PARA ALÉM DA HISTÓRIA CONTADA

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Estamos nos últimos anos do reinado de Tibério, numa pequena cidade dos confins orientais do Império – província da Síria. Cidade chamada Jerusalém e cuja história plurimilenar, tirando as guerras que por ela passaram ao longo dos séculos, vale sobretudo como símbolo religioso de um povo, esse, sim, disseminado pelos vastíssimos espaços que medeiam entre o vale dos Grandes Rios e as costas do Atlântico Norte e ocidental.

Cidade que, pelo menos desde David – por volta do 1000 da nossa era -, continuamente caindo e reerguendo-se, espezinhada por diferentes povos, em luta uns com os outros, apesar do seu nome – cidade da paz – parecia um símbolo de tudo o que a guerra tem de pior.

Há um mundo imenso de mitos, lendas, eventos e acontecimentos ligados à história desta cidade que, sem aquela série de textos que milhões de crentes consideram sagrados, não se teriam de modo nenhum guardado na memória dos povos.

De passagem direi que, segundo creio, eu que faço parte desse número, diria que o tratamento abusivo, por vezes herético, a que e têm sujeito esses textos, com particular gravidade nos nossos dias, é um sinal evidente de que Satanás, não podendo evitar essa memória, tenta por todos os meios corrompê-la.

Que espanto?

Essa é afinal, a sua obsessão, desde o Paraíso: corromper a memória, na sua função mais preciosa, que é servir de elo pessoal entre o Criador e a criatura.

Daí a necessidade de aprender a não confundir nunca a história com a historiografia.

Jerusalém, aquela que interessa à minha memória, apesar de ter sofrido, como todas as outras cidades, as grandezas e as misérias do urbanismo, foi sempre mais pequena, muito mais pequena, do que a vastidão dos pensamentos que o seu nome despertava no coração dos povos.

Sofreu o que sempre sofreu, ao longo dos milénios, tudo aquilo cujo desenvolvimento, não só não era correspondente, como se ia extinguido na proporção directa do seu crescimento.

E aquilo que hoje a põe à cabeça dos noticiários, será também um símbolo da desumanidade do crescimento alheado da dignidade primordial do homem.

Voltemos à pequena cidade da Judeia, que, dada a política religiosa contemporizadora de Roma, vivia um equilíbrio instável, aproveitando-se da vigilância das grandes famílias sacerdotais, que procuravam conter os nacionalismos de modo a não provocarem o poder civil.

Claro, que neste esforço, não faltavam as quezílias internas, nascidas de interesses pessoais e de escola. Estes, os de escola, sempre mais tirânicos e, como tais, desumanizantes.

Em tom de reflexão pessoal, vem-me à ideia que isso acontecerá também pela distracção dos crentes que, talvez por rezarem pouco os textos, vão aceitando como óbvio o que se conta como tal, quando, de facto, não o será tanto.

Porque o que é óbvio para as ciências humanas – falo das ciências e não das especulações ideológicas – pode não ser tão óbvio para uma leitura crente, que, respeitando integralmente os dados seguros da ciência, só com a fé poderá atingir o significado profundo desses dados.

Mas é necessário não confundir a fé com uma solução de facilidade, uma espécie de panaceia para tranquilidade da mente. Já que, bem vistas as coisas, quem tem de se fazer sempre mais perguntas, é quem lê o texto sagrado como quem reza.

Para continuarmos no domínio das imagens, eu diria que a fé será uma espécie de unguento com que Deus ajuda o leitor crente a avançar na descoberta do sentido do texto, como uma mensagem a que se responde com um compromisso vital.

Aparentemente, pelo menos, será mais fácil decidir que não se acredita, do que aceitar que tudo tem um sentido: e, a partir daí, cultivando o máximo respeito pela razão, fazer o que ela nos pede, ou seja, que não desistamos nunca de perceber em que é que tal sentido exige um compromisso vital de cada um.

Se a Igreja nunca aceitou a linha teológica que procurava distinguir o Cristo da Fé do Cristo da História, não era por menosprezo da historiografia correcta, cientificamente bem fundamentada: foi, antes, porque se essa historiografia não ajudasse a descobrir o Cristo que, para além dela encontra a fé, ou essa historiografia não era correcta, ou estávamos a tomar por fé o que, de facto não o era.

Aliás, de certa forma, trata-se do mesmo princípio usado no caso da hipotética oposição entre e a fé a ciência: o que pode acontecer é tomarmos por fé o que o não é, ou, o que é muito frequente, chamar ciência ao que não passa de hipótese.

Um e outro caso cada vez mais frequentes, num mundo como o nosso, em que a ignorância religiosa e a progressivo esvaziamento da formação filosófica das novas gerações criam o terreno fértil para todas as manipulações nesse campo.

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