Sobre um outro vírus

Um outro vírus que, de igual forma, entra pela nossa casa, nos cai nas mãos, de forma muito silenciosa e subtil. Um vírus também ele invisível. Olhamos para ele, tocamo-lo e ele, sorrateiramente, corrompe-nos a alma e tira-nos a liberdade de sermos o que realmente somos.

Na corrida matinal, que uso como método de contemplação da natureza, onde desço e subo as colinas que dão lugar aos quadros que pintam as varandas traseira e dianteira da minha casa, reflectia sobre um outro vírus que não este que tem ocupado a total (ou praticamente total) atenção das notícias televisivas.

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Um outro vírus que, de igual forma, entra pela nossa casa, nos cai nas mãos, de forma muito silenciosa e subtil. Um vírus também ele invisível. Olhamos para ele, tocamo-lo e ele, sorrateiramente, corrompe-nos a alma e tira-nos a liberdade de sermos o que realmente somos. E leva-nos a querer ser outro/outra que não nós mesmos, com as nossas características (genéticas ou não), com toda a riqueza que somos. 

Não sei que nome lhe poderei dar. Talvez seja ele mesmo um vírus que nem direito a título tem de tão sem identidade que é. Um vírus perdido na procura de hospedeiro onde se possa fixar, acoplando-se nas redes miofasciais e viscerais de todos quantos se sentem à deriva, vítimas do desamor próprio ou que não encontram em si mesmos um propósito – O propósito. 

Talvez lhe possa chamar o vírus da idolatria do outro, do desamor próprio, da ausente fé – em Deus e, consequentemente, em si mesmo e na missão para a qual foi criado. É certamente um vírus cúmplice deste Covid-19, não fosse ele aumentar também a sua propagação em tempos de confinamento e isolamento social. Tempos em que aumenta o consumo de redes sociais, de culto àquilo que é do/o outro. Ironicamente, e em tempos em que estamos mais afastados, poderá aumentar, pelo consumo de uma aparência que surge atrás de um qualquer ecrã, o desejo de seguir a opinião pública, do “todos fazem assim”, o desejo de ser um outro que não eu, um desejo de não liberdade

“Você pode ser o que você quiser!”. Promessas deleitosas que escutamos ou lemos nos mais diversos lives, directos, artigos de opinião, publicações, livros de auto-ajuda (que agora talvez tenhamos mais tempo para ler), etc. E porque não sermos nós mesmos? Descobrir no âmago de nós próprios, como somos, porque o somos e para que o somos – não será já esse um caminho que traz consigo uma grande e Divina viagem? Na verdade, levamos a vida a descobri-lo.

Diria que a diferença entre o Covid-19 e este outro vírus está na consciência. Jamais através da consciência conseguiremos travar ou erradicar o Covid-19 (salvo a consciência de ficar em casa, recorrer a todas as normas e formas de prevenção do seu contágio, etc.). Já este outro vírus – o da idolatria e culto do outro, o da ausente liberdade para querermos descobrir e ser o que somos – esse não será jamais hospedeiro daquele que assim não o quiser. Colocando Deus em primeiro e permitindo-me fazer o caminho livre de ser aquilo para o qual Ele me criou, consciente de que o outro é como é, e de que eu nunca poderei ser como ele. Certamente trarei e terei mais Vida se for como sou. 

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