Aquele tempo, aqui, abrange as quatro décadas centrais do século XX, ou seja, entre 1930 a 1970.
Nesse tempo, Maio, no imaginário do povo cristão, para além do que dizia a ciência empírica da vida agrária rural, er sobretudo o Mês de Maria e das flores. Dizia-se que Abril chuvoso e Maio ventoso fariam o ano formoso, mas era preciso prestar atenção às moléstias que podiam anular as promessas que as temperaturas amenas de Março e Abril haviam trazido: era, por conseguinte, altura de madrugar, aproveitar muito bem o ritmo do nascer e pôr do sol.
Da liturgia pagã, ligada aos mitos da revolução cósmica, conservava-se o costume de fixar à porta dos menos diligentes, que acordavam só depois do nascer do sol, algum sinal de censura humorística; e dizia-se-lhes que ficavam com o Maio, que eu não soube nuca o que significava exactamente.
Era uma brincadeira inocente, que começou a degradar-se estrondosamente nessa época: já não era quem acordava mais cedo que marcava os mais dorminhocos; e, a certa altura, surgiram as brincadeiras de mau gosto, levadas a cabo por grupos de pessoas que por passarem a noite nesse trabalho decadente, dormiam durante o dia, sem se inquietarem com as desordens que haviam semeado à sua volta.
Passadas mais de oito décadas, dou-me conta de como, quase de repente, se entrou na rampa de descida que, além da perda irreparável de valores, reintroduziu no nosso viver comum, hábitos ancestrais, agora despidos de qualquer referência ao transcendente.
Saudade daqueles tempos?
Sim, que tenho algumas: como, por exemplo, daquela procissão que se realizava à volta do último domingo – os trabalhos agrícolas exigiam que fosse assim -, organizada pela juventude feminina; procissão de louvor e reparação, com as imagens de Nossa Senhora que se veneravam nas capelas da paróquia. E, diga-se de passagem, que era um lindo cortejo, tão recheado de fé e piedade, que isso bastava para esconder alguma falta de arte e gosto, que os espíritos cultos mais exigentes porventura detectavam em algumas representações da Mãe que, era evidente, todos veneravam.
Sim. Confesso que tenho saudades: disso e de certas campanhas, pensadas e organizadas por gente da terra, que conhecia tão bem como quem nela vivia.
Como exemplo, aquele desagravar pelos pecados que se cometiam nos grupos – os ranchos de então – que se ocupavam dos trabalhos do campo, durante a Primavera e o Verão; desagravo que se tinha especialmente presente na festa e procissão referidas.
Não se trata de querer restaurar o que hoje não seria possível, a não ser como imitação sem sentido, como abundam por aí, hoje.
Do que se trata verdadeiramente, é de recuperar esse sentido, isto é, a consciência que se tinha das fraquezas e misérias humanas, hoje tão esquecidas quanto ampliadas e agravadas, ou, pior ainda, transfiguradas em rampas de descida para o abismo onde, com as culturas se afundam os povos.
Às vezes ouvem-se vozes mal informadas que, ao analisarem superficialmente os acontecimentos transmitidos por uma historiografia, nem sempre ideologicamente neutra, acusam o cristianismo de ter liquidado a cultura ocidental; se valesse a pena discutir com tais espíritos, poderíamos começar por apontar o erro fundamental de quem confunde cultura com civilização.
Mas basta que se lance um olhar desapaixonado, não apenas sobre o ocidente europeu dos últimos milénios, mas de todo o orbe, com particular atenção para o chamado mundo bíblico; basta esse olhar desapaixonado para se perceber como, apesar de todos os erros e instrumentalizações, foi a religião que mais contribuiu para a conservação de dados culturais e civilizacionais que hoje ajudam os esforço dos estudiosos na reconstituição das civilizações antigas.
Mas, de facto, falamos do cristianismo, que, se nos atemos ao essencial da mensagem evangélica, ou melhor, ao mistério do Reino messiânico, anunciado e consumado por e em Jesus Cristo, não teve, nem nunca terá rival na capacidade de assumir das culturas e civilizações o que nelas está conforme com a suprema dignidade da pessoa humana.
Para isso mesmo, para que a novidade do Reino não ficasse prisioneira duma qualquer cultura ou civilização, o Verbo eterno de Deus, feito homem verdadeiro, aceitou ser injustamente condenado à morte infamante, no tribunal religioso e civil; não naturalmente para aprovar sentenças injustas; mas para que se entendesse que acima de tudo era necessário salvar o homem e se percebesse que todo o julgamento a partir de critérios alheios ou contrários à sua relação transcendente com Deus, é sacrílego.
Estou a pensar na fé, pela qual tantos milhões têm dado e continuam a dar a sua vida; mas penso que não estou muito errado se disser que também aqui há qualquer coisa que poderia dar algumas luzes aos políticos, que não sabem como vencer os terrorismos que perturbam a existência das comunidades que eles deviam cuidar melhor.
Para não ir mais longe, nos problemas da migração, bastaria ter em conta que, enquanto a integração é um direito fundamental da pessoa que se desloca, a assimilação acaba por esmagar os direitos de todos: quem está e quem chega.
(Fátima, 25.05.01/02)