POR AMOR AO CARISMA

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Nascido em Aragão, em meados do grande século da reforma da Igreja, morreu em Roma, aos noventa anos, depois de ter consumido a sua vida, posta ao serviço de Deus, ainda muito jovem, entusiasmado pela renovação em curso, após o Concilio de Trento, na formação espiritual e apostólica do clero.

Não fazia parte dos seus planos iniciais a fundação de qualquer instituto, à semelhança dos que tinham nascido, já nesse século, com estruturas canónicas, ao jeito do tempo: estruturas que tanto protegem como podem condicionar o trabalho desses institutos; dificultam-no por duas vias principais: o choque das mentalidades e o jogo das emulações, nem sempre inocentes e positivas.

Chegado a Roma, trabalha, a princípio, como tutor dos sobrinhos do Cardeal Colonna, seu amigo; cedo repara que a orgulhosa cidade do Tibre, para além das reformas preconizadas por Trento, se refazia das ruínas deixadas pelo saque das tropas de Carlos V, algumas décadas antes: reconstruíam-se as igrejas e surgiam os palácios das grandes famílias. Entretanto, como sempre aconteceu e acontecerá, simultaneamente com o luxo dos ricos, crescia de forma chocante a cidade dos pobres e miseráveis.

O nosso jovem aragonês, que desprezara a hipótese de uma carreira eclesiástica brilhante, sente um abalo nas entranhas ao contemplar o espectáculo das periferias criadas pelo crescimento urbano; um mundo onde, com todas as privações, as ruas regurgitavam de jovens sem trabalho e as crianças abandonadas, mergulhavam cedo na criminalidade infantil.

E o jovem tutor dos príncipes inicia o seu trabalho de busca e socorro, procurando sobretudo as crianças e os jovens abandonados, que não tinham quem lhes desse, com o pão para a boca, noções de cultura geral, cívica e religiosa.

À falta da colaboração das grandes ordens religiosas então actuantes em Roma, aceita a oferta de um pároco amigo, que põe à sua disposição duas pequenas salas, onde se abre a primeira escola gratuita da Europa para jovens das classes sociais pobres.

Estamos nos finais do século XVI.

O exemplo arrasta: por isso não tardam os companheiros, sacerdotes e leigos, unidos pelo mesmo afã de acudir aos mais pobres da Cidade do Papa.

Para os sacerdotes, correspondendo às preocupações iniciais do imigrante aragonês, surge uma instituição especialmente dedicada à formação do clero, que, na sua maioria, como os pobres da periferia e das ruas, padeciam da pior das denutrições: falta de doutrina e preparação para o ministério.

Dois papas, seguindo a mentalidade jurídica do tempo, dão a essa instituição o amparo de uma estrutura canónica. E as dificuldades, por ignorância de uns e ciúme de outros, vão crescendo até atingirem um cume inesperado e inaudito: o zeloso sacerdote é privado do governo do seu Instituto, que, temporariamente suprimido, só não perde o seu carisma porque um grupo de fiéis seguidores acredita na fé com que o fundador, sem revolta contra ninguém e aceitando humildemente as novas condições de trabalho, afirma que um dia virá a ressurreição.

E veio mesmo, como não podia deixar de ser, num contexto de fidelidade tão profunda e humilde.

Certamente já viram que estou a falar de São José de Calazans, que morreu em Roma, aos noventa e um anos, com tal fama de santidade, que, excepcionalmente, para os hábitos do tempo, pouco mais de um século depois, o papa Clemente XIII o canoniza, restabelecendo o seu Instituto, segundo as normas escritas por ele e os decretos de Gregório XV, em 1622.

Pio XII, no terceiro centenário da morte deste santo, proclamá-lo-ia “Padroeiro universal de todas as escolas populares cristãs do mundo”.

Qualquer grande figura do calendário litúrgico da Igreja – e estou a falar apenas dos santos canonizados – merecia, não por ela, mas pelas lições de vida e morte que encerra a sua caminhada terrena, tanto mais marcada pela cruz, quanto mais lutou por ser fiel ao que Deus lhe pedia.

Falo hoje de São José de Calazans, não tanto por ser o dia aniversário da sua entrada na Casa do Pai, e a celebração litúrgica da sua memória, que, afinal, no calendário comum actual, é apenas facultativa.

E é este carácter facultativo que me inquieta: não por considerá-lo errado, mas porque, como em muitos outros casos, facilitando a preparação das acções litúrgicas, favorece demasiado a rotina. Ora, sobretudo os sacerdotes precisam de ter em vista que uma vida como a de São José de Calazans documenta, em meu entender, o aviso de Jesus ao prevenir os discípulos de que os seus piores inimigos seriam os da própria casa, perseguindo muitas vezes, pensando prestar culto a Deus.

Talvez devamos estar mais atentos, porque qualquer de nós pode ser um desses inimigos, ou vítima deles. Às vezes, ambas as coisas.

A unidade do Povo de Deus não se constrói com nenhuma espécie de intolerância, por muito belas que sejam as suas máscaras. Como Jesus Cristo, que é Quem conduz a Igreja, só podemos atacar o erro abraçando quem erra, na disposição sincera de morrer peala verdade, antes que matar, seja qual for o sentido que se dê a esta palavra.

Precisamos todos de reservar mais do nosso tempo para a oração, o estudo e a formação da fé, com o máximo respeito pelas suas fontes: a Escritura, a Tradição e o Magistério autêntico.

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