Já nesta página falámos dos vários significados da palavra “modelo”, e demos, pelo menos, a entender que ela, segundo o uso que tem hoje, é de todo inadequada à expressão do que na teologia ascética e mística, se quer dizer com a palavra modelo, porque, rigorosamente falando, nem jesus Cristo será um modelo: o que realmente Ele é para nós, é o caminho para o Pai; que o mesmo é dizer que não se trata de O imitar, de se transformar n’Ele: ser outro Cristo, ou, como repetia com frequência São Josemaria Escrivá, “o próprio Cristo”.
Esclarecido este ponto, torna-se evidente que, quando falo de modelos de vida cristã, não me refiro a nada nem ninguém que devamos copiar, ou mesmo só imitar, para que a nossa vida seja realmente cristã: o meu ponto de vista, neste momento, é referir algumas vidas que documentam aquilo que sempre foi doutrina da Igreja, mas que só no último concilio ecuménico, foi solenemente proclamado pelo Magistério da mesma Igreja. que, isto é, todos os baptizados são chamados à perfeição da Caridade; ou seja, todos podem e devem lutar pela santidade.
Também era hábito dizer que as canonizações, que formalmente são tomadas de posição do Papa, no âmbito do seu ministério pastoral, sobre algumas vidas em particular, se destinavam a apresentar aos fiéis modelos dignos de imitação; o que, mais uma vez, apesar de não estar errado, reduz o verdadeiro significado, não apenas das canonizações, mas da presença dos luzeiros de santidade, no seio da comunidade cristã.
Emprego, pois, a expressão, “modelos de vida cristã”, como quem refere documentos indiscutíveis, perfeitamente legíveis e capazes de certificar, uma qualquer verdade. Neste caso, a verdade sempre reconhecida e ensinada pela Igreja, embora demasiado esquecida pelos hagiógrafos, a verdade da vocação universal à santidade.
Não poderei nunca esquecer a reacção daquela auxiliar de enfermagem, quando, agradecido pelo carinho com que ali me haviam tratado, ela e as sua colegas, me afoitei a dizer-lhe, eram uns verdadeiros anjos; ela respondeu, em tom um pouco desabrido: eu só não quero é que me chamem santa.
Retorqui com o silêncio, e fui percebendo as suas razões, que provinham, sem dúvida, de uma imagem falsa da santidade; o que, segundo creio, entre outras causas, se deve especialmente a duas falhas da pastoral que, com perdão de toda a gente, considero graves: não basta pregar a doutrina; deve-se ilustrar com exemplos acessíveis, reais da vida concreta dos fiéis, que ela não é uma utopia, um sonho irrealizável.
Iniciei esta escrita no dia em que o Papa canonizava dois jovens, muito diferentes do ponto de vista social, económico e profissional, ambos nascidos já neste século. Chamam-se, Pedro Jorge Frassati, advogado, falecido aos vinte e quatro naos, e Carlos Acutis, estudante, falecido aos quinze.
A estes junto são Domingos Sávio, do século XIX, falecido aos catorze anos, menos de um mês, antes de concluir os quinze.
E junto-lhes este jovem, porque tanto de Domingos Sávio, como de Jorge Frassati, eu tive a felicidade de conhecer e ler com o entusiasmo possível a um adolescente, antes de serem elevados à honra dos altares, pela autoridade suprema da Igreja.
Agradeço aos meus formadores desse tempo, que me foram orientando no sentido de perceber o que depois, com o estudo e a meditação, entendi claramente: ou seja, que os santos não são o caminho, mas, além de intercessores, o sinal vivo de que, quaisquer que sejam as circunstâncias concretas da existência de cada um, todos podem segui o caminho que é o próprio Jesus Cristo.
Jesus Cristo que, mais do que querer que O imitemos, quer que nos identifiquemos com Ele.
Escutei um dia as palavras de alguém que reagia contra o esforço das comunidades que procuram promover a elevação à honra dos altares algum dos seus membros.
Respondi com o silêncio porque me pareceu que a mensagem não trazia qualquer proposta de diálogo: seria apenas uma reacção de quem, pesar das suas responsabilidades pastorais, se deixava conduzir por uma mentalidade secular, completamente esquecido da doutrina conciliar a esse respeito.
Achava esse meu interlocutor que, com isso, a Igreja continuava o olhar para o passado, quando o importante era, antes, ocupar-se do presente.
Não respondi então; mas atrevo-me a sintetizar aqui, para terminar, o meu pensamento:
Pode haver muitas motivações para promover uma beatificação ou canonização; motivações nem todas válidas à luz da fé, algumas talvez mesmo negativas, para não dizer más.
De uma, porém, não pode a Igreja prescindir: não pela necessidade de promover seja quem for ao que quer que seja: mas porque os santos são o único sinal indiscutível de que ela cumpre a sua missão; missão que, por muito que se tente fazer dela outra coisa, consiste em santificar o mundo por dentro. E só se santifica o mundo por dentro, se as pessoas, qualquer que seja a sua idade, sexo, raça e condição, recebem e aproveitam, para se irem identificando com Cristo, os subsídios que o mesmo Cristo lhes oferece na Igreja, que é o Seu mistério presente na história dos homens.
Sem os santos, a Igreja poderia ser uma ONG muito útil; mas não seria nunca a Igreja de Cristo.



