Melhor, era estragar

Aparece um vulto lá ao fundo daquele corredor largo e comprido. A luz que atravessa o átrio, apenas deixa ver a silhueta de um homem. Percebe-se já idoso pela curvatura do tronco que presta reverência às paredes que o circundam. O seu andar é miudinho e arrastado da vida que lhe ensinou que agora não há pressa para chegar a lado nenhum.

Acabamos por nos cruzar. À distância, eu já sabia quem ele era pelos contornos que a luz lhe lhe desenhava, onde se impunha o boné que fazia questão de proteger dos raios de sol mais agrestes o couro manchado pelos anos. Estendo-lhe a mão no habitual cumprimento que ele fazia questão de ser peculiar. Não dá para explicar: pretendendo ser um aperto de mão, o jeito era mais de quem rodava a bola da maçaneta de uma qualquer porta. Talvez quisesse entrar… eu sei lá. O que sei é que já me tinha habituado àquele passou-bem, uma espécie de assinatura a personalizar um gesto tão banal.

— Quem és tu? — perguntava. Tal como o manuseado cumprimento, também não estranhei a costumeira pergunta. Afinal, para além de todas as dificuldades de locomoção, os anos também se encarregaram de lhe levar grande pedaço da visão que agora era turva e apenas lhe permitia enxergar as sombras por onde andava. Disse-lhe o meu nome e perguntei-lhe como estava. A resposta, essa já a adivinhava:

— Melhor, era estragar. — Desconcertava-me e não era pouco. Aquilo que muitos poderiam entender como resignação ou desistência, era uma expressão de fé, da força que a fé tem para ultrapassar as intempéries humanas. Não era sarcasmo ou ironia, mas uma manifestação do riso de Deus, do qual dizia António Alçada Baptista que “a letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana”.

O padre António Gameiro era, para muitos, essa pequena resposta. Na sua simplicidade e humor, trazia um coração enorme, daqueles de quem dizemos que todos os padres deviam ser assim. E por isso deixa saudades da sua presença fugaz, que passava por nós com a mesma rapidez com que nos indelevelmente marcava.

Post scriptum. Percorro a cronologia da rede social da Diocese e o padre Gameiro mostra-me estes números: 23.882 pessoas alcançadas e 5459 interações. São dígitos frios que, por nunca terem sido alcançados naquele espaço virtual, podem ser lidos à luz da vida daquele sacerdote: feita a criar relações.

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