PARA QUE ELE CRESÇA

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Alguém me confessou um dia, mais em tom de desabafo que de revolta, que não conseguia perceber porque é que Deus não protegia melhor os seus amigos: às vezes dava até a impressão de que só para os seus amigos as coisas corriam tão mal.

Lembrei-me do que se conta de Santa Teresa; mas pareceu-me que seria mais adequado evitar exemplos de grandes carismas, que poderiam falsear o diálogo de início.

Depois de escutar, com a simpatia e atenção que me inspirava o seu tom dolorido, dei a resposta que me pareceu mais adequada à situação descrita; mas não pude deixar de concluir: de facto, Deus é um mistério, e acreditar n’Ele será mergulhar continuamente no seu mistério.

A conversa prolongou-se, tentando ambos, não utilizar o mistério para fugir à questão, mas inseri-lo no mistério mais amplo da normalidade da presença de Deus na vida corrente de cada um: vida que, independentemente de qualquer circunstância externa, ainda que condicionante, tem sempre como objectivo último a glória de Deus, de cujo crescimento tem de estar ao serviço.

Foi uma conversa longa, serena, de troca de ideias que se completavam, ou se corrigiam mutuamente, quando era caso disso.

Utilizámos o trecho de São Lucas que se lê na missa da festa do Imaculado Coração de Maria, inserindo-o no seu contexto mais vasto de Lc 2, 22-52.

Como sabem os devotos do Rosário, estes trinta versículos do capítulo segundo do terceiro Evangelho contêm os episódios que costumamos meditar no quarto e quinto mistério dos chamados “mistérios gozosos”; designação que talvez nem sempre se entenda correctamente, porque o sentido bíblico de “gozo” (latim “gaudium”), pouco ou nada tem a ver com o significado corrente desta palavra, no português actual.

Pondo de lado outras questões, sem, no entanto, lhes negar a importância que têm, no conjunto da narrativa, centro a minha meditação precisamente no último versículo:

“Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”:

E não posso deixar de recordar que estamos perante as primeiras súplicas do Pai-nosso, que é a única oração programática ensinada por Jesus aos seus discípulos: “Santificado seja o vosso nome, venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa Vontade”.

Para um hebreu crente, a única novidade incluída nas palavras de Jesus, é que se chame Pai a Deus; mas é uma novidade que altera tudo, porque proclama precisamente a fraternidade universal, como dirá São Paulo:

“Por isso dobro os joelhos diante do Pai, do qual procede toda a paternidade, nos céus e na terra” (Ef 3, 14-15).

“E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52).

Crescia como homem, apressamo-nos a explicar, e não afirmamos nada de errado; mas é necessário estar atentos, para não cairmos em erros muito antigos, como o daqueles que, esquecidos de que em Jesus há uma só pessoa- pessoa divina – não aceitam que se diga que Maia é verdadeiramente Mãe de Deus.

Ma voltemos ao texto de Lucas e procuremos tirar um pouco mais de vida do mistério que o atravessa, do princípio ao fim, até do ponto de vista da estrutura narrativa:

– Quando se cumpriu o tempo da sua purificação… Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.

Maria e José, que são os protagonistas centrais deste quadro onde Jesus cresce, como diz o texto, “em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”, bem vistas as coisas, não fazem nada de extraordinário é um casal de judeus crentes que, como tais, cumprem todos os pormenores da Lei a seu respeito; há até um pormenor que passa muitas vezes despercebido e que, afinal explica a resposta de Jesus registada em 2, 48: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?». Ou seja: Jesus sabia, por informação dos próprios pais, que não tinha sido resgatado, já que isso era função do pai biológico.

Não vamos demorar-nos com a importância cristológica, ascética e pedagógica deste pormenor, mas é bom ter presente que também ele entra na revelação do grande mistério da normalidade com que Deus encarna na normalidade dos homens.

Claro que, como é fácil de perceber, a palavra “normalidade” se refere aqui ao que obedece à verdade intrínseca da natureza humana, cuja raiz é o próprio Deus.

Espero que se perceba que não estou de modo nenhum a pôr em dúvida a fé e a devoção com que se celebram estes mistérios relacionados com a infância de Jesus.

Pelo contrário: estou apenas a oferecer uma pista de aprofundamento desses mistérios para vermos melhor como neles se revela, não apenas um pormenor, mas a essência de todo o mistério da Encarnação:

Só Deus nos pode salvar; mas salva-nos de modo humano: sem deixar de ser Deus, assume a existência humana em tudo o que não contradiga a dignidade da natureza divina. E disso faz parte a dor e o sofrimento, que não se buscam por si mesmos, mas também não se evitam à custa da fidelidade.

Talvez não tenhamos descoberto ainda tudo quanto se revela sobre a vocação comum dos baptizados, nesta parte final do capítulo:

“Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse.

Depois desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 50-52).

Apesar de não compreendermos tanta dor que acompanha a nossa existência, guardar o coração aberto como Maria e manter-se fiel: isso sim, fará crescer o Reino, Jesus “em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens”.

(Fátima, 25.06.28/29)

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