O pecado, a contraluz da misericórdia

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É um hábito cultural muito próprio do cristianismo ocidental designar por Páscoa todas as celebrações do Mistério da Ressurreição de Cristo.

Como acontece com qualquer tradição cultural, religiosa ou não, também nestas encontramos uma teia de conceitos, práticas e costumes, tão vasta e densa, que será sempre difícil falar da Páscoa sem cairmos nalgum equívoco, mais ou menos perigoso, consoante a distância que afasta o termo comum do seu significado original.

Será sempre preciso analisar o âmbito do diálogo, para ver em que medida os termos que vamos usar cabem nele, sem deturpar a verdade que deu origem, tanto à palavra como à sua extraordinária fortuna na linguagem dos povos e das culturas.

Mas eu não venho falar da Páscoa, senão de forma muito indireta.

E gostaria de frisar, antes de mais nada, que na liturgia cristã ocidental – falo desta porque é a que melhor conheço, ainda que também de modo muito sumário – nesta liturgia, de facto, o centro das celebrações pascais não é a Ressurreição de Cristo, mas o Mistério da sua Paixão, Morte e Ressurreição, integrado numa fé que nos liga a Abraão… para nos limitarmos à metáfora que, da História da Salvação, constitui a história do povo hebreu.

A designação não é minha; mas parece-me inteiramente correta e ajuda-me a perceber duas coisas, que, entre muitas outras, temos grande tendência a esquecer: que a religião não se pode confundir com a fé, e que esta, apesar de divina, se transmite de geração em geração, através da linguagem humana: palavra e costumes, sempre em si mesmos equívocos.

A contraluz da misericórdia

É tendo isso em conta, que tomo como ponto de partida, três textos emblemáticos: o primeiro da Sagrada Escritura, o segundo da Tradição patrística, o terceiro da antiga teologia ocidental.

Diz São João, na sua primeira carta: «Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós. Se confessamos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a iniquidade. Se dizemos que não somos pecadores, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está em nós» (I João 1, 8-10).

De um sermão de Santo Agostinho: «Se o pecado ficasse impune, seria uma injustiça: por isso, tem de ser punido. Isto te diz o teu Deus: “O pecado tem de ser punido; por ti ou por mim.” Por isso, o pecado é punido pelo homem, quando se arrepende, ou por Deus, quando é julgado» (Sermão 19, 2).

Finalmente, São Beda Venerável (século VIII): «Assim como os que foram libertados da escravidão do Egito por Moisés entoaram ao Senhor um cântico triunfal, depois de terem passado o Mar Vermelho e de ter sido submergido o exército do Faraó, assim também nós, depois de termos recebido no Baptismo o perdão dos pecados, devemos agradecer dignamente os benefícios celestes. De facto, os egípcios que afligiam o povo de Deus, e por isso eram símbolo das trevas e tribulações, representam bem os pecados que nos acompanhavam, mas que foram lavados pelas águas do Baptismo».

Há muitas décadas que se vem repetindo, em ambientes cada vez mais alargados da pastoral contemporânea, que o que importa é falar da graça, não do pecado; e recentemente, manipulando uma ou outra revelação particular e a pregação dos últimos Papas, nomeadamente João Paulo II e Francisco, usa-se e abusa-se da palavra “misericórdia”, como pretexto para esbater, quando não abolir totalmente, a doutrina sobre o pecado.

Afinal, qual o sentido mais profundo da palavra misericórdia? Como será possível falar da graça, sem falar do pecado? Como poderá um cristão sugerir que não se fale do Inferno, quando toda a literatura bíblica usa as referências ao Paraíso como o contrário da tragédia de uma recusa total e definitiva do dom gratuito de Deus?

A Páscoa, se a inserimos em toda a tradição crente judaica e cristã, em certo sentido também muçulmana, que há um mundo iníquo, que escraviza o homem como criatura de Deus; escravatura da qual o mesmo Deus o liberta, mas só se ele aceita as condições de tal libertação.

A Páscoa sem a Cruz, mesmo com milhares de túmulos vazios, não tem qualquer sentido. Aliás, como o não teria a Cruz, se nos não mostrasse o próprio Deus, morto por nós, depois de um julgamento duplamente injusto.

Respeito a opinião daqueles que em algum tempo não muito longínquo, decidiram pôr nas igrejas uma cruz com Jesus ressuscitado. Respeito-a, porque, em si mesma, está pejada de boas intenções; mas não me parece que corresponda ao essencial da fé pascal de judeus e cristãos.

Estas reflexões vão um pouco longas. Tão largas referências ao Baptismo e aos pecados nele perdoados, impõem-me alguns esclarecimentos, que guardo para quem me queira ler mais tarde.

(Fátima, 25.05.5/6)

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