Peço licença para voltar ao tema das orelhas da mula: sinto que tenho de pedir desculpa a quem, por ventura ou má sorte leu o meu último texto, pois levei demasiado longe a minha fantasia, pegando na gruta de Belém – a gruta imaginada por Francisco de Assis, que está na origem dos nossos presépios – transformando-a, sem qualquer pretensão bíblica ou teológica, numa figura material e visível da Igreja.
A Igreja, pela qual, me estremecia o coração na prisão do meu leito, com dores a estorvar-me a prontidão com que os pastores acorreram para ver o que aí se passava; e dei-me conta de que, em vez contemplar o Menino Deus, por meu amor arrumado naquelas palhinhas, estava a aminho de esquecer tudo, exagerando o que tomava por impedimento inoportuno, numa noite de tanta ternura.
Os cantos de Natal, guardados da infância e da adolescência, muito antes da chegada do colonialismo cultural que hoje nos afoga, ajudaram o pensamento a centrar-se mais no interior da Gruta, e confundiram- com os dois Villlancicos, cujo castelhanismo não desfazia a ternura que neles havia descoberto há décadas.
E foi na comparação dos dois poemas, um fixado na humilde ternura da mula, outro queixando-se dela, que me veio a ideia de comparar a Gruta com a Igreja;
Para lhe dar um tom mais português, alterei a figura da mula pela do burrinho e o boi passou a ser uma vaquinha.
Mas o mais importante para mim, num momento em que a alegra só poderia inundar-me se me fixasse em Jesus, muito mais pobre e dependente do carinho dos outros que eu; Jesus, que está no centro mais central da Igreja – passe o pleonasmo – e tenho de ver para além de tudo o que me dói, na alma e do corpo: incluindo o que fazem os outros e me parece às vezes imperfeito, um estorvo, como a vaquinha via as orelhas do burro (nos poemas, as orelhas da mula; o ciúme do boi).
Não. Peço desculpa, a orelhas da mula não serão nuca um símbolo da Igreja, como talvez possam pensar os que, de uma maneia ou de outra, imitam o boi, que não aceita o modo de estar da mula. E empurram-na sob o pretexto de que os impede de ver Jesus.
Para terminar, insisto na advertência: não quis fazer nenhuma interpretação dos dois poemas: dou apenas conta de como o Senhor me ajudou viver aquela noite na solidão do meu quarto de doente, sem rádio nem televisão.



