Perturbações psico-espirituais e a resposta da Igreja

Depressão ou espírito impuro? Azar na vida ou mau-olhado? Descontrolo cerebral ou visões do demónio? Esquizofrenia ou possessão? Afinal, o diabo existe ou não? E pode ter alguma ação sobre nós?

Estas e outras perguntas assaltam frequentemente muitas pessoas que passam por situações estranhas e dolorosas do ponto de vista psicológico e espiritual. Todos nós já nos teremos questionado sobre estes assuntos, seja por alguma situação vivida pessoalmente, seja por alguém próximo nos confrontar com uma experiência a que não consegue dar resposta.

Para percebermos um pouco melhor estas problemáticas, fomos conversar com algumas pessoas que passaram momentos de especial dificuldade e com outras que são mais frequentemente procuradas para ajudar.

 

Será que ando “com o diabo no corpo”?

Charlie, charlie, estás aqui?” A frase tornou-se viral nas últimas semanas de aulas, sobretudo entre os adolescentes. Trata-se de um jogo em que um suposto demónio mexicano chamado “Charlie” responde ao convite de entrar em contacto com quem o invoca. Dois lápis sobrepostos, sobre uma folha de papel com as palavras “sim” e “não”, irão movimentar-se para dar a resposta. Um sopro, uma brisa, o leve atrito entre os lápis fazem com que, muitas vezes, eles se movam.

O mais antigo e também célebre “jogo dos copos” é outra versão deste tipo de atividades, que visam demonstrar a existência de “almas do outro mundo” ou espíritos demoníacos em ação entre nós. Se para uns tudo não passa de uma brincadeira, para outros torna-se um problema sério, certos de que o demónio veio mesmo e ficou para os atormentar.

O tema do esoterismo e do paranormal foi alvo da curiosidade humana ao longo dos tempos e causa sempre alguma reação de receio, mesmo para quem se afirma incrédulo. A criatividade artística, sobretudo a literatura e o cinema, exploram-no à exaustão para motivar a paixão e as emoções fortes na audiência. Quando se ligam à religião, sobretudo colocando o diabo como ator, o resultado é ainda mais eficaz, já que se trata de uma força “divina”, impossível de ser vencida pelos simples mortais.

 

O demónio na fé cristã

Também os cristãos são confrontados com estas realidades, e a sua fé é, muitas vezes, posta em causa, sobretudo quando se vivem situações-limite de sofrimento, de descontrolo psicológico que os médicos não conseguem decifrar nem curar, de acontecimentos que não se conseguem explicar pela evidência natural ou científica.

A primeira pergunta a fazer é: afinal, o demónio existe ou não? E poderá vir atacar-nos, tirar-nos a vida do corpo e condenar a nossa alma para sempre? A Bíblia a Tradição da Igreja respondem claramente: sim. Mas não deveremos esperar que a sua manifestação seja “como nos filmes” e que o diabo nos apareça com chifres e cheiro a enxofre.

Nos relatos da Criação e em muitos outros textos bíblicos se afirma como verdade de fé que Deus criou os homens e os anjos e que alguns deles se revoltaram e recusaram a comunhão com Ele. Toda a história do Povo de Deus está recheada de exemplos em que os “anjos decaídos” tentam por todos os meios levar os homens a essa mesma recusa.

Jesus Cristo confirma essa verdade e Ele mesmo foi tentado pelo demónio. Como venceu? Recusando com todas as forças trocar o amor de Deus por qualquer outro bem material e afirmando sempre que O adoraria sem dúvidas ou condições.

O pecado é, então, a vitória do demónio, a cedência a essa tentação universal de querermos ocupar o lugar de Deus, o mau uso da liberdade absoluta que Ele nos deu ao fazer-nos “à sua imagem e semelhança”. E o pecado grave, a separação deliberada do amor de Deus, pode levar à morte e à condenação eterna. Mas a vitória de Jesus veio trazer-nos, também, os meios de vencermos: pelos sacramentos que deixou à sua Igreja, Deus está sempre pronto a perdoar e a acolher-nos de novo, bastando que o queiramos.

 

O “inexplicável”

A base de fé que acima resumimos marca o nosso dia-a-dia e encaixa-se na “normalidade” da vida cristã. Mas há situações e experiências que parecem colocar tudo à prova. Falámos com duas pessoas que aceitaram contar o seu caso (os nomes são fictícios).

Maria teve uma dessas vidas “normais” até aos 38 anos. De repente, uma depressão profunda e sem motivo aparente tomou conta dos seus dias. Correu médicos, psicólogos e psiquiatras e o seu mal não tinha explicação nem tratamento. Consultou videntes e bruxos e todas as “mezinhas” se revelaram infrutíferas. No processo, gastou tudo o que tinha e empenhou a casa e a relação familiar. Como começou também a ter visões de fantasmas e sentia uma força estranha a impeli-la para fazer mal a si e aos outros, frequentou algumas celebrações carismáticas, pois ouvira dizer que ali se faziam curas desses males. Uns dias estava melhor, noutros voltavam as crises. Numa das mais graves, esteve internada três meses no Hospital de Leiria. Parece que os médicos, finalmente, encontraram a medicação acertada para o seu caso de “doença bipolar” e, após seis anos de tortura, está há dois com a sua saúde reposta, embora com medicação obrigatória.

O problema de Alberto era diferente. Experimentou drogas na adolescência, foi viciado em diversos estupefacientes, mas conseguiu libertar-se numa clínica especializada, aos 27 anos. Quando já tinha 48, começou a frequentar casinos com os amigos, por mera diversão. Mas esse veio a revelar-se um novo vício. Pensava no jogo a toda a hora, gastava tudo quanto tinha e, mesmo sabendo que estava a destruir a sua vida e a dos filhos, não conseguia resistir. Também ele recorreu a um psicólogo, mas o tratamento não resultava. Convencido de que era mau-olhado da ex-mulher, foi à bruxa, mas só ficou mais endividado ainda. Aconselhado por uma amiga, foi falar com um padre para lhe “tirar o demónio do corpo”. O sacerdote levou-o à Confissão e a retomar a prática cristã que havia abandonado. Diz que sentiu “um alívio inexplicável” e nunca mais entrou numa casa de jogo. Já lá vão três anos.

 

Resposta na Diocese

2015-07-21 demonios2Podíamos contar milhares de casos, muitos bem piores do que estes. Joaquim Dias, um leigo da comunidade Canção Nova, atende 800 a 900 pessoas por ano, desde há cerca de uma década. Descobriu este “dom” por acaso, quando começou a aconselhar algumas pessoas que frequentavam as celebrações da Canção Nova. “Não percebia muito bem alguns histerismos que observava e então decidi abordar as pessoas, conversar um pouco, rezar com elas”. Como viu resultados positivos nesta abordagem, foi continuando e aprofundou a sua formação para um aconselhamento mais correto.

Na diocese de Leiria-Fátima não há um serviço “oficial”, mas muitas pessoas tem sido encaminhadas para ele e apresenta ao Bispo relatórios regulares do trabalho que vai desenvolvendo. “Vem gente de todas as idades e condições sociais, com diferentes graus de formação e níveis de prática religiosa”, refere. Muitos procuram também aconselhamento familiar. Na esmagadora maioria, “são problemas do foro psicológico, que remeto para os profissionais na área, mas faço questão de lembrar que a oração, a prática dos sacramentos e a entrega da vida a Deus são também meios fundamentais para o nosso bem-estar espiritual e humano”.

O padre João Pina Pedro, pároco das Matas e de Espite, é também frequentemente solicitado pelos mesmos motivos: “as pessoas hoje procuram respostas rápidas, que muitas vezes não existem, e recorrem a todos os meios; normalmente chegam ao padre depois de não terem respostas dos médicos, psicólogos, psiquiatras, e mesmo videntes e cartomantes”. A questão da ação do demónio nas pessoas sensibilizou-o ainda em seminarista. Foi lendo sobre o assunto e uma formação para padres sobre “a missão de cura e libertação”, em Medjugorje (Bósnia), em 2002, despertou-o ainda mais para a missão de aconselhar e ajudar as pessoas a libertarem-se desses problemas.

A sua receita acaba por ser semelhante. “O que faço é acolher as pessoas, ouvi-las e encaminhá-las para o encontro com Cristo na Reconciliação, fazer orações de libertação com elas e, depois, aconselhá-las a uma vida cristã séria”, diz. Além disso, promove um ou dois retiros anuais para os fiéis que acompanha e tem um grupo de cerca de meia centena de pessoas com quem realiza regularmente nas suas paróquias um momento de oração de cura e libertação.

 

Os motivos

A partir da sua experiência, Joaquim verifica que “as pessoas estão hoje muito frágeis psiquicamente, fruto do ritmo de vida que levam, de problemas sociais como o desemprego, de novos discursos como o da ideologia de género, da procura do mais fácil e das respostas rápidas, mas também do afastamento de Deus”. Daí resultam os namoros traídos, os divórcios, a violência doméstica, os pensamentos suicidas, as crises de identidade, até do ponto de vista sexual, tudo problemas que as pessoas lhe apresentam. E que muitas atribuem logo, com toda a facilidade, a uma “possessão do demónio”. Lembra o caso de um menino hiperativo que os pais julgavam possuído pelo espírito do bisavô e que bastou começar a praticar natação intensiva para libertar toda a sua energia e ficar “curado”.

Para tudo isto contribui também “a falta de solidez da fé, a proliferação de novas seitas e das correntes espíritas, a exploração económica por pessoas sem escrúpulos, até em programas de televisão, a mediatização rápida da desinformação, a cada vez maior falta de valores de referência”. É por isso que se difundem como vírus os jogos como os dos copos ou dos lápis, tendo já chegado até ele cerca de uma dezena de jovens aterrorizados por não conseguirem livrar-se do “Charlie”. “Brincam com coisas sérias e depois não têm bases de fé ou de mera formação que lhes permitam saber lidar com os medos e com os fantasmas que eles próprios criam”, afirma.

O padre João também está convencido de que “a sociedade atual favorece as doenças nervosas e psíquicas, por todo o género de ofertas e solicitações que conduzem a ritmos de trabalho exagerados, à falta de tempo para si, para os outros e para Deus, ao abandono da vida cristã”.

Ainda assim, considera que nem tudo é do foro da psicologia e estas mesmas condições são um campo aberto à atuação do demónio: “Talvez em metade das cerca de 500 pessoas que atendo por ano, vejo sinais de uma ação do mal que contribui para os problemas concretos que enfrentam”.

 

Possessão demoníaca?

2015-07-21 demonios3Dos milhares de casos que atendeu, Joaquim Dias refere que “talvez em meia dúzia se possa falar de possessão do demónio”. São pessoas que não suportam olhar um símbolo religioso, que falam línguas desconhecidas, que têm convulsões ao entrar numa igreja ou em ouvir, simplesmente, falar em Jesus Cristo. “Mas não foi preciso chegar ao exorcismo”, bastando a conversa de acolhimento, a “terapia da oração” e o encaminhamento gradual para o regresso à vida cristã e, sobretudo, aos sacramentos.

Estes são os casos excecionais em que a pessoa tomou deliberadamente a opção de se afastar de Deus e servir o diabo, muitas vezes através de ritos de “vudu” e outras práticas satânicas. “As pessoas tomam essa decisão e é normal que as forças do mal acabem por se apoderar delas; é como uma lavagem cerebral em que a opção continuada pela escuridão acaba por as impedir de conseguir ver a luz”, afirma.

Também o padre João Pedro refere que “só quem adere livremente ao diabo é que poderá ser possuído por ele, uns dois ou três casos em cada mil”, ou então “alguém a que Deus permita essa provação como caminho de santificação futura”, como é conhecido da história de alguns santos. Mas considera outras formas de o demónio atingir a liberdade de ação da pessoa, que poderão ser mais numerosas: “Todos somos tentados, no que chamamos ataques ‘normais’ do diabo, mas há ataques extraordinários, como a infestação diabólica, o envolvimento ou vexação e a obsessão”.

Assim, tem por hábito usar a oração de libertação, “que não é um exorcismo (não se dão ordens ao diabo), mas sim um pedido dirigido a Deus para que liberte a pessoa do mal”, na linha carismática. “Mesmo quando se trata de uma doença e aconselho o respetivo acompanhamento médico, não deixo de rezar pela pessoa, pois Deus será sempre uma ajuda para a sua cura”.

Os casos em que desconfiou de uma possessão, encaminhou-os para o padre Sousa Lara, exorcista da diocese de Lamego, a quem já ajudou nesse serviço. E defende que deveria haver este cargo na Diocese, “para que as pessoas tivessem a possibilidade de recorrer à Igreja quando suspeitam de ação maligna, em vez de irem ao de outra diocese e até ao estrangeiro, para não falar já no recurso a bruxas e curandeiros ou cartomantes”.

Sobre o assunto, Joaquim Dias acha que os raros casos não justificam um exorcista, na linha do que tem defendido a Diocese em diversas ocasiões, nomeadamente, através de declarações do vigário geral, padre Jorge Guarda.

 

Deus tem o poder

A conclusão comum é a de que Deus é o único absoluto e todo-poderoso, e quem a Ele se entrega está livre de vir a cair nas mãos do demónio, “uma simples criatura como nós”. “Deus tem poder sobre tudo e, claro, também sobre o diabo, bastando o nosso arrependimento sincero e desejo de voltar a Ele para recebermos a força e a sapiência para enfrentar todos os problemas”, considera Joaquim Dias.

Este leigo sublinha, no entanto, a necessidade de maior formação na fé, para que as pessoas tenham essa noção. “Os sacerdotes têm uma especial responsabilidade em conhecer mais estas realidades e a sensibilidade necessária para esclarecer e acompanhar os fiéis em dificuldades de natureza espiritual e psíquica, sobretudo para os ouvir e acolher com respeito e seriedade”. Isto porque “se não encontrarem resposta dentro da Igreja, vão procurar outros locais e pessoas que os exploram e confundem ainda mais”.

Mas essa resposta “não pode ser mágica, como a que muitos vêm procurar na ‘energia’ de Fátima, tem de ser fundada na certeza do amor de Deus e numa vida sacramental que alimente a relação sincera com Ele”.

O padre João Pedro também está convencido disso e afirma que é nesse espírito que assume esta missão: “Jesus mandou-nos batizar, evangelizar, curar e expulsar demónios, pelo que os padres não podem realizar só metade da sua missão apostólica”. Sobre o assunto, considera ainda que “os sacramentos é que são os grandes tesouros que Deus oferece à salvação das pessoas” e conclui: “quem tem fé esclarecida e vida cristã séria não precisa de ter medo do diabo”.

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