“Depois disto, Jesus, sabendo que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!»
Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca.
Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 9, 28-30).
Com o intuito exclusivo de continuar, ajudado pela escrita, os pensamentos da minha oração desta manhã; oração que partiu da tentativa de viver como dirigido a mim próprio o mandamento divino – “Ide e proclamai que está próximo o reino dos Céus” – , fui pensando que há muita maneira de “ir” – Ele diz peremptoriamente, “ide” – sair, mesmo do encanto de uma especial presença do sobrenatural.
Deixo aos teólogos, exegetas e místicos tudo o no exercício correcto da sua missão disseram e dizem sobre os textos que nesta reflexão matinal servem de quadro ao meu pensamento; pensamento livre como o deles, certamente menos competente, mas do mesmo modo desejoso de não perder a fé que a todos nos anima.
Este Jesus que diz aos Apóstolos «Ide e proclamai que está próximo o reino dos Céus», é, de facto, o mesmo que contemplo na cruz dizendo, «Tenho sede»:
Os relatos evangélicos não são claros quanto à identidade de quem tenta ministrar o vinagre ao agonizante, afinal, cumprindo um costume, que se realizava quando havia condições para isso.
Alguns, olhando o contexto, pensam que foi um dos soldados que vigiavam o cumprimento da sentença, que não teria entendido o grito do agonizante; e descarregam sobre ele juízos que vão do extremamente negativo, aparentemente ridículo, à beleza do último gesto de humanidade para aquela vítima de uma justiça a todos os títulos iniqua.
São Marcos diz claramente que quem descobre primeiro a identidade do condenado, partindo do modo como morre, é o chefe do piquete que, em nome do poder civil, vigia a execução da sentença:
“O centurião que estava em frente dele, ao vê-lo expirar daquela maneira, disse: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!»” (Mc 15, 39).
Não interessa muito saber o que quis significar exactamente aquele funcionário civil ao proclamar abertamente o que descobria no cumprimento fiel do seu dever profissional. A mim interessam-me dois aspectos fundamentais: primeiro a humana sensibilidade com que, ao contrário dos curiosos que assistiam ao martírio do Calvário, ele realizava a sua missão. Depois, e isto ultrapassa todas as outras questões, esta é, na perspectiva narrativa de Marcos, a resposta do Espírito Santo a qualquer pergunta que se faça sobre Jesus Cristo.
Resposta que, note-se bem, só na Cruz está clara, sem qualquer tergiversação ou argumento falacioso.
“Tenho sede”, pronunciado por um agonizante que morre crucificado, pode também significar muitas coisas; mas quando esse agonizante é um homem que é Deus, tem de abranger todo o mistério do Seu amor criador e redentor: mistério no centro do qual a nossa fé descobre o mistério da Encarnação.
Foi Ele que disse aos Apóstolos: «Ide e proclamai que está próximo o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça; dai de graça».
Ide e proclamai que está próximo o reino dos Céus!
Passando de lado a questão do dom, cuja tradução, a partir do original grego, poderia talvez ser revista num sentido mais exacto do que aquele que habitualmente se deduz considerando “doreán” como advérbio, omitindo essa questão, apesar de pessoalmente achar que é importante, temos de admitir que faz parte da essência do ser discípulo, o permanente esforço por evitar qualquer tentativa de instalação em formas concretas de vida: para utilizar uma linguagem há pouco entrada em uso, na maior parte dos casos, incorrecto, atrever-me-ia a dizer que o ADN cristão será o único que funde, nas devidas proporções a resistência com a resiliência.
Afinal, trata-se de não esquecer em circunstância nenhuma da minha vida, que aquele Jesus que ordena aos discípulos: «Ide e proclamai que está próximo o reino dos Céus», é o mesmo que, agonizando na Cruz, onde morre pela salvação do homem, disse, segundo o relato do discípulo que sempre viveu pendente d’Ele, depois de verificar que fora inteiramente fiel ao amor com que se fizera um de nós, disse: TENHO SEDE.
Claro. Como não havia de ter sede quem agonizava em tais circunstâncias? Foi, afinal, o que entenderam os que estavam ali só para ver e chacotear.
Entendeu doutro modo o “discípulo amado” e os milhões que, ao longo dos séculos o tomaram como figura da sua própria condição.
Tenho de o tomar também eu, se não quero pertencer ao número dos baptizados que São João Crisóstomo considera apóstatas.