Perfil da irmã Ângela Oliveira

Ângela Oliveira é religiosa da congregação da Aliança de Santa Maria (ASM). Tem 23 anos e é natural de Guimarães.

Na Diocese, colabora no arquivo diocesano, com Movimento Católico de Estudantes (MCE) e integra, desde o presente ano pastoral, a equipa do Serviço de Pastoral Juvenil. Em conversa com o PRESENTE, falou da descoberta da sua vocação, marcada pelo questionamento e pela dúvida, que se edificou na certeza do horizonte que sempre esteve presente: a sua entrega a Deus. Cita um verso de Fernando Pessoa para definir o seu discernimento vocacional: “Para ser grande, sê inteiro”. Foi na certeza desta “inteireza”, que disse sim à vida consagrada.

Ângela Manuela Ribeiro de Oliveira tem 23 anos e é natural de Guimarães. É a mais nova de quatro filhas. “Fui a última esperança de rapaz! Mas agora já há um neto.” Reconhece que, de entre as irmãs foi, por ser a mais nova, a mais mimada. Teve uma infância muito serena e tranquila, num percurso que apelida de “normal, numa família católica, com marcas de relação com Deus”, que lhe transmitiu a fé como herança. Nas viagens mentais que faz ao passado, relembra sobretudo imagens concretas que a marcaram. “Recordo a peripécia que era a ida à Missa ao domingo. O meu pai no carro à espera das cinco mulheres.” Evoca a memória para lembrar a assiduidade na Missa dominical, em família. À boleia desta lembrança, vem também a das viagens que fazia em família. Nota-se que se sente confortável a avivar o passado, mas não conseguimos distinguir se o brilho dos olhos vem das memórias, se do facto de falar da família. Provavelmente, de ambas.

Um período de escolhas difíceis

A jornada pelo passado percorre os anos até aos dias em que ajudava a mãe a “assear” a igreja, como se diz no Minho. “A minha mãe ornava uma imagem do Sagrado Coração de Jesus quinzenalmente e eu acompanhava-a e envolvia-me naquilo, sentia-me cúmplice dela.” O avô, que era sacristão e a avó que, na sua devoção, se esforçava por manter a oração diária do Rosário em família, são apenas alguns pormenores que acalentaram a proximidade da irmã Ângela à Igreja. Nesta altura, Deus ainda se circunscrevia à ideia do “Altíssimo e era aquela imagem distante” a quem pedia ajuda para proteger a família e para ajudar nos testes.
Já na adolescência, vê-se interrogada com a vocação da vida consagrada. Lembra um período de escolhas que lhe foram difíceis, nomeadamente sobre o curso secundário a seguir. A opção por uma área de ensino não foi fácil, conta, até porque a vontade de querer aprender de tudo um pouco já vinha de trás. “Quando era pequenina, queria ser pintora, pianista, professora.” Decidiu-se por ciências, mas a escolha perdurou apenas por dois anos, altura em que mudou para artes. O gosto pelo desenho e pelas artes performativas falaram mais alto e os esquissos que ia fazendo nos cadernos de biologia, traçavam uma nova escolha. Anulou as disciplinas específicas e estudou para os exames da área que escolhera, concluindo o ensino secundário em artes visuais.
Foi a par desta mudança que investiu mais no gosto que sempre teve por teatro, começando a frequentar um curso. “O ser humano tem tendência para ser o protagonista do palco da sua vida, mas será tão mais feliz se apontarmos os focos a Jesus e O colocarmos no centro das nossas vidas”, faz questão de dizer. Irmã Ângela gosta de, mentalmente, estabelecer estas relações e, à medida que nos vai contando o seu percurso, vamos percebendo as ligações que vai sublinhando.
Ângela nunca se desligou da vida paroquial e foi uma adolescente ativa: fez o percurso catequético de 10 anos, andou num grupo de jovens e chegou a ser leitora. Queria ser leitora para se comprometer, mas o compromisso apresentava desafios que nem sempre conseguia cumprir. A par dos estudos em Guimarães, foi alimentando novas amizades, chegando a integrar um outro grupo de jovens.

Uma vocação que foi crescendo

O processo de discernimento vocacional foi progressivo, afiança. “Eu já tinha visto irmãs, uma ou outra vez, lá em Guimarães, mas nunca me tinha envolvido, até que surgiu um contacto mais próximo, aquando da entrada da minha irmã de sangue na congregação da Aliança de Santa Maria.” Fala de Bernardete, sete anos mais velha que ela. Tinha então 13 anos e começou a participar em encontros juvenis, organizados pela congregação. A indiferença inicial foi-se convertendo, gradualmente, em interesse crescente. “Quando regressava dos encontros, tinha sempre mil e uma coisas para contar à minha família e sentia que cada participação, mexia cada vez mais comigo.”
Descreve uma experiência intensa e marcante, que a fez desconstruir a ideia de um Deus distante e a ajudou desvelar um Deus que estabelece relações pessoais. “O meu conhecimento da Aliança foi muito marcado pela relação com as irmãs e por este encontro com Jesus, através de uma mediação, propiciada pelos encontros que frequentava”. Em cada encontro era “esvaziada de tudo”, até de preconceitos, conta, e a cumplicidade que sentia naquele lugar, fazia-a sentir-se bem. Começou então a questionar-se, primeiro pelas coisas aparentes. “Como é que elas conseguem ser tão alegres, tendo quase nada e que é que estará por detrás de toda esta alegria na entrega?”. “Ao constatar toda esta felicidade e proximidade, comecei a questionar-me sobre o que é que Ele quereria para mim”. Foi nesta introspeção, “que ao mesmo tempo transtorna e cativa”, que descobriu a vocação como um processo de felicidade e realização pessoal. “Comecei a perceber que era uma questão de inteireza… Ter cabeça, coração, pernas, mãos, boca, tudo para Deus e para os outros!”
A oração diária e a ajuda de uma irmã foram fundamentais neste período, recorda. A vontade de ali estar e de lá voltar era um dos sinais mais evidentes de que a sua vocação se cumpria na vida consagrada. “Houve uma altura em que os encontros já não chegavam e comecei a sentir necessidade de mais. Era mesmo um enamoramento e já não me consegui imaginar fora dali.”
Um momento que considera ter sido marcante no seu processo de discernimento foi a morte de um amigo, num acidente de viação: “Tive um abanão que me fez pensar no quanto a vida é frágil e breve, que me despertou para a importância de descobrir o meu lugar e de não ‘defraudar’ Deus.”

Um caminho com altos e baixos

Tomou então a decisão de, após o 12.º ano, entrar para a Aliança de Santa Maria. Embora tivesse tido uma perceção ainda em jovem da vocação consagrada, não foi por isso que deixou de viver as coisas com mais intensidade, revela. Até à decisão definitiva houve altos e baixos, recorda. Nesta altura, começou a trabalhar a tempo parcial e o dinheiro que ia juntando permitia-lhe experimentar outra independência. Houve também vezes em que “o coração bateu mais forte e sentiu “borboletas na barriga”. “Surgiu um amigo muito especial e cheguei a ponderar a possibilidade de um namoro.” Por outro lado, o gosto pelo teatro e a possibilidade de ingressar num curso superior nesta área faziam-na repensar a decisão que estava para tomar. Lembra uma altura em que se dedicava a muitas atividades. Mas, quando à noite regressava a casa, no silêncio do seu quarto, em oração, percebia que, de facto, a sua vocação se cumpria na vida consagrada.

Uma vocação que se cumpre

Atualmente está na preparação para os votos perpétuos. Fez os primeiros votos há dois anos, esteve em Coimbra durante um ano e veio depois para Fátima. Na nossa Diocese, colabora nos serviços acima mencionados. Neste período, que também é de formação, está ainda a frequentar o 3.º ano da licenciatura em Ciências Religiosas, em Fátima. Na sua Congregação, a irmã Ângela tem também oportunidade de pôr em prática o dom que tem para o teatro. Ainda recentemente, ajudou a produzir uma encenação feita pela congregação, baseada na exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”. “Ele dá-me ‘cem vezes mais’ e é bom ter a possibilidade de poder pôr a render aquilo que Ele me deu ao Seu próprio serviço. A melhor pessoa para estar aqui a falar da minha estória era Ele.” É assim, na “inteireza” da sua pessoa, como gente da Igreja, que Deus a realiza e se realiza.

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