O QUE FALTAVA ÀS CONTAS DOS DISCÍPULOS

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“Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe:

«Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?».

Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer.

Respondeu-Lhe Filipe:

«Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um».

Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro:

«Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?»” (Jo 6, 4-9).

Todos sabemos o que aconteceu depois, tantas vezes isso aparece e é comentado na catequese litúrgica da Igreja.

Na minha reflexão desta manhã, começo por recordar a quem não tenha reparado bem neles, os gestos do personagem central de toda a cena, que é Jesus Cristo.

Temos primeiro o pormenor do tempo: estava próxima a Páscoa; depois, não se diz que Jesus pregava, mas que se inquietou com a fome daquelas pessoas e que conversa sobre o assunto com os discípulos.

Também se insinua que estes já teriam feito as suas contas sobre o que seria preciso para matar a fome a tanta gente, e que o Mestre os interroga, não para saber o que deve fazer, mas para ajudá-los a perceber que a solução do problema tem de fazer parte das suas inquietações como discípulos.

Fiquemos com o pormenor das contas de Filipe e André; André que talvez já tivesse feito alguma investigação sobre as existências disponíveis, mas com o mesmo sistema de contagem de Filipe, que com ele se ficara na visão puramente materialista do que estava em jogo, no quadro dos cálculos verificáveis só a partir dos números.

“Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus”, diz João, no início do seu relato.

Talvez não seja de todo anódino o facto de o evangelista dizer que o que estava próximo era a festa dos judeus: porque em João nenhuma festa dos judeus é referida como um facto jornalístico, mas como um sinal de que finalmente chegou o reino messiânico que anunciava.

E apetece-me perguntar, antes de irmos adiante: será que a nossa Páscoa se distingue verdadeiramente da “festa dos judeus”, como eles a viviam no tempo de João? Ou, o que será ainda pior, apenas como um acontecimento cuja facticidade se aproveita para actividades que não só não têm em conta o mistério, mas estão ao serviço de um novo paganismo, mais consumidor e feroz que do tempo dos Apóstolos?

Filipe e André, bem vistas as coisas, pelo menos segundo as indicações do relato, que fala de para cima de cinco mil pessoas, fizeram cálculos cuja seriedade não pode ser posta em dúvida.

O problema é que, quando nos sentimos interpelados por um desafio desproporcionado aos meios humanos de que dispomos, antes de nos atermos à seriedade das contas que fizemos, precisamos de analisar correctamente o ponto donde partimos: se queremos ajudar os outros na lógica daquilo em que acreditamos, ou somos impelidos por um ilegítimo desejo de protagonismo.

Não sei bem porquê, mas a atitude de Filipe e André perante a multidão esfomeada, traz-me à memória outro episódio narrado por João – a unção de Betânia – onde há também, pelo menos um discípulo que faz cálculos; ainda que aqui estejamos perante a generosidade, ou falta dela, do discípulo em relação a Jesus, a capacidade de calcular com critérios puramente humanos é a mesma e prescinde igualmente de aspectos fundamentais da missão messiânica do Mestre, que, tanto num caso como no outro, se identifica com os pobres, ou, de um modo geral, com todos os que são atingidos mais profundamente pelos acidentes da vida ou as desigualdades nela cultivadas pelos que sempre põem o ter acima do ser.

As contas de um discípulo, como discípulo, não poderão nunca, sob pena de trair o essencial da sua missão, limitar-se ao quadro dos números, por exactos que sejam.

Menos mal que André, apesar do limitadíssimo das suas descobertas, encontra algo que, apesar de tudo, não se encerra na cruel frieza dos números; e o facto de falar disso ao Mestre, insinua, pelo menos, que existe alguma disponibilidade de entrega, por parte do possuidor desse algo.

O tal rapazito era com certeza das relações pessoais de André, que poderia ter conversado com ele sobre o problema que tinham diante.

Pessoalmente, sempre experimentei um grande encanto e enorme admiração por aquele rapazito que, no dizer um pouco descoroçoado de André, tinha apenas “cinco pães de cevada e dois peixes”.

Encanto e admiração tais, que, quase involuntariamente, sou tentado a considerá-lo o personagem mais importante da cena, depois de Jesus.

De qualquer modo, se a minha leitura está correcta, trata-se de um importantíssimo pormenor que precisa de ser mais estudado pelo que introduz como elemento essencial do sentido eucarístico do relato joanino da multiplicação dos pães:

Começando pelo fim: as multidões serão saciadas pelo pão do Céu, que é Cristo, entregue à Igreja; esta, que, por sua vez, Lhe leva os dons daqueles que, dentro ou fora dela, vivem numa comunhão sincera, as alegrias e tristezas do mundo presente.

Quem sabe se por este caminho não poderíamos entender melhor e tornar mais aceitável e amado o mistério eucarístico, com tudo o que com ele se relaciona.

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