Silêncio e ação de Deus perante o sofrimento humano

Lamenta-se com frequência o silêncio e a passividade de Deus perante o sofrimento humano. Esperava-se que, perante uma calamidade ou um acidente, Deus agisse como a proteção civil, os bombeiros, os médicos e os profissionais de saúde, socorrendo imediatamente as vítimas e curando o seu mal.

Nunca como na atual pandemia, a humanidade foi unida pelo mesmo sofrimento e pela necessidade de cooperar para combater a sua causa. Esta, como as demais calamidades, acidentes e doenças, suscita nos corações humanos as perguntas porque permite Deus o mal e onde está nestas tragédias. Há quem bata com a porta, sem esperar resposta, concluindo que realmente Deus não existe. Outros fazem a pergunta e ficam à escuta do eventual esclarecimento. Há ainda quem, embora magoado, mantenha a confiança, grite as suas perguntas para Deus, peça ajuda e fique à espera. 

O sofrimento é sinal da fragilidade e dos limites a que está sujeita a condição humana. E constitui provocação e desafio à inteligência e criatividade humanas para encontrar meios de o evitar, aceitar, curar e superar. Ele torna-se uma espécie de motor para desenvolver a cultura, desencadear a investigação científica e estimular o progresso técnico. Não há vida, amor, trabalho e convivência sem sofrimento. A humanidade cresce com ele. A religião e a espiritualidade ajudam a compreendê-lo, descobrir o seu sentido, aceitá-lo, superá-lo ou suportá-lo com esperança e até com alegria. 

Lamenta-se com frequência o silêncio e a passividade de Deus perante o sofrimento humano. Esperava-se que, perante uma calamidade ou um acidente, Deus agisse como a proteção civil, os bombeiros, os médicos e os profissionais de saúde, socorrendo imediatamente as vítimas e curando o seu mal. Mas tal não acontece. Deus não fala como o homem, não intervém como os governantes, não observa nem analisa os acontecimentos como os jornalistas, comentadores ou especialistas. Fica então alheio à sorte e ao grito dos seus filhos? Como responde, o que faz, como intervém? Deus compadece-se dos seus filhos e escuta os seus gritos. Ele dá espaço ao homem, à sua inteligência, habilidade e cuidado. Inspira-o, dá-lhe conhecimento e confiança, guia-o, encoraja-o e enche o seu coração de compaixão, força e amor para agir e prestar socorro. Além da ciência e da ação, é no silêncio e diálogo da oração que o homem encontra a resposta de Deus aos seus males.

Oração humana e resposta de Deus

Nestes dias, impressionou-me a oração do salmo 44 (43). Assumindo a situação aflitiva do seu povo, um crente dirige-se a Deus. Começa por lembrar os tempos passados em que Ele fez grandes maravilhas pelo povo, fê-lo vencer os inimigos e prosperar. Veio, entretanto, outro tempo e o mesmo povo foi derrotado e esmagado pelos inimigos. Embora não tenha abandonado o seu Deus, traído a aliança ou se afastado do Seu caminho, vê-se agora humilhado, alvo “de insultos” e de “afrontas”. “Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas”, queixa-se o povo, atribuindo a Deus a “causa” do seu sofrimento. Do coração profundamente amargurado brotam então as perguntas, o grito de lamentação e o pedido de socorro, pois o povo não abandona Deus e confia que só Ele o pode salvar:

“Desperta, Senhor, porque dormes?
Desperta e não nos rejeites para sempre!
Porque escondes a tua face
e te esqueces da nossa miséria e tribulação?
A nossa alma está prostrada no pó,
e o nosso corpo, colado à terra.
Levanta-te! Vem em nosso auxílio;
salva-nos, pela tua bondade!” (vv. 24-27)

Atitude semelhante teve o Papa Francisco na célebre oração pelo fim da pandemia, na praça de S. Pedro, em Roma, no passado dia 27 de março. Assim se dirige a Jesus: “Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: «Acorda, Senhor!»”. E conclui: “Senhor, abençoa o mundo, dá saúde aos corpos e conforto aos corações! Pedes-nos para não ter medo; a nossa fé, porém, é fraca e sentimo-nos temerosos. Mas Tu, Senhor, não nos deixes à mercê da tempestade. Continua a repetir-nos: «Não tenhais medo!» (Mt 14, 27). E nós, juntamente com Pedro, «confiamos-Te todas as nossas preocupações, porque Tu tens cuidado de nós» (cf. 1 Ped 5, 7).”

A oração faz a pessoa sair da prisão em que o sofrimento a encerra, não a deixa no desespero, reacende a chama da confiança; não afasta magicamente o sofrimento, mas abre as portas à esperança; não permite ficar passivo nem cruzar os braços, mas encoraja para a luta, a fim de alcançar vitória. Após o desabafo da sua amargura, se o homem faz silêncio e se põe à escuta, disponível e confiante, Deus fala-lhe na intimidade, melhor sussurra-lhe ao coração. E essas palavras tornam-se vida cheia de graça, luz, força, sentido, confiança e esperança no sofrimento. 

Essa foi a experiência de Job. No seu diálogo aceso com Deus, queixou-se, lamentou-se, questionou-o. Deus ouviu-o, mas não responde como Job esperava. Com as suas perguntas, faz Job sair de si mesmo, da prisão em que a dor o encerrara, para contemplar a criação e toda a sua grandeza. Perante esta primeira intervenção divina, Job reconhece saber pouco e declara nada mais ter que dizer. É um silêncio mais de vencido do que de convencido. Deus não desiste e fala-lhe novamente. Desta vez revela-lhe como governa o mundo, como estima as suas criaturas e respeita a sua liberdade. Job ouve Deus, escuta as suas palavras e, sobretudo, é envolvido pela presença divina. Confessa então a mudança que nele se operou com esta revelação, com este face a face com Deus: “Conhecia-te só de ouvido, mas agora viram-te meus olhos”.

Mais próximo de nós, no inferno de sofrimento do campo de concentração nazi, a judia Etty Hillesum (1914-1943), faz um impressionante percurso espiritual de intimidade com Deus e de presença e ação solidária junto dos outros presos. A certa altura reza: “Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares”. Noutro momento, exprime o seu desejo: “Gostaria de falar sobre o que temos em comum, num tom de voz baixo e suave, mas ininterrupto e convincente. Dá-me palavras e força”. Em dias difíceis pergunta: “quais são os planos que tens para mim, tu Deus?”. Todavia, nada faz abalar a sua confiança na vida: “Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite também, meu Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que não ponhas no meu caminho”. 

Realmente, “Deus não vê como o homem vê” (1 Sm 16,7). É no silêncio, na oração e no serviço aos irmãos que se experimenta a presença misteriosa de Deus e a salvação que opera naqueles que creem e a Ele se entregam confiantes.

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