Mensagem Quaresma 2021: A cultura do cuidado recíproco, caminho de conversão

Este ano viveremos a Quaresma no contexto da terceira vaga da pandemia mais complicada e cheia de incerteza. Gerou-se um ambiente onde se respira cansaço, perplexidade, desconcerto, esgotamento face às feridas pessoais e familiares e aos efeitos económicos e sociais que a crise pandémica deixa atrás de si.
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A Quaresma é para os cristãos uma ocasião bela e propícia para cuidarmos do nosso espaço interior a fim de reencontrar o essencial das nossas vidas e renovar a nossa relação com o Senhor e com os outros, nossos irmãos.

Este ano viveremos a Quaresma no contexto da terceira vaga da pandemia mais complicada e cheia de incerteza. Gerou-se um ambiente onde se respira cansaço, perplexidade, desconcerto, esgotamento face às feridas pessoais e familiares e aos efeitos económicos e sociais que a crise pandémica deixa atrás de si. Mesmo ao nível da fé sentimos os efeitos das restrições sanitárias na ausência de celebrações e adiamento de atividades pastorais comunitárias, com certo enfraquecimento da vivência da fé e dos laços comunitários de proximidade e fraternidade. Todo este panorama nos leva a interrogar: Será que Deus nos quer dizer algo? “O silêncio da crise que o mundo vive pode ser um espaço vazio ou de escuta. É um vazio ou estamos em fase de escuta?”, interroga-se o Papa Francisco.

Olhando para o nosso mundo ferido, o convite que chega à Igreja para enfrentar e resolver a atual situação de pandemia é o de colocar a atenção na “cultura do cuidado recíproco”, como se depreende da mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz e da encíclica “Todos Irmãos”. Não se pode viver ignorando o outro porque “estamos todos na mesma barca”, todos interdependentes. A cultura do cuidado é a expressão de responsabilidade evangélica e cívica que cada um de nós deve viver e testemunhar. 

Cuidar da Fé, Esperança e Caridade

Na mensagem para a Quaresma, o Santo Padre convida-nos a cuidar antes de mais as virtudes fundamentais do cristão: a fé, a esperança e a caridade. Elas estão no fundamento do cuidado recíproco, inspiram-no e alimentam-no. Eis apenas três citações da mensagem que ilustram bem este aspeto:

A Quaresma é um tempo para acreditar, ou seja, para receber a Deus na nossa vida permitindo-Lhe «fazer morada» em nós (cf. Jo 14, 23). Jejuar significa libertar a nossa existência de tudo o que a atravanca, inclusive da saturação de informações – verdadeiras ou falsas – e produtos de consumo, a fim de abrirmos as portas do nosso coração Àquele que vem a nós pobre de tudo, mas «cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14): o Filho de Deus Salvador”. Abrimos o nosso coração a Deus escutando-o através da leitura orante da Palavra de Deus e do colóquio pessoal ou comunitário. Para este efeito propomos o já habitual retiro popular com o lema: “À mesa da Palavra e do Pão da Vida”.

Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), «sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [no-la] peça» (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia… No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolhermo-nos para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura”.

Por fim, o Papa apresenta a caridade como a mais alta expressão da nossa fé e esperança: “A caridade alegra-se ao ver o outro crescer; e de igual modo sofre quando o encontra na angústia: sozinho, doente, sem abrigo, desprezado, necessitado… A caridade é o impulso do coração que nos faz sair de nós mesmos gerando o vínculo da partilha e da comunhão”.

A medicina espiritual do cuidado recíproco

A experiência da fragilidade na pandemia fez-nos sentir que todos temos necessidade uns dos outros. Conduz-nos a viver a caridade como cultura do cuidado recíproco para construir uma sociedade de relações fraternas. Nenhum de nós reparará o mundo sozinho. Ao vírus do individualismo e da indiferença aplica-se a medicina do cuidado recíproco. Devemos ter presente que cuidar não se limita a prestar cuidados indispensáveis. Começa antes demais por aproximar-se do outro, olhá-lo não como estranho, mas como nosso próximo, escutar o seu sofrimento como quem escuta um coração que bate, estabelecer uma relação de acolhimento, respeito, ternura, confiança, delicadeza e serviço. Só o amor nos dá olhos para ver, um coração para ser sensíveis, inteligência para ser criativos de cuidados e serviços, mãos para levar ajuda.

Recuperar a amabilidade nas relações humanas 

Nesta linha, o Papa Francisco assinala a urgência de recuperar a virtude da amabilidade para nos tornarmos “estrelas no meio da escuridão” (FT 222).

“A amabilidade é uma libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes… Uma pessoa amável deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença. Este esforço, vivido dia a dia, é capaz de criar aquela convivência sadia que vence as incompreensões e evita os conflitos. O exercício da amabilidade não é um detalhe insignificante nem uma atitude superficial ou burguesa. Dado que pressupõe estima e respeito, quando se torna cultura numa sociedade, transforma profundamente o estilo de vida, as relações sociais, o modo de debater e confrontar as ideias. Facilita a busca de consensos e abre caminhos onde a exasperação destrói todas as pontes” (FT 224).

Partilha solidária: a renúncia quaresmal para a Cáritas diocesana

O cuidado recíproco leva-nos a percorrer o caminho da solidariedade ativa quer na responsabilidade pelo bem comum quer no apoio aos mais pobres e necessitados. 

Neste contexto situa-se a chamada “renúncia quaresmal” como expressão da partilha solidária de bens. No ano passado, o resultado da renúncia estava destinado à diocese de Tete em Moçambique. Em virtude das restrições a que o confinamento nos obrigou, não foi possível proceder à recolha dos donativos em todas as comunidades. Por esse motivo, entendemos e anunciámos na altura que a renúncia quaresmal deste ano seria para a mesma diocese de Tete. Entretanto chegou-nos um apelo da Presidente da Cáritas nacional para a destinar à Cáritas de cada diocese, invocando o motivo do aumento exponencial do número cada vez maior de pessoas e famílias que recorrem às Cáritas diocesanas. Estas, por sua vez, encontram-se em dificuldades económicas porque no ano passado não foi possível fazer o habitual peditório de rua (como também não será este ano), nem o previsto ofertório. Por isso, tendo ouvido o Conselho de Vigários, decidimos enviar à diocese de Tete a recolha do ano transato, com a promessa de a completar com a renúncia quaresmal do próximo ano, 2022; e que a renúncia da quaresma deste ano de 2021 será destinada à Cáritas diocesana pelos motivos expostos.

Sacramento da Penitência e da Reconciliação

A Quaresma é um tempo propício para celebrar o sacramento da penitência e reconciliação. Nele é Deus, rico de misericórdia, que vem ao encontro de cada um com a graça do perdão dos pecados pessoais. Recebemos a alegria da reconciliação com Deus e com os irmãos, da cura das feridas interiores, de avançar no caminho da conversão e da vida nova, de readquirir a serenidade e a paz interior. 

Na atual emergência, sacerdotes e penitentes “devem adotar as prudentes atenções na celebração individual do sacramento, tais como a celebração num lugar ventilado fora do confessionário, a adoção de uma distância adequada, a utilização de máscaras protetoras, sem prejuízo da atenção absoluta à salvaguarda do sigilo sacramental e à necessária discrição” (Penitenciaria Apostólica). 

Nestes condicionamentos, os sacerdotes darão a conhecer os horários de atendimento ou os penitentes poderão marcar previamente com o(s) sacerdote(s).

Lembro o esclarecimento emanado da Penitenciaria Apostólica para uma situação concreta em que os fiéis podem vir facilmente a encontrar-se neste tempo: “Onde o fiel se encontrar na dolorosa impossibilidade de receber a absolvição sacramental, deve-se recordar que a contrição perfeita, proveniente do amor do Deus amado acima de tudo, expressa por um sincero pedido de perdão (o que o penitente é atualmente capaz de manifestar) e acompanhada pela firme resolução de recorrer, quanto antes, à confissão sacramental, obtém o perdão dos pecados, até mortais (cf. CIC, n. 1.452)”.

Peregrinação a Fátima

Do programa pastoral consta sempre a peregrinação diocesana a Fátima, ao encontro de Nossa Senhora e nossa Padroeira. Também este ano não será possível fazê-la na forma habitual com a presença da assembleia dos fiéis. Vamos realizá-la sob a forma de peregrinação interior. Como bispo celebrarei a santa Missa no Santuário com uma representação muito reduzida de cada vigararia. Esta celebração é transmitida pela TV Canção Nova e possibilita que muitos estejam espiritualmente unidos.  

Maria, mãe de Jesus, soube unir o amor e a ternura com a esperança de uma conversão evangélica. É bom que, mesmo em peregrinação interior, elevemos os olhos e o coração para Ela. Como seus filhos estamos certos de que nos acompanhará com o cuidado e a ternura de mãe. Ela cuidará da nossa fé e da nossa esperança e nos ensinará a cuidar uns dos outros como irmãos, com amor fraterno. E assim também nos ensinará a viver a Eucaristia como sacramento do amor na sua dimensão sacramental e na sua dimensão fraterna e missionária.

Programação Pastoral 

Todos sabemos como a pandemia veio alterar os nossos programas com novas surpresas pelo caminho. Também nós tínhamos traçado um programa pastoral para este primeiro ano do biénio dedicado à “Eucaristia, comunidade cristã e missão”, na esperança de que a pandemia regredisse. Aconteceu o contrário. Por isso, sentimo-nos obrigados a adiar para o próximo ano algumas atividades programadas para este. Assim, em vez de um biénio teremos um triénio dedicado ao mesmo tema. Este primeiro ano não é vazio, mas de lançamento, sensibilização e motivação com as atividades possíveis de implementar. 

Invocando a proteção de Nossa Senhora de Fátima, de Santo Agostinho e dos santos Pastorinhos desejo a todos uma santa Quaresma!

Leiria, 15 de fevereiro de 2021. 

† Cardeal António Marto, Bispo de Leiria-Fátima

Refª: CE2021B-003

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