Depois da primeira hora de oração com que habitualmente começo as lides matinais e que inclui a Missa e o Terço, subi as persianas e abri as janelas, procurando o lusco-fusco e o ar fresco da madrugada: E ouvi cantar um melro!
Já sei, nos bordões da nossa linguagem familiar – pelo menos era assim na minha aldeia, há umas décadas – “ouvir cantar o melro” (muito mais do que cantar o galo e menos que o cuco), tem uma grande variedade de sentidos que, segundo o contexto da conversa, podem ir do perfeitamente inócuo ao cruelmente injurioso.
Claro. Estou bem consciente disso; mas a minha frase é totalmente informativa: de facto ouvi cantar, com boa melodia, mas estridente, um melro, (turdus merula, espécie voadora típica do território português), um melro que depois se retirou, deixando-me um eco da Primavera, como que a convidar o aumento da alegria que me inspirava sobretudo o memento litúrgico.
Tinha-me unido aos institutos religiosos que hoje celebram Nossa Senhora com o título de Mãe do Divino Pastor, tendo presente aquele encantador gesto do Papa, quando nos convidou a rezar com ele a Ave Maria: rezei com ele, por ele e, consequentemente por toda a Igreja.
A Igreja, os fiéis do mundo inteiro, os que Leão XIV acaba de acolher do Senhor, como objeto da sua solicitude pastoral.
E foi a pensar nisto que me ocorreu o texto atribuído pela tradição crente, ao primeiro sumo pontífice:
“Caríssimos, se, fazendo o bem, sofreis com paciência, isso é uma coisa meritória diante de Deus. Ora, foi para isto que fostes chamados; visto que Cristo também padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se encontrou engano; ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga com justiça; subindo ao madeiro, Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados. Na verdade, éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao Pastor e Guarda das vossas almas” (I Pedro 2, 20-25).
O apelo à paz inerme
Recordo-me que o Santo Padre, ao dirigir-se à multidão naquele fim de tarde emocionante, falou da construção de uma “paz inerme”. Expressão que me fez pensar nas palavras de Robert Schuman, na proclamação do que hoje se designa por União Europeia, mas que do pensamento dele, em meu entender, não passa de uma caricatura. Uma paz inerme, sem armas, afinal, só se alcança com a adesão ao que Simão Pedro designa por Pastor das nossas almas.
Foi também por isso que ontem, Leão XIV, na sua primeira missa, celebrada na Capela Sistina, entre outras coisas, disse, não como um desabafo, mas síntese de um programa para toda a Igreja: “Ainda hoje, não faltam contextos nos quais Jesus, embora apreciado como homem, é simplesmente reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem, e isto não apenas entre quem não crê, mas também entre muitos batizados, que acabam por viver, a este nível, num ateísmo prático.”
Há tantas décadas que ouço falar do ateísmo prático de muitos que se dizem crentes e católicos!
Leão XIV, que conhece, por informação correta e vida gasta entre povos diferentes, como religioso, homem de cultura, missionário, bispo e cardeal, deixa-nos, no fundo, o apelo mais premente do Evangelho, que no texto de Simão Pedro é já um eco da tradição, e que tem de se repetir cada vez com mais força, porque esse ateísmo prático é tão claro nos nossos dias, que temos de intensificar a nossa vida teologal – Fé, Esperança e Caridade – para descobrirmos que, de facto, não poderiam acontecer as realidades a que, em momentos muito dolorosos, temia São Paulo VI.
Jesus Cristo “reduzido a uma espécie de líder carismático ou super-homem”!
Afinal, que ouvimos nós, quando lemos os jornais ou ligamos os canais informativos das televisões? Como falam eles do sucessor de Simão Pedro? E porque falam tanto?
Debates e reportagens, com textos falados e escritos, tantas coisas erradas e distorcidas, que temos muita dificuldade em distinguir a ignorância da má fé.
É todo um mundo a evangelizar, com a humildade e a coragem de Simão Pedro, que, quando alguns companheiros abandonam o grupo, por não aceitarem a doutrina do “Pão da vida”, responde ao desafio do Mestre:
“Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus»” (João 6, 67-69).
Volto ao início: rezo à Mãe do Divino Pastor, nascido do seu ventre imaculado, totalmente disponível ao amor eterno de Deus, o Espírito Santo, que acaba de conceder à Igreja o dom de Leão XIV, não como líder, mas como servo dos servos de Deus, rogo a tão solícita Mãe que todos nós saibamos imitar o humilde pescador da Galileia, no final do debate de Cafarnaum.
(Fátima, 25.05.10)



