Nota pastoral: Celebração da Páscoa na família e nas paróquias em tempo de pandemia

A pandemia que cobre o mundo como nuvem escura ameaçadora obriga-nos a permanecer em casa e dá-nos oportunidade para redescobrirmos o que é essencial à nossa vida e convivência.

“Jesus entrou e ficou com eles” (Lc 24, 29)

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Caros diocesanos, irmãs e irmãos no Senhor Jesus.

A pandemia que cobre o mundo como nuvem escura ameaçadora obriga-nos a permanecer em casa e dá-nos oportunidade para redescobrirmos o que é essencial à nossa vida e convivência. Permite-nos também aprofundar a identidade e a experiência da família como Igreja doméstica, onde se vive o amor de Deus, se escuta e vive a sua Palavra, se faz oração juntos e se dá testemunho do Evangelho na convivência de uns com os outros e na ajuda aos mais necessitados. 

Nas atuais circunstâncias, em que não é possível celebrar o mistério da Páscoa nas igrejas com assembleias de fiéis, somos convidados a celebrá-lo em casa, nas comunidades familiares. Para vivermos estas celebrações em condições inéditas pode inspirar-nos a experiência dos discípulos de Emaús relatada pelo evangelho de São Lucas (24, 13-35). Desiludidos e tristes com a paixão e morte de Jesus, regressam à sua terra. Enquanto comentam pesarosamente os acontecimentos que presenciaram, são surpreendidos pela presença de Jesus. Não o reconhecem, mas entram em diálogo com ele e ouvem-no. As palavras de Jesus entram nos seus corações e vão fazendo efeito: a tristeza vai dando lugar à confiança e ao ardor. Querem que continue com eles e insistem para que entre na sua casa. Jesus aceita e é ali que evoca a última ceia e se dá a conhecer como ressuscitado. De imediato, regressam à comunidade dos discípulos, em Jerusalém, onde dão testemunho do seu encontro com o Senhor e da alegria que os invade.

Servem-nos de conforto e incentivo as palavras do Papa Francisco que, na recente “oração pela humanidade”, disse: “No meio deste isolamento que nos faz padecer a limitação de afetos e encontros e experimentar a falta de tantas coisas, ouçamos mais uma vez o anúncio que nos salva: Ele ressuscitou e vive ao nosso lado. Da sua cruz, o Senhor desafia-nos a encontrar a vida que nos espera, a olhar para aqueles que nos reclamam, a reforçar, reconhecer e incentivar a graça que mora em nós. Não apaguemos a mecha que ainda fumega (cf. Is 42, 3), que nunca adoece, e deixemos que reacenda a esperança.”

1. Celebrações e gestos pascais em família

“Jesus entrou e ficou com eles”. Este ano somos convidados a reviver esta experiência de encontro com o Senhor nas nossas casas. Convido, pois, cada família a celebrar a Semana Santa no seu lar, envolvendo todos o mais possível: as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos. No sítio da Diocese na internet serão disponibilizados alguns subsídios, sem prejuízo de outros que cada família possa encontrar. Vamos fazê-lo em comunhão com a Igreja diocesana e com as respetivas comunidades paroquiais e de vida consagrada. E rezando também por quantos estão em sofrimento por serem vítimas da pandemia ou preocupados no esgotante trabalho para a combater e cuidar dos doentes. Se o fizermos assim, seguramente o Senhor ressuscitado vai manifestar-se e fazer-nos passar da tristeza e da angústia à alegria e ao ardor de coração pela sua presença viva em cada coração, na família, nas comunidades cristãs e nesta humanidade amedrontada e atribulada em busca de cura e de melhor saúde para todos.

Cada comunidade familiar procure criativamente as formas mais adequadas à sua situação para celebrar a Páscoa. Permitam-me que sugira algumas.

Participar nas celebrações transmitidas pela televisão, rádio ou redes sociais. Escolha aquela que melhor sirva, seja nacional, diocesana ou paroquial. Parem todos e acompanhem fervorosamente com respostas, gestos e cânticos como se faz na igreja. Podem fazer a comunhão espiritual, desejando e pedindo a Jesus que venha ao coração de cada um, como Ele sabe e quer dar-se.

As celebrações na sé, presididas pelo bispo e sem a assembleia de fiéis, serão transmitidas pelo canal youtube da Diocese: na quinta-feira santa, às 18h00, missa da Ceia do Senhor; na sexta-feira santa, às 15h00, celebração da Paixão do Senhor; no sábado santo, às 22h00, a vigília pascal. No domingo de Páscoa, às 10h30, a missa será transmitida a partir da casa episcopal. 

Preparar e fazer juntos a própria celebração doméstica. O Departamento diocesano de Pastoral Litúrgica disponibiliza propostas neste sentido no sítio da Diocese. 

– Fazer um ato de reconciliação. Não sendo possível participar no sacramento da Penitência, a família reúna-se para um momento penitencial. Juntos leiam uma passagem do evangelho (por exemplo: Mt 7, 1-5) e, em silêncio, cada um medite na misericórdia do Senhor, reconheça os próprios pecados e manifeste o seu arrependimento. Depois, em comum recitem a confissão: “Confesso a Deus…”. Se for oportuno, peçam perdão uns aos outros pelas ofensas e omissões mútuas na vida familiar. Terminem fazendo a oração do Pai nosso.

Fazer a catequese às crianças e adolescentes. As celebrações da Semana Santa constituem boa ocasião para os fazer entrar no sentido da Páscoa. Pode partir-se de uma pergunta do género “Por quê esta celebração?” e dar-se uma breve resposta que aponta para a leitura do evangelho que se vai fazer.

Valorizar alguns gestos e sinais: no domingo de ramos, preparar um ramo e enfeitar o crucifixo com verduras; na quinta-feira santa, fazer o jantar com a mesa bem enfeitada e a evocação da última ceia de Jesus com orações e leituras; na sexta-feira santa, fazer a via-sacra dos adolescentes ou outra, propostas pelo Serviço Diocesano de Catequese e um gesto de veneração da cruz (inclinação ou genuflexão); no sábado santo, a vigília pascal pode ser marcada pela leitura do relato da ressurreição, a renovação da profissão de fé batismal e o acendimento de uma lâmpada ou vela, dentro ou fora de casa; no domingo de Páscoa: enfeitar com flores a cruz existente na casa ou fazer uma e pô-la no jardim com uma faixa de tecido branco, acender uma vela, invocar a bênção do Senhor sobre a mesa pascal da família e fazer a saudação de paz do Senhor ressuscitado (A paz do Senhor esteja contigo!).

2. A liturgia pascal na Paróquia 

Celebrações e os respetivos horários: sejam anunciadas aos fiéis para que sintonizem e participem em casa, se forem transmitidas, ou eventualmente façam a celebração familiar à mesma hora.

– Valorização do som dos sinos. Toque em repique festivo, no domingo de páscoa, às 12h00, em todas as igrejas; pode também fazer-se no sábado santo, às 21h30, pouco antes do início da vigília pascal presidida pelo bispo, na sé. Onde os párocos entendam conveniente, pode dar-se o mesmo sinal sonoro na quinta-feira santa, às 18h00, quando o bispo começa a celebração da missa da Ceia do Senhor. Toque a finados: na sexta-feira santa, às 15h00, a lembrar a paixão e morte do Senhor.

Valorização do sinal da cruz colocada no adro da igreja ou noutro lugar público apropriado: enfeitada com ramos verdes, do domingo de ramos à sexta-feira santa; com faixa de tecido branco, no domingo de Páscoa, como sinal da ressurreição.

Bênção pascal: onde for oportuno, revestido de alva e estola branca, o sacerdote poderá sair da igreja e abençoar, da rua, as casas com a água benta da vigília. O ato pode repetir-se em outros dias e lugares, sempre sem prejuízo das recomendações das autoridades de saúde para este tempo de pandemia. É a bênção do Senhor ressuscitado aos homens e mulheres resguardados nas suas casas.

3. O testemunho do amor e da alegria pascal

A celebração pascal manifesta-se não apenas na liturgia e gestos simbólicos. Exprime-se igualmente no amor ao próximo e na irradiação da alegria que o encontro com o Senhor ressuscitado faz brotar nos nossos corações. É por isso importante prestar atenção àqueles que estão perto de nós, sós, tristes, em luto e necessitados de ajuda. O Senhor envia-nos ao seu encontro para lhes manifestarmos um amor concreto. Pode fazer-se por telefone ou outro meio. Se for preciso, ir levar-lhes os bens de que carecem. A caridade em favor dos pobres e de quem sofre tem que permanecer sempre, ainda que no respeito pelas regras de higiene e saúde pública.

Neste tempo de emergência, atendendo ao risco de contaminação dos lares de idosos, é preciso que também as paróquias e os fiéis católicos colaborem para as necessidades eventuais. O presidente da CNIS (Confederação Nacional das IPSS) sugeriu que nas paróquias se identifiquem espaços (casas paroquiais devolutas, salões ou outros) que possam ser usados no acolhimento temporário de idosos, segundo as orientações da Segurança Social. E também que, em ligação com as instituições sociais, se elabore uma lista de voluntários (escuteiros, jovens e outras pessoas) para ajudarem nas que fiquem desfalcadas por motivos de quarentena ou de contaminação de colaboradores.

Os sinais e atos de que falei antes, a saudação e conversa com os vizinhos e o uso dos meios de comunicação permitem-nos levar a outros a alegria pascal, que alivia e enche de confiança nos tempos difíceis que vivemos. Aguardamos pelo tempo, esperando que seja rápido, em que possamos reencontrar-nos, celebrar juntos e cantar a nossa alegria porque o Senhor nos salvou e está vivo no meio de nós.

Votos de uma santa Páscoa de paz em comunhão com o Senhor ressuscitado e com a proteção da Virgem Maria, fonte de consolação e de esperança.

Leiria, 2 de abril de 2020.

† Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

Texto Integral

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