O CANSAÇO DIVINO

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“Naquele tempo, Jesus exclamou: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve»” (Mt 11, 28-30).

Dobrado o meio da semana, sensivelmente no início da segunda metade do chamado Tempo Comum, o nosso Directório Litúrgico indica como evangelho ferial, este treco de São Mateus que nos transmite, além do mais, um desfio de Jesus que nunca ninguém, antes ou depois d’ELE, ousou alguma vez fazer.

De facto, só Deus pode desafiar-nos desta maneira.

Desafio que, ao longo da história, uma vez aceite, tem animado milhões de pessoas a braços com todo o tipo de tormentos e seduções: às vezes, muitas vezes mesmo, até com certas alegrias, que, por não termos com quem partilhar, podem cair nas malhas do tentador.

“Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.”

Há tanta gente com necessidade de escutar – ouvir, mais com o coração do que com os ouvidos – este desfio/convite de Jesus!

Mas, que o Senhor me perdoe, esta manhã, o que me prende a atenção é sobretudo uma cena, também meditada muitas vezes, mas nem sempre relacionada com este desafio, que, pelo menos quanto a mim, tem nele a sua razão e a sua luz mais profunda:

Diz assim o início do capítulo quarto de São João:

Quando Jesus soube que chegara aos ouvidos dos fariseus que Ele conseguia mais discípulos e baptizava mais do que João – embora não fosse o próprio Jesus a baptizar, mas sim os seus discípulos – deixou a Judeia e voltou para a Galileia.

Tinha de atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob.

Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia” (Jo 4, 1-6).

Todos sabemos que há muito que dizer desta viagem de Jesus para a Galileia, passando pela Samaria, que era o caminho mais curto, mas também o mais perigoso.

Há muito que dizer, aproveitando os pormenores, que João não cuidava por mero acaso.

Passo-os adiante, incluindo a referência à hora da chegada junto do poço, referência que, aliás, serve de introdução a um dos diálogos mais belos e teologicamente mais ricos que encontro no quarto evangelho.

Diz o texto sagrado: “Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço”.

Tenho escutado e lido coisas muito belas sobre este cansaço do meu Deus, percorrendo os caminhos dos homens, às horas mais difíceis do dia, em busca das almas, tantas que, como a Samaritana, não se dão conta que é d’Ele que precisam.

Coisas belas e correctas; aliás, se não fossem correctas, não as tomaria como belas.

Mas eu hoje, ao reparar na dedicação e às vezes tão evidente cansaço, das pessoas que, desde madrugada, até altas horas da noite, cuidam de mim, vejo-me a braços com uma certa mágoa por não ser capaz de mostrar-lhes, nem a elas nem a tantos milhares de pessoas com igual dedicação e cansaço, que o seu cansaço é verdadeiramente divino.

E é divino, porque ao fazer-se homem, um de nós, Deus assumiu todas as nossas alegrias e cansaços, trabalhos, sofrimentos e dores.

Não se trata de pensamentos pios, reflexões baratas, para consolar corações infelizes: é a coerência mais lógica da fé no mistério da Encarnação

O mistério que fundamenta a afirmação do Concílio Vaticano II, segundo a qual a Eucaristia é fonte e raiz da vida interior… ou seja, da vida que o Baptismo recria, por Cristo, no seio da Igreja.

Um mistério que, salvo melhor opinião, está um pouco diluído na actual fórmula da consagração, que parece sugerir em Jesus outro corpo e outro sangue que não aquele que sempre foi o seu: o corpo e o sangue de um homem que é Deus e a Deus é imolado, como dádiva de toda a pessoa que O não rejeite.

Com Jesus – não digo como Ele, mas com Ele – parar à beira do poço, cerca do meio dia, no momento mais duro, quando tudo aperta comigo, para que experimente a extensão das minhas limitações, é um gesto divino que pode também ser apostólico, de evangelização:

É ou não verdade, que aquela pobre mulher, forçada a procurar água em tais condições – e outras piores, apenas insinuadas – descobriu, através do cansaço e da sede de Jesus, que afinal a água de que tinha necessidade era outra?

Há tanta gente cansada, que poderia fazer do seu descanso momentos de encontro com quem precisa de alguém que lhes abra horizontes de liberdade, vias novas para fazer das fragilidades armas de reconquista para o amadurecimento humano!

(Fátima, 25.07.17)

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