Ásculo, no Piceno, 279 a.C. Vai para mais de dois mil e trezentos anos!
Pirro, rei do Epiro (digamos, a Albânia dos nossos dias), com os seus aliados do sul de Itália, consegue sobre Roma uma estrondosa vitória: tão estrondosa, que as ruínas provocadas ficaram na história como o exemplo acabado de uma vitória mais desastrosa que a derrota.
Sei que houve outra batalha de Ásculo, uns 190 anos depois, com diferentes vicissitudes, mas iguais efeitos: a vitória transformada em derrota.
Não falo disto por qualquer prurido exibicionista de erudição historiográfica; anima-me um duplo desejo de servir: primeiro, porque se usa muito hoje a expressão, “vitória pirrónica” (ou “pírrica”), sem pensar na sua origem, que será o único meio de lhe guardar o verdadeiro significado; segundo, e principalmente, porque, quando deito um olhar, ainda que rápido e superficial, sobre a história dos povos, concluo sempre que todos os conflitos entre eles, superados pelas armas, são vitórias pirrónicas, no mais desconfortável sentido.
Deixo a outros, mais competentes e sagazes, talvez até menos negativos do que eu, comentar como isto se aplica aos êxitos, celebrados em tantos tons e com mais cores que as do arco-íris, na comunicação pública e privada dos nossos dias.
Escrevo sempre como cidadão que pensa, mas sobretudo como um crente que medita no sentido divino da história; a história da Salvação, que se esconde por detrás da história dos homens, ainda quando tudo parece vitória da iniquidade.
Com o máximo respeito pela consciência das pessoas envolvidas em qualquer conflito, armado ou não, estou convencido que só por um lamentável equívoco foi possível criar a ideia de uma guerra santa.
Aliás, nós temos o incrível vício de juntar muitas vezes o apelido de “santo” ao que o não merece: umas vezes por ironia, outras, menos condenáveis, por uma espécie de transferência que, diríamos, tenta “rebatizar” expressões há muito secularizadas.
Seria bom que os portugueses, pelo menos, conhecessem o belíssimo texto contra a guerra, escrito na sua língua, há mais de três séculos e meio; texto do qual transcrevo o passo seguinte:
“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta” (padre António Vieira, em 1668).
A guerra, um monstro que “quanto mais come e consome, tanto menos se farta”.
Confesso que não sei bem quem tem razão: se os que dizem que a guerra é a mais perfeita imagem do Inferno, se os que que afirmam ser ela o nosso inferno temporal.
Talvez ambos tenham razão, porque no tempo, o Inferno, por cruel que seja, nunca pode ser eterno. E isso faz toda a diferença.
Não pode ser eterno, mas pode levar lá.
É por isso que, ao contrário de muita gente bem-pensante, não me choca a informação fornecida pelos videntes de Fátima sobre a visão que terão tido do Inferno: não me interessa entrar nas discussões teológicas que se levantam, uma ou outra vez, a respeito desse tema: porque não tenho competência para isso, mas também porque tais discussões, por importantes que sejam, às vezes não conseguem senão distrair-nos do essencial: e o essencial, em meu entender, é que não há meio de perceber em que se funda a virtude da Esperança, fora do contexto do pecado, do arrependimento e da conversão.
Fátima e a heroicidade da Esperança
Fátima, como eu a entendo, não tem qualquer sentido sem a heroicidade com que esses três videntes – os mais pequeninos já estão canonizados pela Igreja – viveram, à sua maneira infantil, mas sem nunca mais o quebrar, aquele QUEREMOS com que responderam, logo na primeira aparição, ao convite da Mãe de Deus, para se oferecerem como vítimas de reparação e súplica pela conversão dos pecadores.
“Vítima de reparação e súplica”, é também uma expressão cujo sentido, bíblico e litúrgico, o nosso falar corrente ignora ou despreza.
Voltando ao princípio, para terminar:
No pensamento e na prática genuína dos crentes, antes e depois de Jesus Cristo, apesar de todos os equívocos de linguagem, nunca significou pedir-Lhe a derrota de alguém, a não ser como figura do Mal, que encarna com frequência na ação dos detentores do poder.
Temos de reaprender também isto, porque, com a nossa falta de tempo para pensar e rezar, esquecendo o ensino constante dos Padres e do Magistério universal da Igreja, facilmente nos deixamos transformar em agentes da retaguarda das ideologias, quando o nosso dever é sermos a quinta coluna: a força dos que sustêm o mundo, caminhando com Cristo até à Cruz.
A Cruz, que, só depois do “tudo está consumado”, nos dá o sepulcro donde brota o triunfo final da vida sobre a dor e a morte.
(Fátima, 25.06.07)