas. A associação foi constituída em 1952, foi declarada de utilidade pública e distinguida pelo presidente da república com a ordem de mérito empresarial.
Presidente Direcção: Patrícia de Melo e Liz; Secretário-geral: Jorge Líbano Monteiro