“Santas Casas, rostos de misericórdia”

Na Diocese de Leiria-Fátima, milhares de pessoas usufruem direta ou indiretamente da ação das Santas Casas da Misericórdia (Misericórdias). Criadas pela mobilização de leigos cristãos empenhados em pôr em prática o Evangelho, as Santas Casas são, através das suas valências, expressão viva do rosto misericordioso de Deus.

O Presente Leiria-Fátima foi conhecer as seis Misericórdias existentes na Diocese e a dá a conhecer o trabalho fundamental nelas desenvolvido.

Enquanto irmandades de leigos animados pela fé cristã e unidos na concretização de uma caridade fraternalista, as Misericórdias assumem um cunho evangélico orientado pelas 14 obras de misericórdia.

Desde a sua criação, em finais do século XV, estas instituições alargaram as suas respostas à sociedade. Espaços de saúde, lares de idosos, cantinas sociais, apoio domiciliário e creches são apenas alguns exemplos da importância social que as Misericórdias assumiram desde então.

 

“Rostos da misericórdia do povo”

O padre Vítor Melícias, que já esteve à frente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) – organismo que coordena estas instituições ao nível nacional, apresenta-as como “rosto da misericórdia”.

“As Misericórdias só têm sentido se forem a realização do sentimento profundo de fraternidade universal entre os seres humanos, sem distinção de raça, credo”, disse o sacerdote, numa conferência realizada, no final do ano passado, em Santarém, na Assembleia de Investigadores do Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão.

A rosa de sete pétalas e a estrela de sete pontas, que dão imagem às Misericórdias, simbolizam isso mesmo, as sete obras de misericórdia corporais e espirituais, respetivamente, explica o padre franciscano, que vê nestas instituições uma concretização da “mística da misericórdia em obra”.

Numa referência à origem das Santas Casas, o padre Vítor Melícias sublinha a sua espiritualidade ao assumirem-se como “bandeiras da misericórdia”, uma vez que nascem da junção da “organização da obra e o trabalho assistencial” e do “sentido de dimensão religiosa”.

“As Misericórdias não são do Estado nem da Igreja, são do povo. As Misericórdias são uma emanação deste povo, inspiradas pela Igreja, no humanismo cristão, e apoiadas pelo Estado, na obrigação da solidariedade nacional, organizando-se para que quem está em necessidade possa ser socorrido.”

 

De portas abertas à comunidade

Estas instituições devem ser espaços abertos à sociedade, lembra a provedora da Misericórdia de Fátima – Ourém, instituição que tem procurado dinamizar ações com vista a uma maior participação da comunidade através de “coisas simples”. A ausência de horários na visita ao lar de idosos, o estímulo para uma colaboração nos cuidados aos familiares ali instalados, os eventos de angariação de fundos ou mesmo o grupo de cerca de 50 voluntários que apoia o serviço, ajudando a criar um ambiente mais familiar, são alguns exemplos da abertura da instituição à comunidade.

Através desta participação, a comunidade assume um “papel de supervisão sobre o próprio funcionamento da instituição”, dando sugestões e opiniões que a ajudam a crescer, salienta esta responsável.

 

Um trabalho além fronteiras

Assumindo o espírito universalista do Evangelho, as Misericórdias abrangem também a universalidade da humanidade e as suas respostas não se restringem às necessidades verificadas no território nacional. Exemplo disso foi a abertura demonstrada pela UMP em participar no acolhimento aos refugiados, tendo feito um levantamento imediato da disponibilidade junto das Santas Casas. A da Marinha Grande foi uma das que disse “sim” e, em dezembro último, acolheu um casal de refugiados iraquiano.

“Ele tem 28 anos e ela 32 e está grávida. Já estão instalados e a aprender português. A UMP consultou-nos para saber se estaríamos disponíveis para apoiar refugiados. Nós dissemos que a sim. Quando chegaram, já tinham tudo prontinho.”, conta Joaquim João Pereira, provedor da Misericórdia da Marinha Grande (SCMMG) há 25 anos, que concilia a advocacia com esta responsabilidade não remunerada.

 

“É para isso que cá estamos”

O “sim” que deu em nome da instituição para acolher refugiados veio acompanhado de um “é para isso que cá estamos”. Numa mensagem que assina na página de internet, Joaquim Pereira fala da SCMMG como uma instituição que “não se sentiu espetadora da história, mas que foi agente ativa, criando factos que são lições de história, no que toca aos cuidados para idosos e crianças mais carenciados”. Na ação que aquela instituição desenvolve na Marinha Grande, tem presente como lema as palavras de Jesus aos discípulos: “amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei”, numa lógica de trabalho na qual “a felicidade não está naquilo que se tem, mas naquilo que se é e na forma como nos doamos aos outros, sem estar à espera de recompensa”.

O padre Armindo Castelão, que assento na mesa administrativa na qualidade de pároco da Marinha Grande, fala de “um trabalho extraordinário e insubstituível a vários níveis” que assume uma “verdadeira dimensão cristã” e numa “linha de fidelidade à comunidade, à Igreja e ao mundo”. A paróquia também participa nesta ação.

“Uma vez por semana, há a celebração da Eucaristia e todas as semanas os Ministros Extraordinários da Comunhão fazem uma celebração da Palavra e distribuem a Sagrada Comunhão aos doentes e idosos internados ou residentes, num ambiente que promove a fé e a vivência cristã.”

 

Um trabalho fundamental

Esta “profunda ligação aos princípios da solidariedade cristã” que as Misericórdias têm em conta no apoio aos mais necessitados é salientada por Fernanda da Silva Rosa, provedora da Misericórdia de Fátima – Ourém, uma das mais recentes do país.

“A ação das Misericórdias passa por estarem diariamente atentas às situações de maior vulnerabilidade, carência e desproteção, por forma a prestar um verdadeiro serviço que promova a dignidade da pessoa, o respeito e a união entre todos.”

Duas palavras ressaltam da caracterização que faz da ação destas instituições: a “caridade”, através da qual estas instituições se abrem ao “serviço à comunidade sem esperar qualquer recompensa” e “espiritual”, pelo apoio que “assume publicamente e sem receio a fé e os princípios cristãos”.

“Não havendo Misericórdias, fica muito trabalho por fazer e a sociedade tornar-se-à menos justa”, refere, ao sublinhar a ação “fundamental” que estas instituições desenvolvem na sociedade portuguesa há centenas de anos, “contribuindo de uma decisiva para uma maior riqueza económica e humana”. 

 

Os voluntários: uma “família” essencial
para um serviço mais humano

Ao segurar as mãos dos idosos do Lar da Misericórdia de Fátima-Ourém Patrícia Lopes consegue sentir as mãos da bisavó, que já partiu, e a quem sente que não ter agradecido por tudo o que lhe fez. É também por ela que, aos 17 anos, esta estudante do 11.º ano de contabilidade reserva a manhã de sábado para o voluntariado naquela instituição. Há cinco meses que acorda bem cedo para ali estar às dez em ponto, faça sol ou chuva. Para tal, sai meia hora antes da instituição que a acolhe desde que a bisavó faleceu.

A forma decidida e alegre com que se entrega a este serviço distraem quem não conhece os momentos “complicados” que já passou na vida.

“A minha infância foi passada com a minha bisavó e quando ela faleceu senti uma enorme tristeza por não lhe ter agradecido por tudo o que fez por mim.”

Foi para ali por intermédio da atual provedora, mas a razão que a mantém dedicada a este serviço é simples e di-la numa frase: “ao dar o meu amor aos mais velhos sinto que estou a agradecer a atenção que a minha bisavó sempre me deu”. “Quando toco nas mãos dos idosos, lembro-me das mãos da minha bisavó. Desde que sou voluntária no lar que sinto uma alegria e uma paz porque sinto que estou a retribuir a alguém o que ela me deu.”

A pessoa que hoje é tem muito do que da bisavó recebeu, reconhece com um orgulho inquebrável.
As cerca de cinco horas que ali está são passadas sobretudo a ouvir os utentes que lhe falam sobre a família, as tristezas e sobre memórias de uma vida. Neste contacto próximo, diz ter aprendido muito, até a “não ter medo da morte”.

Os laços que se criam são profundos, garante. “Uma idosa, com quem ganhei uma afinidade especial, esteve muito mal. Todos os dias rezo por ela e ela faz o mesmo por mim. Ela vê e ouve muito mal, mas reconhece-me pelos meus caracóis e sei que faz questão mostrar que a minha presença ali é importante para ela.” Esta presença de voluntários é um contributo essencial para trabalho humano desenvolvido nas Misericórdias.
O testemunho desta adolescente personifica o esforço e a entrega de muitos voluntários, de várias idades, que dão do seu tempo aos que mais precisam e ajudam a criar um ambiente mais familiar e humano nas Santas Casas.

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