O que fazemos fala do Deus em que acreditamos

Por estes dias, um amigo publicava na timeline da sua rede social uma pergunta. Pelo que “jurava” e pelo que conheço dele, era uma questão honesta e sem intuitos provocatórios:

— Porque é que os temas da sexualidade animam muitíssimo mais discussões acaloradas entre católicos (e entre católicos e não católicos) do que qualquer questão sobre a fé, o papel de Deus ou a relação entre o ser humano e a transcendência?

Não confirmei, mas imagino que a interrogação tenha vindo à baila na sequência da publicação do despacho n.º 7247/2019 no dia 16 de agosto estabelece as medidas administrativas para a implementação do previsto no nº1 do artigo 12º da Lei nº 38/2018. Há uma semana, portanto, e em pleno mês de agosto e com o circo mediático a virar-se para a greve dos motoristas. Sucintamente, a lei, conforme o texto publicado, refere-se ao “direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais de cada pessoa”. Fui acompanhando alguma opinião publicada sobre o assunto e, como já é — fastidiosamente, diga-se — hábito, a discussão acaba polarizada, com a Igreja a ser colocada num dos extremos. Já é conhecida sobremaneira a posição católica acerca da ideologia do género o que não significa que se perceba o que se entende por ideologia do género e os fundamentos da posição da própria Igreja. 

Mas, mesmo que a questão levantada tenha essa (estranha e extemporânea) promulgação da lei como pano de fundo, a verdade é que traz outras reflexões, bem mais importante para o cristão. 

Ser cristão implica falar de Deus. Com quem acredita e com quem não acredita. Tudo normal: falamos do que o coração sente. A pergunta questiona se os cristãos realmente falam de Deus, se Deus faz parte do seu discurso e do seu vocabulário. Não tem necessariamente a ver com uma ideia de proselitismo ou de testemunho discursivo. Aprendemos que Deus é inefável e que, por mais que tentemos discorrer sobre a sua natureza, ficamos sempre confinados aos nossos conceitos e à nossa própria natureza. Deixamos essa conversa para os teólogos e exegetas. Todavia, e esta foi uma conclusão pessoal, o que não falta são oportunidades e espaços onde falamos de Deus. Basta pensar nos movimentos de espiritualidade que a Igreja propõe e, acima de tudo, a ação litúrgica que une a comunidade dos fiéis para falar, ela própria, de Deus e, sobretudo, com e para Deus.

Outra reflexão proporcionada pela questão tem a ver com “colocar” Deus na nossa vida, não sob a forma de discurso, mas através da práxis, através das opções que se fazem e dos valores que se abraçam. E nesta maneira de compreender o ser cristão, nasce a resposta a uma segunda questão para a qual somos desafiados: 

— Porque se tenta fazer crer que as discussões à volta da sexualidade são “religiosas”, quando se fala de tudo menos de religião?

A religião, qualquer que seja, é transversal a todas as áreas do comportamento humano. A religiosidade de cada um, mesmo sendo do foro pessoal enquanto opção, há-de ter consequências ou implicações na sua vida quotidiana: sociais, políticas, culturais e, claro, até na forma como se vive a própria sexualidade. Quem acredita, leva as implicações da sua fé para a sua vida e, por inerência, para as discussões que existem no espaço público. 

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