Semana Cáritas: Solidariedade com rosto

A Semana da Cáritas, que decorreu de 17 a 23 de março, culminou com o peditório público. Os valores angariados no peditório público de 2014 na Diocese já são conhecidos: cerca de 19.800 euros.

A iniciativa é essencial para “continuar a ser resposta” para os problemas das pessoas mais carenciadas, muitas delas em situação “de quase desespero”, à procura de “uma luz ao fundo do túnel”, como refere Júlio Martins, presidente da Cáritas Diocesana. Este responsável fala de uma realidade preocupante, com um aumento de 41% dos pedidos de ajuda em 2013.

O fundos recolhidos têm os destinos mais variados, conta o presidente da Cáritas Diocesana, desde pedidos para ajuda no pagamento da renda de casa, da conta da luz, da água, da farmácia ou mesmo vestuário. O PRESENTE quis conhecer de perto a realidade desta organização sociocaritativa da Diocese e atribuir um rosto aos pedidos de ajuda.

 

Os rostos ao serviço

É sexta-feira na Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima. O fim da semana coincide com o fim do mês. Na sala de espera, o expediente sente-se com maior intensidade. Nelson Costa e Elda Santos são os técnicos que fazem o atendimento social aos utentes. Partilham o espaço de trabalho com Maria do Carmo, que faz o trabalho administrativo daquele serviço diocesano. Para além do atendimento social e da loja solidária, a colónia balnear do Pedrógão é outra das valências da Cáritas Diocesana. Aquele setor está ao cargo de Maria da Saudade, que há muitos anos vê passar ali gerações de jovens monitores voluntários nas colónias de verão que a Cáritas proporciona às crianças mais necessitadas.

Na sede da Cáritas Diocesana o atendimento está ao rubro. O peditório público da Cáritas foi a semana passada e, entre a contagem dos fundos recolhidos e o atendimento social, não há tempo de sobra. Mesmo assim, Nelson Costa propõe-nos uma visita guiada. Ao lado da sala de trabalho, funciona a Loja Social: um espaço onde estão dispostos artigos de vestuário que são disponibilizados aos utentes, resultado das ofertas que chegam à Cáritas. Atrás da Loja Social, estende-se um armazém onde chegam as ofertas. Duas das cerca de 15 voluntárias que ali prestam serviço com regularidade fazem a triagem e divisão das ofertas. Terminamos a visita guiada num gabinete de atendimento ao lado da sala de espera. É lá que Nelson nos pede para aguardarmos. O PRESENTE está ali para conhecer uma das utentes que recorre à ajuda da Cáritas Diocesana. É no gabinete de atendimento que conversamos com Laurinda, que se propõe a contar a sua história. Apesar da face escondida pelo nome fictício, Laurinda ajuda-nos a desvendar o rosto da solidariedade, enquanto fala da ajuda preciosa que a Cáritas Diocesana lhe concede.

 

A face que desvenda o rosto solidário

Laurinda veio de Sintra para Leiria em 2006. Deixou uma vida sem trabalho – do pouco serviço de costura que ia surgindo –, e uma renda insuportável para os escassos rendimentos que tinha. Em Sintra, ficou também o ex-marido. Na mala trouxe a incerteza, mas junto com ela, o desejo de mudar de vida e a vontade de dar um futuro mais risonho aos 6 filhos menores que a acompanhavam.

Passaram 9 anos. Com quase 50 de idade, a condição sócio económica de Laurinda não mudou muito. Os cortes nos apoios que lhe permitiam sobreviver, revelaram-lhe uma realidade ainda mais dura. Sente-se apta para trabalhar, diz, decidida. Apesar dos horários das escolas dos filhos e do que a lida da casa exige, tem coragem para aceitar um trabalho a meio tempo, mas as oportunidades não surgem. É a meio horário que a filha mais velha, com 24 anos, vai trabalhando num café e contribuindo, no que pode, para a gestão da casa onde também vive.

Laurinda tem consciência de que é difícil arranjar um trabalho que lhe dê os rendimentos de que necessita. Assume um tom realista quando revela que tem “três barreiras neste momento: a falta de empregos, a idade, e a baixa escolaridade…”. “Qualquer outra pessoa está em vantagem”, conclui.

 

200 euros para viver

Laurinda vive com um rendimento bruto mensal de pouco mais de 540 euros. Entre abonos, rendimento social de inserção e o ordenado da filha, pouco sobra depois de pagar os 340 euros de renda da casa. Os biscates de costura que vai conseguindo arranjar ajudam a ir comprando os bens essenciais para a família, mas só através da solidariedade consegue sobreviver todos os meses.

A Cáritas Diocesana já a ajudou no pagamento da renda de casa, da conta de luz e do gás e vai-lhe dando algum vestuário. Laurinda tenta recorrer à ajuda da Cáritas só quando está mesmo no limite, porque, justifica, sabe que “há muita gente que precisa e tem de chegar para todos”. A decisão entre pagar a renda da casa ou as contas do gás, da luz e da água são dilemas com que se vê confrontada todos os meses.

A cantina social tem ajudado à tarefa de alimentar a família. É lá que leva os filhos ao fim de semana, quando não têm acesso à cantina escolar. “Todas as semanas aparecem pessoas novas na cantina social”, conta. Laurinda chega a falar com alguns dos que recorrem àquela ajuda social e nas histórias do que ouve, reconhece vidas mais difíceis que a sua. Diz que é uma boa ouvinte, que gosta de estar atenta aos outros. A propósito do peditório da Cáritas, conta que, num dos supermercados da cidade, ao passar por uma recolha que ali decorria, não resistiu e deu, de forma instintiva, o pouco que tinha. O mesmo acontece quando vê algum pedinte. A proximidade com esta realidade não a deixa indiferente e, mesmo na dificuldade, pensa que poderá haver alguém em pior situação de que ela.

 

A solidariedade mora aqui

Apesar da realidade, Laurinda continua a sonhar com um futuro melhor. Gostava de ser pintora de belas artes. É, aliás, uma das formas como mantém entretidas as filhas mais novas, com papel e umas tintas baratas que consegue arranjar. Quando questionada sobre as preferências na arte, a escolha transparece  semelhanças com a realidade: Salvador Dali pelo surrealismo e Frida Kalo por retratar a vida sofrida pela qual passou. Sobre o seu sonho transformado em realidade sofrida, Laurinda remata com uma resposta ágil: “quando nos habituamos a lutar, baixar os braços não é uma opção”.

A conversa está a chegar ao fim. Ainda há tempo para lhe perguntar sobre o porquê da escolha da cidade de Leiria. Laurinda fala das raízes familiares que sabia ter na cidade. Desde a sua vinda nunca encontrou qualquer familiar, mas encontrou na Cáritas Diocesana e no espírito solidário de quem a foi ajudando um verdadeiro lar.

 

Valores recolhidos no peditório público

No ano transato a Cáritas Diocesana de Leiria-Fátima apoiou 600 famílias, que se traduziu em 1397 atendimentos. A Loja Solidária, apoiou 241 famílias, num total de 710 pessoas, que se traduziu em 456 atendimentos, a nível de apoio de vestuário e artigos para a casa. A instituição tem ainda a Colónia de Férias para crianças na praia do Pedrogão, onde recebe crianças oriundas de famílias desfavorecidas.

 

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