Na missão há também nuances de pandemia

No dia em que toda esta pandemia se estendeu a Portugal, recordei os meus companheiros de missão na Etiópia e toda aquela messe de pessoas que ali vivem. Pensava “Se aqui os numerosos casos se multiplicam num piscar de olhos, como será na missão?”.
Pedro Nascimento com a Comunidade de Gilgil Beles (Irmãs Franciscanas, Missionários Combonianos do Coração de Jesus, Irmãs Missionárias Combonianas, Irmãs de São José do Sagrado Coração e o Bispo de Benishangul-Gumuz)

No dia em que toda esta pandemia se estendeu a Portugal, recordei os meus companheiros de missão na Etiópia e toda aquela messe de pessoas que ali vivem. Pensava “Se aqui os numerosos casos se multiplicam num piscar de olhos, como será na missão?”. Rapidamente troquei meia dúzia de mensagens com o Pedro Nascimento, LMC em missão na Etiópia. 6 casos eram detectados. Atrás daqueles 6 haveriam uma fila de tantos outros que serão identificados, e muitos mais que não contarão para estatística. Num lugar onde ser/estar doente faz parte da vista diária, onde a falta de recursos médicos não permite a mínima avaliação ou acompanhamento, onde a propagação de um vírus é acelerada pelos amontoados de gente ao virar da esquina, esta será apenas mais uma entre tantas doenças que já existem e das quais se morre (malária, tifo e febre tifóide, etc.). Ainda que estes números não apareçam (muito) na TV, eles existem. E talvez sejam consideravelmente diferentes daqueles escritos (pela falta de diagnóstico). 

Previamente à Páscoa, recebi um e-mail do Pedro com votos de Santa Páscoa. Anexadas a esses votos, vinham as suas palavras, como sempre, sábias. Partilho convosco.

Pedro com as crianças em Gilgil Beles

Pedro com as crianças em Gilgil Beles

Esta será uma Páscoa diferente. Para dizer a verdade, todas as Páscoas são diferentes, ainda que para os nossos olhos e coração, por vezes adormecidos, tudo pareça igual.

O Covid-19 mudou a nossa vida, fez-nos recordar de que somos pó e em pó nos tornaremos. Uma fragilidade que não nos retira dignidade mas que nos permite aumentar a esperança e a fé em Deus. Afinal a morte não é mais que uma passagem, como nos ensina Jesus com a Sua vida.

(…) Também nós na missão, estamos em quarentena. Todas as actividades foram suspensas. Já existe alguma informação sobre procedimentos de higiene, porém, a realidade aqui é completamente diferente da nossa. Iniciámos agora o Estado de emergência. Será impossível realizar confinamento como em Portugal: se não morrem de Covid-19, podem morrer de fome, por falta de alimentos, de trabalho ou de dinheiro. Se não morrerem de Covid-19 ou de fome, morrem vítimas de guerras étnicas como tem acontecido aqui. Tem morrido imensa gente nos últimos dias. As pessoas vivem com medo, os nossos gumuz evitam sair à rua ou fugiram para as aldeias do interior ou para a floresta. Vivemos numa cidade pertencente ao estado de Benishangul-Gumuz mas os gumuz não são a maioria nesta cidade e existe o desejo, para muitos, de que não vivam nesta cidade, de que não possam ir à escola (há um mês entraram na escola e tentaram matar 3 jovens gumuz).

A pertença étnica ainda é muito forte na Etiópia. Esta realidade fere-me o coração. É uma realidade que me ultrapassa. Tenho esperança que a normalidade regresse. Na cidade, a maioria das lojas estão fechadas.

Seja aqui, seja em Portugal, na Europa e em todo o mundo, estamos todos a viver a Paixão e Morte de Jesus na nossa vida, na nossa carne! Espero que também possamos viver todos a Sua Ressurreição no nosso coração.”

Copio e colo os votos do Pedro, no desejo de que esta Páscoa tenha sido um lugar de encontro verdadeiro com Cristo Ressuscitado e que, em breve, a Luz deste mesmo Cristo possa ser consumada com o regresso do tempo em que podemos estar juntos como irmãos, reunidos em Igreja.

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