O TODOS DE JESUS

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Estou bem consciente de que, em si mesma, uma fórmula litúrgica não exprime um dogma de fé; e talvez a pressa com que se corrigiram algumas delas, apesar das intenções ecuménicas de quem promoveu tal correcção, não fosse, de facto, a mais urgente, no mundo pluricultural e plurirreligioso em que vivemos.

Estamos absolutamente de acordo que é necessário evitar, não apenas nas expressões litúrgicas, mas em todo o discurso marcadamente cristão, palavras e expressões que firam quem compartilha connosco a vida social e política, negando-lhes assim o direito universal à liberdade de pensamento.

E o cristão, mais do que ninguém, tendo presente que o próprio Jesus, ao morrer pela Verdade, pediu perdão para quem tão mal o tratava, tem de dar exemplo de tolerância: tolerância que nasce do respeito pelo outro e não de motivos que, às duas por três, negam essa mesma Verdade: a aceitação dos que erram tem de crescer na proporção da diminuição do erro em que laboram.

Mais: se o meu irmão erra, cresce o meu dever de aprofundar uma amizade que só não se estiola e morre, quando, em vez de fazer dela motivo para conhecer melhor o amigo, a transformamos em arma de conquista, tentando impor pela força dos argumentos e das armas – que podem ir do punhal aos drones -, o que não seduz senão pelo brilho da verdade, que, mais do que nas palavras, tem de se ver nos gestos.

Será talvez porque nos esquecemos disto que muitas das alterações feitas na Liturgia – e falo apenas das que obedecem às indicações da autoridade competente – , não têm surtido o efeito esperado: os nossos templos, apesar de certas aparências, continuam a encher-se de crentes e os santuários a atrair milhões de devotos; mas a verdade é que o ambiente social e político se vai acomodando cada vez mais a estruturas legais que recusam, pelo menos na prática, toda a referência a valores transcendentes.

Para encurtarmos razões: um grande Papa dos nossos dias, fez duas afirmações, em épocas diferentes, mas desenvolvendo, para quem queira entendê-las, o mesmo pensamento de uma lucidez inultrapassável, “se a Igreja deixasse de ser perseguida, era sial de tinha traído a sua missão”; “caminhamos para um mundo em que os cristãos não passarão de uma minoria”.

São duas frases que também não podem tirar-se do seu contexto e que contêm palavras, nesses contextos, com significados muito especiais.

Eu só queria ligá-las a uma exortação de Jesus muitas vezes mal explicada, segundo creio: “Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão” (Mt 20, 28).

E mais adiante, dirá:

“Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tende cuidado com os homens: hão-de entregar-vos aos tribunais e açoitar-vos nas suas sinagogas; sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, para dar testemunho diante deles e dos pagãos.

Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis nem como haveis de falar nem com o que haveis de dizer; nessa altura, vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós. O irmão entregará o seu irmão à morte, e o pai, o seu filho; os filhos hão-de erguer-se contra os pais e hão-de causar-lhes a morte. E vós sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo” (Mt 24, 16-22). (Ver também: Mc 13,9-13; Lc 21,12-19; Act 20,29-31).

Que Deus quer a salvação de todos os homens (HOMINES > “homens”/“mulheres”), é uma verdade de fé definida, que não podemos pôr em dúvida sem cair na heresia; mas acontece que nem as palavras, aparentemente tão claras de 1Tim 2, 3-7, dado o contexto em que aparecem, eliminam o mistério dos que, de facto, não se salvam.

Houve quem, na linha de Lutero e Calvino, procurasse eliminá-lo, criando a teoria, em si mesmo absurda, da predestinação discricionária, segundo a qual Deus criaria uns para a salvação, outros para a condenação eterna.

Contra tal discriminação, a Igreja insiste na fé apostólica, que considera a salvação um dom absolutamente gratuito de Deus, e a condenação uma recusa livre, por parte do homem, desse dom.

A tradução portuguesa do novo Missal Romano, na preocupação legítima de facilitar a compreensão dos textos, por parte de quem, sem outros esclarecimentos, os escuta nas celebrações, afasta-se algumas vezes do texto original, nem sempre adoptando, entre as versões possíveis, as que seriam mais fiéis à coerência dos textos e da fé.

Claro. Para mim será sempre mais seguro o texto oficial, aprovado pela autoridade competente; por isso não o modifico em caso nenhum, nem mesmo quando as rubricas permitem ao celebrante alguma alteração.

Por exemplo: a fórmula oficial da consagração não traduz o texto de Mateus em dois pontos que me parecem importantes para vermos como a Eucaristia não teria sentido sem a Encarnação; mas nunca me pareceu que pudesse alterar esse texto: limito-me e recitar a fórmula oficial, pensando no texto grego, que é o que a comunidade primitiva punha na boca de Jesus: “Tomai todos e comei; isto é o meu corpo, entregue por vós”: “tomai e bebei dele todos… este é o cálice do meu sangue; o sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por muitos”.

Por onde se segue que o “todos” de Jesus, tem um sentido muito específico, que não se pode confundir com o “todos” da nossa linguagem corrente.

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