Perfil de António Martins da Silva

Nasceu na primeira hora do dia 14 de junho de 1944, sessenta minutos após o dia de Santo António, mesmo assim, quiseram os pais que perpetuasse na sua graça o nome do padroeiro.

António Martins da Silva faz questão de acompanhar a data de nascimento com a do dia em que foi batizado, 9 de julho do mesmo ano. Este sentido de pertença à família Católica confirma-se numa participação dedicada na ação da Igreja. Uma presença que se concretizou na paróquia onde vive e nos diferentes sítios por onde esteve, durante os 70 anos de vida que hoje soma. Frequentou o seminário, mas foi no Matrimónio que cumpriu a vocação que Deus tinha para ele. Os dois filhos, Sara e Tiago, são sinal manifesto da família que fundou com a esposa, Dulce, há 33 anos.

António Silva nasceu e cresceu em Vale Vazão, “um dos lugares mais pequenos” da paróquia de São Vicente, Aljubarrota. Mesmo assim, era uma das povoações que mais crianças tinha em toda a freguesia. “A minha mãe teve seis filhos e as minhas três tias tiveram oito, cada uma.” Ser criança, naquele tempo, não era sinónimo imediato de brincadeira e a infância de António Silva foi disso exemplo. Aos 11 anos, apesar da quarta classe terminada com distinção, foi trabalhar para o campo com pai, que pôs o cuidado do gado à sua responsabilidade. Tratava dos animais, levava-os à fazenda, para transportar o que fosse necessário, e ia à feira ajudar a vendê-lo. “Quando as pessoas viam um miúdo à frente das vacas, era sinal que eram mansas e assim valiam mais uma nota”, conta.

Na altura pertenceu à Cruzada Eucarística, deu catequese, ajudou à Missa, foi militante da Pré-JAC da Ação Católica Rural. A época era pré-conciliar e o pároco pediu-lhe que o ajudasse na leitura em português, de algumas partes da Missa Tridentina, celebrada em latim. “Ajudar à missa, antes do Concílio Vaticano II, não tem nada a ver com as exigências do rito atual. A gente mudava o missal, tocava a sineta, levantava a casula na altura da elevação, acendia as velas e preparava o altar… Enfim, era muito diferente ajudar à Missa naquele tempo e agora”, recorda.

A entrada no seminário

Cumpriu a árduo labor do campo até aos 19 anos, altura em que o pároco, padre Adelino Nunes, falou ao seu pai da possibilidade de ingressar no Seminário Diocesano. Dispostos a suportar os encargos que o convite exigia, estava a família “Ângelo”, residente na paróquia, que se voluntariou prontamente a custear a entrada de António no seminário. Com a ajuda dos benfeitores e a resposta positiva do pai, aceitou o desafio feito pelo pároco e ingressou no Seminário Diocesano. Esteve ali até ao início do quinto ano, altura em que teve de parar os estudos por motivos de saúde.

O dia da célebre vinda do Papa Paulo VI a Fátima, em 1967, foi marcante na vida de António, pelo contacto que teve com o agora beato. Na altura, os seminaristas da Diocese foram chamados a acolher o Papa com cânticos. Recorda em especial o momento em que Paulo VI saía do Santuário. “Os seminaristas estavam na escadaria e o Papa, na saída, ia acenando em despedida. Quando se aproximou de mim, estiquei o braço e toquei-lhe no ombro.” A aproximação não durou muito tempo e foi logo afastado com um empurrão de um polícia, mas “valeu a pena”, diz, saudoso.

Chegou mais tarde e escapou à guerra

O serviço militar, que tinha sido adiado por cinco anos aquando da entrada no seminário, aparecia agora como uma obrigação. Foi para o exército e como teve boas classificações, pode optar por vir para o quartel sete, de Leiria. Na altura, Portugal travava uma guerra colonial e, na maior parte dos casos, o final do serviço militar significava a mobilização para o conflito ultramarino. Terminada a especialidade em telecomunicações no Porto, a boa classificação permitiu-lhe, uma vez mais, a escolha do local seguinte. Optou por ir para a Base da Ota, perto de Alenquer. A viagem até lá iria marcar a sua vida.

“Eu preenchi uma das duas vagas que abriram para a Base da Ota. Fiz a viagem do Porto, num comboio antigo, e só lá cheguei às oito da manhã. O outro colega, que também tinha entrado, fez o percurso de Jipe, a partir de Tancos e chegou às três da manhã. Na Base, já tinham definido que o primeiro que chegasse era mobilizado para a guerra. Como fui o último a chegar, safei-me!”. Ficou na Base, onde colaborou com o capelão e outros colegas na dinamização da ação litúrgica, na base aérea e nas paróquias mais próximas, onde chegou a dar catequese e fazer conferências.

O pai faleceu pouco tempo depois de terminado o serviço militar. “Quando o meu pai morreu, deixou dois filhos para criar e dois para casar. Como a minha mãe estava sozinha, ajudei a criar os meus irmãos mais novos.”

A vocação no Matrimónio

Terminado o tempo da tropa, emigrou para França, onde esteve apenas três meses, tendo regressado a Portugal após um convite para trabalhar na EDP, em Alcobaça. Trabalhou nos serviços de eletricidade durante 30 anos, até à pré-reforma. Foi no atendimento ao público que conheceu a sua esposa, com a qual casou em 1981. A vida conjugal permitiu um aprofundamento mútuo na fé. “Tenho uma família que me faz feliz”, diz com orgulho. O filho mais novo, Tiago Silva, é um dos seminaristas da Diocese e está no último ano do Seminário Maior, em Lisboa.

Durante este tempo, colaborou na ação pastoral paroquial naquilo que pôde. Foi responsável da catequese e catequista, dinamizou a Liturgia e foi Ministro Extraordinário da Comunhão. Dedicou também tempo à sua formação, tendo marcado presença, durante 25 anos, na escola diocesana de catequistas e completou o currículo da primeira Escola de Leigos da Diocese. Assumiu as funções de delegado da paróquia no Congresso de Leigos e no Sínodo Diocesano.

Uma vida de fé

Quando se reformou, foi para casa cuidar das suas coisas. “Na altura pensei: pronto, daqui a três anos já tenho tudo feito! Agora com 70 anos, tenho ainda mais coisas para fazer…” (risos)

Na prática da sua vida religiosa, António Silva fez questão de preservar a assiduidade na Eucaristia dominical e a oração do Rosário. Esta conduta foi-lhe transmitida pela família, em especial pela mãe. A figura materna é central na vida de António Silva. “A minha mãe é algo de extraordinário e exemplar porque, sem ter nada, deu-me tudo e continua a dar.”

No final da conversa, recordamos o que disse no prelúdio da conversa: “Eu não tenho nada de importante para dizer”. O percurso de vida que ouvimos e que agora contamos não confirma a proposição inicial, pelo contrário, faz descobrir a herança do elogio que agora dá à mãe: uma vida de fé exemplar, edificada na entrega à Igreja e à família.

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