Papa Francisco apresenta “Amoris Laetitia”

“Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais.” Esta é uma das primeira frases da Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Amoris Laetitia”, que o Papa Francisco apresentou ao mundo no passado dia 8 de abril. Pedimos uma “leitura” a D. António Marto, a dois responsáveis de serviços e a dois casais da Diocese, como ajuda para entrarmos num documento cuja riqueza só o aprofundamento pessoal poderá revelar.

 

A Alegria do Amor para ler (e viver) em família

“Nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais.” Esta é uma das primeira frases (n.º 3) da Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Amoris Laetitia”, que o Papa Francisco apresentou ao mundo no passado dia 8 de abril. E será uma das chaves essenciais para a sua leitura, assim concretizada: “Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”.

Os que esperavam uma “revolução” dogmática ou normativa terão ficado insatisfeitos, porque o Papa não vai por aí. Ou satisfeitos, porque deixa uma porta aberta a diversas aplicações da lei. Os que esperavam uma firme defesa da norma terão ficado satisfeitos, ou insatisfeitos, pelos mesmos motivos. Esta aparente contradição resolve-se com um novo modo de ser Igreja, bem à maneira do Papa que promulgou um Ano da Misericórdia. Sem “relativizar” o erro ou “aliviar” a responsabilidade pessoal pela busca da verdade, coloca a Igreja como mensageira de um Deus que é amor e, ao invés de condenar, procura ajudar a levantar. É, sem dúvida, uma responsabilidade bem maior do que o simples cumprir de regras.

Quanto aos conteúdos, o próprio Papa faz o resumo (n.º 6): “Começarei por uma abertura inspirada na Sagrada Escritura, que lhe dê o tom adequado. A partir disso, considerarei a situação actual das famílias, para manter os pés assentes na terra. Depois lembrarei alguns elementos essenciais da doutrina da Igreja sobre o matrimónio e a família, seguindo-se os dois capítulos centrais, dedicados ao amor. Em seguida destacarei alguns caminhos pastorais que nos levem a construir famílias sólidas e fecundas segundo o plano de Deus, e dedicarei um capítulo à educação dos filhos. Depois deter-me-ei sobre um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral perante situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor nos propõe; e, finalmente, traçarei breves linhas de espiritualidade familiar”.

Que mais se pode pedir? Dirigida “aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fiéis leigos”, esta Exortação “sobre o amor na família” é, portanto, para ler por cada um de nós, retirando de cada frase – em linguagem clara e acessível a todos – o alimento para a vida concreta.

Foi essa leitura, ainda que limitada pelo escasso tempo decorrido até ao fecho da edição, que pedimos ao Bispo D. António Marto, a dois responsáveis de serviços e a dois casais da Diocese. Em resposta direta às perguntas, ou em jeito de testemunho, são esses textos que partilhamos com os leitores, como ajuda para entrarem num documento cuja riqueza só o aprofundamento pessoal poderá revelar.

Luís Miguel Ferraz

 

Entrevista a D. António Marto

“Maneira nova de ser pastores”

1. Qual a maior surpresa que encontrou na Exortação Apostólica?

Fiquei agradavelmente surpreendido ao ver como o Papa Francisco, de modo genial, introduziu uma mudança da disciplina sem pôr em causa a doutrina sobre o matrimónio e a família. Exemplifico em três aspetos que mais me tocaram.

Fiel à grande tradição do ensinamento da Igreja, o Papa inova desde logo no estilo, na abordagem e na linguagem, que vão mais longe do que uma abordagem meramente abstrata e moralista. Isso percebe-se logo no título: trata-se de dar testemunho da beleza e da alegria do amor em família.

Numa linguagem direta, simples e envolvente, conduz-nos pela mão a descobrir a beleza das nossas famílias concretas, imperfeitas, frágeis, mas extraordinárias porque sustentadas pelo amor e pela graça do Senhor e chamadas a percorrer um caminho de crescimento com paciência, compreensão e generosidade.

O segundo aspeto a salientar é a mudança do olhar e da atitude pastoral da Igreja relativamente às situações familiares complexas, imperfeitas que devem ser tratadas com “a lógica da misericórdia pastoral”. Trata-se do acompanhamento pastoral próximo, compreensivo, realista, encarnado, em ordem a uma maior integração na comunidade cristã, de modo que ninguém se sinta excomungado ou excluído. As palavras-chave são: acompanhar, discernir, integrar a fragilidade.

Concretamente, para os divorciados civilmente recasados (para quem não foi possível a declaração de nulidade), não estabelece uma regra geral porque cada caso é seu caso, não são todos iguais. Mas propõe percursos (itinerários) personalizados de discernimento pessoal (caso a caso) e pastoral, com vários momentos, para a melhor integração na vida da comunidade com a ajuda da Igreja. E aqui o Papa abre mesmo uma janela para a possibilidade da “ajuda dos sacramentos” da Reconciliação e da Eucaristia em certos casos (cf. nota de rodapé n. 351).

O terceiro aspeto é o acento que põe na responsabilidade da consciência: “A Igreja é chamada a formar as consciências, não a pretender substituí-las”.

2. Qual a sua apreciação global ao documento?

Estamos diante de um grande texto de sabedoria, com um olhar de realismo e ternura sobre a família em todas as suas componentes, cheio de verdades práticas para a vida do casal e da família e de muitas e preciosas intuições e propostas pastorais.

Creio que podemos dizer que esta exortação apostólica constituirá a Magna Carta da pastoral familiar para o futuro. O Papa confia-a às comunidades cristãs para aprofundarem e amadurecerem os conteúdos e lembra o dever de elaborarem propostas mais práticas. Ficamos com a sensação de que o Papa Francisco inicia um processo que ele mesmo quer que abra novos caminhos através da prática pastoral das Igrejas particulares. Peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine e acompanhe neste caminhar!…

3. E qual o maior desafio que a Exortação coloca à Igreja?

Antes de mais, requer uma conversão pastoral em ordem a propor uma pastoral positiva, acolhedora, que torne possível, sobretudo aos jovens, descobrir o valor e a beleza do matrimónio cristão como obra prima e graça de Deus para constituir uma família feliz e também o aprofundamento gradual das exigências do Evangelho. Por sua vez, isto requer também uma autocrítica, pois, como diz o Papa, “muitas vezes agimos na defensiva e gastamos as energias pastorais multiplicando os ataques ao mundo decadente, com pouca capacidade de propor e indicar caminhos de felicidade” (n. 38).

Outro desafio é assumir e encarnar “a lógica da misericórdia pastoral” já referida, através da arte do acompanhamento próximo, acolhedor e compassivo e do discernimento, o que é bem diferente da aplicação imediata de regras sem mais. Desta lógica faz parte uma maneira nova de ser pastores por parte de padres e bispos, o que reclama também uma conversão pastoral.

 

Entrevista ao padre José Augusto Rodrigues, director do Departamento de Pastoral Familiar

Um hino à alegria de ser família

1. Qual a maior surpresa que encontra na Exortação?

Apesar de não ser propriamente uma surpresa, visto ser este o “estilo” a que o Papa Francisco já nos habituou, o que mais me alegrou foi o “afeto” que colocou em cada tema e a maneira “próxima” como descreveu a realidade familiar (“Cruzemos então o limiar desta casa serena, com a sua família sentada ao redor da mesa em dia de festa.” n.º 9), como falou da educação dos filhos (“Eis as perguntas que faço aos pais: «Procuramos saber ‘onde’ os filhos verdadeiramente estão no seu caminho? Sabemos onde está realmente a sua alma? E sobretudo, queremos sabê-lo?»”. n.º 261), ou do seu sofrimento nos casos de separação dos pais (“Peço aos pais separados: nunca, nunca e nunca tomeis o filho como refém”. n.º 245).

E não apresenta “receitas fáceis” para problemas complicados. Quando, no capítulo VIII, aborda as situações de fragilidade, afirma: “Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra as vidas das pessoas” (n.º 305).

2. Qual o maior desafio que a Exortação coloca à Igreja?

O maior desafio que esta Exortação coloca à Igreja pode resumir-se na palavra “discernimento”. Deve passar a ser esta a marca distintiva duma Pastoral Familiar “fundamentalmente missionária, em saída, por aproximação”. (n.º 230). Como Igreja, somos convidados a promover um “discernimento pastoral cheio de amor misericordioso, que sempre se inclina para compreender, perdoar, acompanhar, esperar e, sobretudo, integrar” (n.º 312).

3. Que apreciação global fazem ao documento?

O Papa Francisco confiou à Igreja um hino à alegria de ser família e um convite a que ela se torne uma fonte inesgotável da Misericórdia de Deus para a Igreja e o mundo: “Avancemos, famílias; continuemos a caminhar!” (n.º 325).

 

Entrevista a Natália e Hugo Menino, casal da Pastoral Familiar

“Um olhar misericordioso e positivo”

1. Qual a maior surpresa que encontram na Exortação?

Uma surpresa foi a referência de que para algumas questões, em cada país ou região, deverão ser encontradas soluções mais correspondentes e adequadas às tradições, culturas e desafios locais. Isto significa que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, os princípios e a resposta aos problemas não devem ser globalizados de forma abstrata, sem ter em conta a realidade concreta das comunidades.

A Exortação tem ainda algumas surpresas em termos de temas focados, pela sua dificuldade, polémica e mediatismo, mas que tendo sido escrita pelo Papa Francisco, de alguma forma já antevíamos, ainda que com expetativa. Parece-nos que a Exortação aborda aspetos difíceis e controversos com clareza, abertura e alguma frontalidade. São alguns exemplos a questão da educação sexual e as situações irregulares, relativamente às quais, porque frágeis, Francisco diz ser necessário «acompanhar, discernir e integrar» (n.º 229).

2. Qual o maior desafio que a Exortação coloca à Igreja?

A Exortação dedica-se pormenorizadamente à componente pastoral da família, a partir das conclusões dos dois sínodos e das catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II, sublinhando o papel das famílias como agentes de evangelização. Esta perspetiva deve ser central em termos pastorais, já que é no seio da família, na convivência quotidiana e no exemplo, que transmitimos os ensinamentos de Cristo. Como refere o Papa Francisco, «Toda a vida da família é um ‘pastoreio’ misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (n.º 322). Adicionalmente, a Exortação salienta a importância de valorizar e apoiar: 1) a caminhada dos noivos de preparação para o matrimónio; 2) os casais nos primeiros anos do matrimónio; 3) os casais em crise; 4) os abandonados, separados e divorciados. Este apelo lança desafios importantes a todos nós que somos Igreja de Cristo.

3. Que apreciação global fazem ao documento?

O documento apresenta a família como uma realidade diversa, complexa e rica, e não como um modelo ideal. Neste sentido, a abordagem do Papa Francisco é profundamente prática e pragmática, olhando para a(s) realidade(s) familiar(es) na sua existência concreta. Fá-lo de forma aberta, com um olhar misericordioso e positivo. A densidade espiritual ilumina esta visão prática e concreta, lançando pistas e desafios a todos os casais e a todos os agentes de pastoral familiar sobre os quais urge pensar e refletir.

 

Pedro Valinho Gomes, director do Centro de Cultura e Formação Cristã da Diocese de Leiria-Fátima

Aponta os alicerces de um projeto de vida

Ainda que o texto necessite de ser digerido e que o próprio autor não aconselhe «uma leitura geral e apressada» (n.º 8), atrevo-me a uma brevíssima primeira impressão, ainda com os sabores do texto lido.

A exortação cumpre desde logo com o que é chamada a ser: uma exortação, que nos impele à reflexão, sim, mas sobretudo ao empenho pastoral. Ainda que o documento recolha o trajeto sinodal, é também ele fonte de reflexão e trabalho para as comunidades cristãs. Trata-se, por isso, num sentido muito próprio, de uma reflexão inacabada, que aponta os alicerces de um projeto de vida, mas deixa espaço para, em Igreja, e no concreto da experiência humana, se refletir nas melhores formas de acompanhar as famílias nos seus esforços espirituais e morais e no seu desejo de se sentir e de ser Igreja. Não se deve, portanto, esperar um manual que dá respostas casuísticas a todas as preocupações que atravessam a família, ou uma «nova normativa do tipo canónico, aplicável a todos os casos» (n.º 300). As comunidades são desafiadas à elaboração de «propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais» (n.º 199). E, portanto, o dom da exortação apostólica é também responsabilidade eclesial.

De resto, ao colocar um documento sobre a família na esteira do amor e da alegria, Francisco não pretende envolver o tema em tons românticos. Ele sabe bem o quanto o amor é exigente. E, ainda assim, não deixa de sublinhar que ele é espaço de dom e de acolhimento, que tem na sua dimensão erótica um «dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos» (n.º 152). Porque a família é projeto de vida em comum, no qual «cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (n.º 322). E, precisamente por isto, «não basta […] uma genérica preocupação pela família nos grandes projetos pastorais» (n.º 200). Os cristãos são convocados a «apresentar as razões e os motivos para se optar pelo matrimónio e pela família, de modo que as pessoas estejam melhor preparadas para responder à graça que Deus lhes oferece» (n.º 35).

Talvez o grande desafio que este documento lança, muito para além das pseudopolémicas, seja a convocação a um confronto de todos esses temas com o núcleo do evangelho. Confronto esse que há de ser traçado com o tom da hospitalidade (porque a Igreja é também um inclusivo «hospital de campanha») e da esperança (porque «a dança conduzida com aquele amor jovem, a dança com aqueles olhos iluminados pela esperança, não deve parar», n.º 219).

 

Carmo e António Pedro, casal das Equipas de Nossa Senhora

“Avancemos, famílias;
continuemos a caminhar!”

O aspeto que mais nos surpreendeu foi a simplicidade da escrita, reveladora da capacidade do Papa para dizer com muita clareza o que de mais profundo somos e vivemos e aquilo a que aspiramos. Fala com alma, com grande sabedoria e sensibilidade, de todas as realidades da família.

Como esta Exortação é o culminar de um caminho iniciado com a preparação alargada do Sínodo de 2014, de certa forma estávamos à espera de um texto normativo (manual de procedimentos a seguir…). Mas não, devolve à Igreja (a nós) a responsabilidade para “acompanhar”, “discernir” e “integrar” as situações que causam sofrimento: “temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição” (n.º 296). “Trata-se de integrar a todos, para que (cada um) se sinta objeto duma misericórdia «imerecida, incondicional e gratuita»” (n.º 297).

Na nossa perspetiva, o maior desafio que esta Exortação traz é a implementação de uma pastoral abrangente (ainda fracamente assumida), que se empenhe em “consolidar os matrimónios e assim evitar as ruturas” (n.º 307), mas que, ao mesmo tempo, se responsabilize por todas as situações das “famílias feridas”.

Globalmente, a “Alegria do Amor” abraça a família em todas as suas dimensões e encoraja-nos: “Avancemos, famílias; continuemos a caminhar!… Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (n.º 325).

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