O ÓBULO DA VIÚVA

Veio-me ter às mãos, já hoje, um texto encantador, pela sua simplicidade e pelo seu conteúdo: um texto em que o Papa Francisco, no seu estilo tão peculiar, dá alguns conselhos para vivermos bem esta Quaresma dos confinamentos e dos estados de emergência, com tantas normas, que a gente não sabe onde acaba a prudência e começa o medo, ou se ambas não se confundem de tal maneira que o que vem ao de cima é o seu carácter desumano.

Mas vamos a ser positivos, como o Papa!

Nas suas considerações há, entre outras coisas, a sugestão de quinze actos concretos para se praticar a caridade ao longo dos quarenta dias de preparação da Páscoa.

Li, reli e voltei a ler as palavras do Santo Padre, tão marcadas por um tom paternal, que me chega o medo de não se dar por elas, num mundo como o nosso, que, como ainda não há muito, ele próprio o disse, num documento que merecia maior expressão na comunicação social, sofre de uma aflitiva orfandade.

Depois olhei para mim, com uma certa inquietação: e tu, assim condicionado pelas circunstâncias, que vais fazer nesta Quaresma, para viver de modo mais operacional, em pensamentos e acções concretas, a caridade, que é sempre amor de Deus e do próximo?

Pensei que não tinha nada, que as palavras do papa não eram para mim: aquilo que ouço tantas vezes sobre a condição de utente de um lar de terceira idade, assaltaram-me como revoada de aves agoirentas que acordam e perturbam. Tive de sacudir a cabeça, porque com a memória do que ouvi, não reparava no que tinha à mão, sobretudo de bom, positivo: porque já é tempo de ultrapassarmos o preconceito que nos leva a pensar que só agrada a Deus o que nos desagrada a nós.

E fui passando as horas e os minutos do meu dia, que me trazem, a cada momento a experiência das dependências em relação a quem cuida de mim, dependências que são cada vez maiores e cada vez mais teimosas em fazer-me crer que não tenho nada para dará dar.

A tentação, às vezes cultivada por familiares e amigos, que, sempre muito bem intencionados, teimam em pôr o acento no que fizemos e não podemos repetir, no que gostariam que fizéssemos, se não estivéssemos tão velhos e diminuídos de faculdades; a tentação de estar continuamente a olhar para trás, para o passado, como se não tivéssemos um presente.

Afinal, que têm os outros que nós não tenhamos?

Todos temos apenas o presente, que é o único momento em que Deus Se cruza connosco para dar ao nosso tempo valor de eternidade.

Parece pouco, o que temos para depositar no tesouro divino, donde saem as jóias de que precisa o mundo, tão carenciado de tudo.

Afinal, pouco ou muito, é o que pode servir-nos de chave para abrirmos o coração de par em par e não guardarmos nada para nós, nem sequer a saudade do que já não nos pertence.

Abro o Evangelho e leio:

“Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro a observar como a multidão deitava o dinheiro na caixa. Muitos ricos deitavam quantias avultadas. Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante. Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros. Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver»” (Mc 12, 41-44).

E puxo pelo comentário dum santo dos nossos dias, que eu tive a felicidade de conhecer e cujos ensinamentos me fazem companhia desde há várias décadas:

“Não viste os fulgores do olhar de Jesus quando a pobre viúva deixou no Templo a sua pequena esmola?–Dá-Lhe tu o que puderes dar; não está o mérito no pouco nem no muito, mas na vontade com que o deres” (Caminho, 829).

É isso: na vontade, que é a faculdade do amor, com que se dá! Seja o que for que tenhas para dar, que é tudo aquilo em que entras como pessoa; mesmo que a porta por onde passa a tua oferta se encerre nas paredes de um confinamento, nos corredores e quartos de um lar de idosos, na cama de um hospital.

Tem de ser tudo, com um amor que o ultrapasse: o óbulo da viúva não chamou a atenção de Jesus, por ser pouco ou muito, nem por ser de uma viúva: foi porque era tudo o que ela tinha e como tal, revelava um amor sem limites.

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