NA HORA DA ORFANDADE

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Nascido a meio do penúltimo ano de pontificado de Pio XI, creio bem que as primeiras memórias de alguma conversa ouvida em casa e que se referia ao sofrimento do Papa, por causa da guerra, falava de Pio XII.

A respeito dele, diziam as pessoas, na sua linguagem hiperbólica, mas não sem um profundo significado eclesiológico, que “o Padre Santo de Roma, sofria e rezava tanto pela paz, que tinhas os joelhos em sangue”.

O Padre Santo, naqueles tempos e naquelas terras, quando e aonde não haviam chegado ainda os anglicismos, precursores do colonialismo cultural americano, que nos ficaria como mais uma das grandes tragédias derivadas da última Grande Guerra, o Padre Santo de Roma era o sucessor de São Pedro, que nós, entretanto começámos a chamar Santo Padre; até que a secularização da nossa cultura, veiculada sobretudo pelos órgãos de comunicação social, começou a ver no bispo de Roma, apenas o Papa, ou, pior ainda, o Chefe da Igreja Católica.

Vão por aqui as minhas reflexões desta manhã chuvosa – não sei se a Primavera está ainda para vir, ou se já nos deixou, com vergonha dos nossos disparates – desta manhã chuvosa em que a liturgia romana, depois de celebrar essa figura extraordinária de mulher do século XV, que foi Santa Catarina de Sena, recorda São Pio V, junto da sepultura do qual, repousam desde anteontem os restos mortais do nosso querido Papa Francisco.

Apetecia-me recuperar a expressão tão simples e tão carinhosa da minha infância: os restos mortais do Padre Santo de Roma.

Francisco e Pio, sepultados lado a lado, numa igreja dedicada por um Papa mal-amado, à Virgem Santíssima, Maria, que Deus, ao fazer-se homem, por nós e connosco, quis que fosse sua e nossa mãe.

Mãe e figura da Igreja, no seio da qual, pelo Baptismo, nascemos para a vida que, com tanta dor, nos mereceu o Filho, na sua morte e ressurreição.

Todo este mistério se descobre por detrás do sinal que é a figura do sucessor directo de Simão Pedro. Por isso há quem teime em pensar que esta é a hora do luto, da orfandade. E, num certo sentido, tem razão.

Com o máximo respeito pelos corações mais colados à imanência, à saudade do transitório, atrevo-me a dizer que é sobretudo a hora de aprofundar a consciência da nossa filiação divina, encarnando de uma vez para sempre, na mente e nas acções, aquilo que acabou por ser o último apelo de Papa Francisco: a fraternidade universal.

E transformarmos a hora da orfandade no tempo e no espaço de luta por uma reabertura do coração aos irmãos, de perto e de longe, desistindo finalmente de criar barreiras, tantas vezes com o pretexto sacrílego de servir Aquele que, na cruz, abriu os braços para acolher a humanidade inteira.

Todos na intimidade do Pai, cujo reconhecimento, como dizia o Papa Francisco, é absolutamente necessário para percebermos o que significa ser irmão, nesta família dos que, como diz o quarto evangelho, “não nasceram de laços de sangue, nem de um impulso da carne, nem da vontade de um homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 13).

Há que fechar a boca e os ouvidos, para não dizer nem escutar palavras que, em vez de construírem pontes, cavam abismos, acirrando as diferenças no secundário, quando do que temos necessidade é de que se aprofunde o essencial.

Não se perder no oceano de conjecturas com que, consciente ou inconscientemente, acirramos lutas internas, reduzindo, às vezes de modo verdadeiramente drástico, os caminhos da unidade e da paz.

Copio a fórmula de súplica, para estes dias de espera, que me chegou, agradeço e utilizo, na minha oração pelo novo Papa:

“Suplicamos, ó Deus, com humildade: que vossa imensa piedade conceda à Sacrossanta Igreja Romana um Pontífice que pelo seu zelo por nós, Vos possa ser agradável, que seja assíduo no Governo da Igreja para glória e reverência do Vosso nome. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Sano, Deus, por todos os séculos dos séculos. Amen.”

Pedir a Deus, com humildade!

Porque sabemos que só Ele sabe e pode.

Tão humildes, tão humildes, que evitemos os discursos daqueles que às vezes parecem querer ensinar o Espírito Santo; quando não têm mesmo o tom de uma reivindicação, da qual há que pedir perdão, primeiro porque ofende a Deus, depois porque, em qualquer dos casos, como todos sabemos pela história milenar da Igreja, produz um ninho de anticorpos que condicionarão tanto a escolha como o ministério do futuro Papa.

Porque muito do que se diz nas tribunas indiscretas da opinião pública tem a marca das quezílias, dos ciúmes e das de escolas, teológicas ou não, atrevo-me a terminar com algumas palavras respigadas de um comentário da Santo Agostinho ao Salmo 103 (104): segundo o santo bispo e Doutor, Deus, que não maldiçoa ninguém que desapareçam os todos os ímpios da terra: “que quer dizer isto? Que deixem de ser iníquos: que sejam santificados, de tal modo que já não seja iníquos”.

Por outras palavras: não se trata de saber quem é mais santo, mas de o sermos todos cada vez mais.

(Iniciado a 30 de Abril, concluído e publicado em 25.05.01)

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