PORQUE É PECADO

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Aconteceu num dia tórrido do Verão de 1902, no interior da casa em que cuidava da irmã mais nova, ainda bebé, enquanto a mãe, pobre viúva ao serviço de um proprietário do agro pontino, procurava ganhar o magro sustento da família.

Maria tinha doze anos incompletos e passara menos de um ano que, ao receber a primeira comunhão – tardiamente, diríamos nós hoje, mas depois de uma catequese adequada ao seu tempo-, decidira evitar a todo o custo o que percebesse como pecado, ou ofensa a Deus.

Ambiente económico difícil, mal socorrido por um trabalho duro e responsabilidades cedo assumidas, favorecem um amadurecimento, não direi precoce, mas mais rápido do que o habitual: Maria crescia e desenvolvia-se numa particularmente veloz compreensão das coisas.

Olhando à sua volta, já se dera conta de que Alexandre, o desregrado filho do patrão, mais velho seis anos que ela, a olhava com intuitos menos limpos: por isso, começou a evitar encontrara-se com ele a sós; até que naquela tarde quente de Julho, ela, que cautelosamente se sentara na varanda, com a irmãzinha por perto, a consertar a camisa de Alexandre, é por ele violentamente arrastada para o interior.

À baixeza das propostas do jovem devasso, responde com uma força e determinação que o enfurecem até à loucura.

Aos gritos da jovem adolescente – Alexandre, não, porque isso é pecado – responde apunhalando-a ferozmente; e deixa-a à beira da morte, numa poça de sangue, onde vem encontrá-la, momentos depois, a pobre mãe, que acorrera aos gritos da filha mais nova, ainda no berço.

Maria viria a morrer no dia seguinte, completam-se hoje precisamente cento e vinte e três anos, depois de suportar os indizíveis sofrimentos de uma intervenção cirúrgica, tão cruel quão inútil; mas não sem declarar que perdoava ao seu assassino e pediria a Deus que pudessem vir a encontrar-se na glória eterna.

Promessa cujo cumprimento se prova pela história protagonizada depois por Alexandre, que, cumpridos, por bom comportamento, apenas vinte sete dos trinta anos de prisão a que fora condenado, pôde ainda contar com a perdão de Assunta, a mãe de Maria e levar uma vida cristã exemplar.

Da homilia do venerável Pio XII, proferida no acto da canonização de Maria, a 24 de Junho de 1950, da qual infelizmente não possuo qualquer tradução, disponho apenas do texto latino, relativamente breve, dessa homilia podemos realçar, pra além de alguns pormenores biográficos de Santa Maria Goretti, duas linhas de exortação, provavelmente ainda mais actuais hoje do que há setenta e cinco anos:

Dirige-se o Papa, em primeiro lugar aos pais aos e guias da juventude, exortando-os a cumprirem com diligência o dever inalienável de transmitir às gerações novas, valores que as ajudem a assumir a sua responsabilidade de construtores de um futuro, que só se for segundo Deus, será verdadeiramente humano.

À generalidade do povo cristão, o Papa recorda que, se nem todos somos chamados a um testemunho de sangue, habitualmente designado por “martírio”, ninguém está isento de lutar pela perfeição da virtude, segundo as condições concretas da própria existência.

A terminar o seu discurso, Pio XII cita São Mateus, 11, 12: “Desde o tempo de João Baptista até agora, o Reino do Céu tem sido objecto de violência e os violentos apoderam-se dele à força”.

Para nos dizer que, como também afirmou São Paulo, a vida cristã é uma verdadeira milícia, um combate permanente pela virtude, não um lugar de refúgio para cobardes ou pusilânimes.

E pensar a gente que se estava a catorze anos da aprovação, por São Paulo VI da constituição dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, onde se afirmaria solenemente que todo o baptizado é chamado à perfeição a caridade, isto é, a ser santo!

Foi até tendo presente esta realidade, que testemunha de forma muito negativa a pouca docilidade com que acolhemos os ensinamentos de quem recebeu do Pastor eterno a missão de guiar o rebanho, foi a pensar nisso que me decidi a escrever eta nota sobre Santa Maria Goretti, fechando numa narrativa demasiado contida, as memórias que a ela se ligam, desde a minha juventude.

Afinal, todos os santos são actuais e, nessa mesma medida, de uma maneira ou de outra, servem de farol para que evitemos os escolhos que podem fazer-nos naufragar neste mar agitado por correntes tão díspares e violentas.

Claro que às vezes nos vem a tentação de pensar que vai tudo de mal a pior, porque não aprendemos a ler os siais, incluindo os que nos dá a própria Igreja, propondo, através das canonizações, exemplos concretos, de pessoas de todas as idades e condições, que uma catequese adequada ensina a perceber que o único mal que pode arruinar uma vida é o pecado.

Segundo a mensagem da pequena Maria Goretti, perante as propostas licenciosas do filho do patrão: Alexandre, não, porque isso é pecado.

(Fátima, 25.07.06/07/)

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