MEDITAÇÃO DA TARDE

Quase me fez estremecer a gritaria histérica daquele pregador islâmico, que incitava ao ódio e à guerra, repetindo palavras chegadas até nós com quinze séculos de conquistas e massacres e que encontram na ignorância de jovens e menos jovens, terreno fértil para o geminar dos gestos de ódio e de morte.

Estive para escrever, “meditação do entardecer”, porque me doíam os ouvidos de tantos ecos negativos, carregados de um ódio mortal, a fazer esquecer as ameaças do corona vírus, esta pandemia que, mais mascarada que as pessoas, consegue enganar as técnicas dos laboratórios e irá enganando, enquanto não chegarmos à sua exacta raiz. O ódio das ideologias, instaladas em todos os quadrantes da sociedade, para julgar e condenar os outros, no mais descabelado maniqueísmo que a História alguma vez terá conhecido.

Quase me fez estremecer a gritaria histérica daquele pregador islâmico, que incitava ao ódio e à guerra, repetindo palavras chegadas até nós com quinze séculos de conquistas e massacres e que encontram na ignorância de jovens e menos jovens, terreno fértil para o geminar dos gestos de ódio e de morte.

Chega-me, mesmo com as janelas fechadas, o barulho ensurdecedor dos anticolonialistas, antirracistas, antifascistas, anti-… tudo. No fundo, uma multidão imensa de adolescentes a querer matar o pai, povos inteiros, contra a própria história, em nome de duvidosos e abstractos direitos históricos.

Assim, acossado por tão ruidosa gritaria, peguei na escrita a pensar no fim dos tempos, num apocalipse sem esperança, ao contrário do livro de João, que só se chama assim por uma lamentável confusão dos seus primeiros leitores de língua não grega, que, em vez de traduzirem o nome que lhe deu o seu autor, desejoso de reacender a alegria e o entusiasmo dos cristão do seu tempo, se limitaram a adaptar o nome original, com tudo o que na sua tradição literária ele evocava de trágico e misterioso. E foi assim que a maravilhosa REVELAÇÃO (“apokálypsis”) de Jesus Cristo se tornou no “Apocalipse de João”, com um título que aumenta as dificuldades de leitura inerentes ao seu próprio estilo.

Rectifiquei a minha visão “apocalíptica”, por fidelidade ao conteúdo intencional do livro de João, mas sobretudo porque reli os textos bíblicos da missa deste sábado. E veio-me à ideia que, de facto, o entardecer que nos rodeia só pode ser absoluto precisamente para quem mais faz por agravá-lo.

Claro que não pode deixar de nos doer o espectáculo das ruínas que cobrem este pobre mundo, sobretudo quando elas escondem de forma tão avassaladora o amor criador e redentor de Deus. E a perspectiva sombria, ainda que as suas trevas sejam reduzidas pelo sol da Esperança, do regresso de uma “normalidade”, que, se não é acompanhada da conversão dos corações, não augura nada de bom.

Para mim, não há entardecer: há, sim, o “fez-se tarde e manhã” do livro do Genesis, que me passa pela mente enquanto leio São Paulo:

“Irmãos: Muito me alegrei no Senhor, por ter finalmente reflorescido o vosso interesse por mim. Ele estava vivo entre vós, mas não tínheis tido ocasião de o manifestar.

Não é por causa das minhas privações que o digo, pois aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei viver na pobreza e sei viver na abundância.

Em todo o tempo e em todas as circunstâncias, tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade. Tudo posso n’Aquele que me conforta (Fil 4, 10-13).

São Paulo, cujo ensino terá certamente inspirado as palavras que São Lucas põe na boca de Jesus, logo a seguir à parábola do administrador infiel:

«Arranjai amigos com o vil dinheiro, para que, quando este vier a faltar, eles vos recebam nas moradas eternas. Quem é fiel nas coisas pequenas também é fiel nas grandes; e quem é injusto nas coisas pequenas, também é injusto nas grandes. Se não fostes fiéis no que se refere ao vil dinheiro, quem vos confiará o verdadeiro bem?» (Lc 16, 9-11).

Tentando ultrapassar o carácter excessivamente redutor da tradução portuguesa, sem, contudo me armar em sábio, que não sou de facto, tomo como “vil dinheiro” tudo aquilo que recebi de Deus, ou melhor, tenho de Deus, para o administrar convenientemente, isto é, vindo d’Ele e destinando-se a Ele, à Sua glória.

Tudo, com extrema fidelidade, não buscando senão o conforto de Jesus Cristo, como Paulo, que assim, em plena penúria da prisão, dizia que nada lhe faltava e insistia com os cristãos que se alegrassem em tudo.

Nada me falta!

Pode vir um tempo em que nem sequer possa aproximar-me da janela para louvar o Senhor, que tudo criou para mim: mas dar-me-á um enorme conforto, que sinto já quando penso nisso, saber que Deus continua a contar comigo como administrador fiel… ainda que seja apenas deixar que cuidem de mim os que têm essa missão. E se os não houver? Deus providenciará, meu filho! Respondeu Abraão a Isaac.

(retirado do facebook do autor)

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